D. José Tolentino fala sobre Arquivo Secreto do Vaticano e a Biblioteca Apostólica, a relevância que pode ter no Pontificado do Papa Francisco e das «convergências» que pretende promover num cargo onde vai começar por aprender e depois encontrar «um fio condutor» que faça justiça à sua «riqueza extraordinária»

Entrevista conduzida por Paulo Rocha

 

Agência Ecclesia (AE) – A partir do início de setembro D. José Tolentino Mendonça vai guardar e coordenar todo o dinamismo em torno da Biblioteca do Vaticano, a mais antiga do mundo. Gostaria de iniciar esta conversa com uma consideração feita por um professor desta casa (Universidade Católica Portuguesa – UCP), Mendo Castro Henriques: «A mais antiga biblioteca do mundo é entregue a alguém com rara capacidade de pensar o futuro». É o que está em causa no trabalho nesta Biblioteca?

D. José Tolentino Mendonça (DJTM) – Uma biblioteca, que é um grande repositório da memória da Igreja, dos Papas, do cristianismo e da Humanidade (porque na biblioteca estão documentos que testemunham as culturas do Ocidente, do Oriente, tesouros da identidade dos povos que se conservaram através dos séculos), é um espólio que representa a memória dos homens mas, ao mesmo tempo, há ali uma força de futuro como nós dizemos, das raízes.

As raízes não são o passado da árvore, são a garantia da sua vitalidade. Por isso o Arquivo e a Biblioteca Apostólica são uma garantia da vitalidade e do futuro da própria Igreja.

 

AE – Estará aí o desafio de dar vitalidade a algo que muitas vezes é tido por estar fechado a sete chaves, conservando pó sobre vários volumes?

DJTM – A realidade não é bem assim! No ano passado aconteceram dezenas de empréstimos a nível mundial de obras e tesouros do arquivo e da biblioteca. Há uma política de empréstimos e de presença que abre as portas do arquivo e da biblioteca ao mundo inteiro.

Há mais de dois mil investigadores creditados junto do Arquivo e da Biblioteca que, ao mais alto nível, fazem as suas investigações. De secreto tem pouco!

Secreto quer dizer privado. É um arquivo que pertence à Igreja, mas claramente penso que é  necessário retirar essa parte ficcional de um arquivo que esconde segredos inacessíveis. Tem os segredos que normalmente qualquer arquivo guarda.

 

AE – É um serviço que inicia em setembro, que presta à Igreja, na cultura?

DJTM – Uma biblioteca é um lugar de cultura, de pensamento, de diálogos, de encontros, é uma fronteira da ciência, onde se guarda a memória mas também onde pulsa o desejo de futuro. Uma biblioteca é a possibilidade de fazer coisas, de estabelecer novos nexos e de dar uma nova vida aos textos.

Os textos não têm apenas uma vida. Têm aquele momento em que foram escritos, mas têm muitas possibilidades escondidas em si.

 

AE – Todas as vezes que são lidos têm uma vida nova.

DJTM – Todas as vezes que são lidos, mostrados, recontextualizados… são possibilidades novas que se abrem.

 

AE – Por isso o professor Mendo Castro Henrique dizia que o D. José Tolentino Mendonça é alguém que tem a capacidade de projetar o futuro, olhando assim a Biblioteca.

DJTM – Eu terei sempre essa preocupação. Por um lado, penso que cabe ao bibliotecário zelar pela integralidade daquele tesouro e fazer tudo para que ele passe nas melhores condições às gerações futuras; ao mesmo tempo, colocá-lo a falar para o presente, dando uma nova oportunidade àqueles textos, permitindo novos encontros que sejam uma sementeira de diálogos, da construção da paz, que é no fundo aquilo que está por detrás da finalidade da cultura.

 

O projeto é aprender

AE – Não acredito que tenha projetos definidos para concretizar, mas terá projetos sonhados nesse sentido?

DJTM – Eu tenho projetos definidos. O projeto é aprender. Quando se chega a um lugar e a um lugar que não se conhece, o que se tem de fazer é aprender com as pessoas que lá estão, ouvir, conhecer, perceber o que se faz, valorizar. E é nessa atitude que eu vou para este lugar e esta missão.

Depois, pouco a pouco, com as pessoas que lá estão, tentar encontrar um fio condutor que faça justiça àquela riqueza extraordinária que é uma biblioteca.

Estamos a ter esta conversa também numa biblioteca e penso que se percebe o significado. É a consolidação da sabedoria de épocas, de gerações, o sonho, as esperanças. Tudo está aqui transcrito nestas obras.

Quando visitou a Biblioteca Apostólica, o Papa Paulo VI disse uma frase muito bela: «A biblioteca é o lugar onde sentimos ressoar os passos de Cristo pela história da humanidade». Essa fidelidade à história da humanidade, uma humanidade que Deus ama, que o Arquivo e a Biblioteca testemunham.

 

AE – Que desafio constitui esse diálogo cultural feito através dos livros de uma Biblioteca que guarda esse repositório da história do cristianismo?

DJTM – É uma responsabilidade muito grande uma biblioteca com esta qualidade. Porque nos ajuda a ser exigentes connosco próprios e com o nosso tempo e a dar elevação ao debate público, a dar profundidade, a dar uma largueza diferente às nossas preocupações que muitas vezes são as mais imediatistas, da agenda, do que se tem de resolver. Uma biblioteca serve para dar profundidade ao nosso olhar, pensamento, para rasgar novos horizontes, para complexificar o que muitas vezes é reduzido de forma simplista. E, nesse sentido, é um contributo enorme para a cultura e civilização.

 

AE – Contributo também para o propósito renovador que o Papa Francisco tem tentado passar a todos aqueles que com ele colaboram?

DJTM – A reforma assenta num mergulho nas raízes, numa profundidade de olhar que permite analisar a história sem ficar preso àquilo que é o mais imediato ou o mais previsível. Os grandes profetas inspiram-se não apenas numa leitura dos sinais dos tempos, mas também procuram inspiração nas grandes figuras do pensamento, nesse capital de inquietação e de sede que habitou, antes de nós, o coração dos homens. Por isso, uma reforma nunca parte do nada, mas coloca-se sempre numa tradição, em continuidade com uma força, um vigor que vem detrás.

No cristianismo sempre foi assim: sempre que a Igreja pensou em reforma, foi sempre redescobrindo as suas próprias origens e o essencial da experiência que ela realiza.

 

AE – A mensagem que escreveu logo após a nomeação do Papa Francisco refere que através da cultura, das bibliotecas, é possível fomentar essa cultura do encontro que o Papa tanto promove. De que forma?

DJTM – Numa biblioteca estão livros muito diferentes. Estão os pontos de vista diversos. Uma Biblioteca é um laboratório da diversidade.

 

AE – Mesmo a do Vaticano?

DJTM – Todas as bibliotecas! E a Biblioteca Apostólica não deixa de ser uma Biblioteca. Tem o testemunho dos mártires, tem as grandes obras dos Papas, cada um com o seu carisma, porque o Espírito Santo é múltiplo. É uno e ao mesmo tempo é múltiplo. O sentido da comunhão não elimina a beleza da diversidade que se complementa evangelicamente. Uma biblioteca é o lugar onde essa atmosfera de comunhão na diversidade se respira.

 

AE – Acredita que na Biblioteca Apostólica vai encontrando a diversidade da experiência do cristianismo ao longo da história? Muitas vezes olhamos para o Vaticano a partir do significado centralizador. Teremos, numa Biblioteca, o seu contrário?

DJTM – A biblioteca testemunha aquilo que o cristianismo é, como experiência fundamental, e o que tem sido historicamente. Isso claramente é de uma beleza muito grande porque, enquanto realidade espiritual, sobrenatural, a Igreja é conduzida pelo Espirito e o Espirito tem fantasia, não nos deixa fixados numa única forma, mas é polifónico, manifesta-se através de vozes e de profetismos diferentes.

Uma Biblioteca do cristianismo tem de fazer justiça à diversidade que está no ADN da própria experiência cristã.

 

Cultura e o desejo de encontro na Igreja Católica

AE – Como vai acompanhando, e acredito que de forma muito próxima, a continuidade dessa diversidade, nomeadamente a que acontece com o diálogo cultural que o Conselho Pontifício para a Cultura promove?

DJTM – O Pontifício Conselho tem, nestes anos, elaborado um conjunto extraordinário de iniciativas que mostram esse desejo, muito grande, de encontro. Saliento uma, que se realizou em Portugal, o Átrio dos Gentios, onde se coloca em diálogo crentes e não crentes, sobre temas que dizem respeito a todos. A vida não é monopólio de ninguém e todos podemos escutarmo-nos com grande ganho, uns aos outros.

O Conselho Pontifício para a Cultura tem sido uma espécie de antena, de sonda, de campo aberto para o diálogo e encontro, e isso tem sido, certamente, muito enriquecedor para a história da Igreja contemporânea. A Igreja ganha muito em ouvir, em conversar amigavelmente sobre os temas, em despertar o encontro, possibilitá-lo, convocá-lo, porque essa é, de facto, a sua missão.

 

Temos de sentir uma sedução pelo ponto de vista diferente

AE – Já voltaremos a esse trabalho do Conselho Pontifício para a Cultura, mas gostava de lhe falar sobre a vontade de dialogar, que marca o ser percurso biográfico… É isso que faz com que crie pontes, em diversos âmbitos culturais, com diferentes personalidades?

DJTM – Penso que um cristão tem de ter uma paixão pelas pessoas, pelos seres humanos. Verdadeiramente não há duas pessoas iguais. Não temos de ter medo da diferença, mas temos de sentir uma sedução pelo ponto de vista diferente, pelo que olha o mundo a partir de outro humor, outro olhar, de outro conhecimento, porque ganhamos sempre com o encontro, com o conhecimento.

Há que vencer as lógicas de capelinha e abrir-se, no fundo, ao que é mais belo, à possibilidade de caminharmos juntos, através da História, e de encontrarmos sentido não naquilo que nos afasta e separa, mas no que nos une que é sempre o mais forte. Todo o ser humano é imagem e semelhança de Deus. É uma obra sagrada e, em cada ser humano, Deus reverbera a sua voz de maneira original e irrepetível.

 

AE – Mesmo sem pronunciar a palavra, acha que ainda permanece alguma atitude prosélita, em muitos desses encontros por parte de atores da Igreja católica?

DJTM – Penso que é algo de parte a parte. Tanto há muitas vezes uma timidez em fomentar o diálogo por parte da Igreja e um receio; como muitas vezes, das pessoas que estão fora, há um preconceito e uma timidez em relação ao que pode ser um diálogo com a eclesialidade.

Há que desmontar medos, receios e fazer experiência.

Não importa que dimensões tenham as experiências: pode ser pequena, no encontro entre pessoas, de uma família, num encontro entre criadores e colegas de trabalho; pode ter uma dimensão grande entre instituições. O que importa é estabelecer essa cultura do encontro como repete incessantemente o Papa Francisco.

 

AE – E é essa a sua experiência de duas  décadas, em Lisboa, após o doutoramento?

DJTM – São 20 anos de trabalho na Universidade, na Pastoral da Cultura, na Capela do Rato, na cultura portuguesa.

 

AE – Com avaliação muito positiva?

DJTM – Muito positiva para mim! É o que eu sou. Não consigo imaginar a minha vida sem estes 20 anos. Costumo dizer – a frase não é minha, eu adoto-a – «eu sou uma obra dos outros».

Olhando para estes 20 anos, não só porque me procurei dar mas porque nós crescemos com as pessoas que conhecemos, aquilo que muda a nossa vida verdadeiramente são os encontros que temos. A multiplicação da vida que damos aos outros, a aposta que fazemos numa relação de confiança e de amizade é sempre fecunda. Pelo menos, em mim, deixa um perfume inapagável.

 

AE – A própria vida sacerdotal, o percurso de um sacerdote tem de se desinstalar de algum modo, ir além de uma experiência absorvente da paroquialidade? É necessário dar outros passos?

DJTM – Eu dou o meu testemunho. Devo falar por mim, porque somos diferentes e os nossos pontos de partida são diferentes e não conheço todas as realidades. Gosto de falar de mim.

Para a minha espiritualidade tem sido muito importante o que recebo dos outros, crentes e até dos não crentes que me ensinam muito sobre Deus. Há agnósticos que me ensinam muito sobre Deus porque me colocam as perguntas e eu tomo-as como uma possibilidade de caminho e até de oração para mim.

Uma espiritualidade que tenha uma intransigência em ficar fechada num determinado círculo, acaba por ficar mais pobre, porque Cristo desafia-nos muito a sermos Igreja em saída, Ele envia os discípulos várias vezes em missão e é no envio, neste mandato do encontro, que podemos encontrar páginas inesperadas do Evangelho. Há páginas inesperadas do Evangelho que estão à nossa espera. Só nessa surpresa dos encontros nós podemos captá-la.

 

AE – Com a mesma ortodoxia que têm outras?

DJTM – Com a mesma ortodoxia! Porque não temos de ter fantasmas. O cristianismo é uma experiência essencial. É uma verdade. Mas não é uma verdade que me coloca contra os outros. É uma verdade que me abre radicalmente aos outros. A verdade do cristianismo é a hospitalidade. Não é uma fronteira vigiada policialmente. Por isso, não há que ter medo do encontro porque o amor é a grande ortodoxia. A caridade, a hospitalidade do outro, é a grande ortodoxia cristã.

 

AE – Recentemente, no Encontro Internacional das Equipas de Nossa Senhora, D. José Tolentino Mendonça falava na necessidade de, a partir do que desafia o papa Francisco, abandonar uma moral fria e de escritório.

DJTM – O Papa desafia-nos muito a isso, a termos, de facto, uma moral que tenha em conta as pessoas, o serviço às pessoas, à vida, à vida frágil, à vida nua. E que seja uma ética atravessada pela experiência de Jesus, do Evangelho. Essa nunca pode ser apenas uma moral de escritório. Tem de ser um caminho palmilhado. Tem de ser aquela estrada que o pai do Filho Pródigo, o Pai Misericordioso faz, tomando ele a iniciativa de abraçar aquele filho e reintroduzi-lo na festa da comunhão. Essa é a grande moral cristã.

 

Diálogo cultural na cúpulas vaticanas

AE – Regressemos ao setor da Cultura, no Vaticano. Pedia-lhe uma opinião sobre a liderança deste setor que acontece no Vaticano com o cardeal Gianfranco Ravasi. São grandes passos que vão sendo dados nessa atitude de diálogo que encontrou agora um grande entusiasmo com o Papa Francisco?

DJTM – É preciso dizer que no século XX, desde que foi criado, o Conselho Pontifício para a Cultura teve sempre grandes figuras que o conduziram de uma forma muito inspirada. Mas, nestes últimos anos, a liderança do cardeal Ravasi tem brilhado de facto pela criatividade, pela consistência das propostas, pela profundidade da sabedoria que é colocada em ato, pela capacidade de gerar encontros e de fazer notícia positiva com acontecimentos que unem toda a gente em torno do essencial. Isso deve-se muito à inteligência e ao espírito pastoral incansável, ao amor à Igreja, à cultura que tem o cardeal Gianfranco Ravasi.

 

AE – É também um homem da Bíblia, tal como D. José Tolentino Mendonça. Sente sintonia de projetos, de pensamentos, de atitudes com o cardeal Ravasi?

DJTM – Eu considero o cardeal Ravasi um dos grandes mestres do catolicismo contemporâneo e, sem dúvida, que lhe devo muito.

Comecei por conhecê-lo por biblista, e admirá-lo, e mesmo na minha tese de doutoramento cito-o abundantemente, porque aprendi muito com ele. A arte de ler os textos, a hermenêutica bíblica em diálogo com a cultura, e o convívio que tive o privilégio de ter com ele nestes anos a partir do Conselho Pontifício para a Cultura e a amizade que se tem cimentado faz-me perceber que a proximidade com esta grande figura do catolicismo e da cultura representa na minha vida um dom inestimável.

 

AE – É uma amizade e uma colaboração que será ainda mais estreita, a partir de setembro?

DJTM – Certamente, porque uma biblioteca é um espaço de cultura. Tudo o que for um trabalho de convergência, com o Pontifício Conselho para a Cultura e os outros órgãos da Cúria Romana, porque o Arquivo e a Biblioteca existem para servir, esse espírito de convergência estará sempre como atitude fundamental.

 

AE – Dois servidores, dois polos de diálogo que estão no Vaticano, tendo a cultura como ambiente fundamental para esse diálogo?

DJTM – Não serão os únicos porque esse é o espirito comum da Santa Sé e isso é importante para as pessoas. Muitas vezes desconhecem-se os nomes, as figuras, não se tem a perceção do maravilhoso serviço que a Santa Sé e a Cúria Romana prestam.

Eu próprio tive essa experiência, agora na pregação dos Exercícios Espirituais à Cúria Romana e ao Papa. Uma coisa que me impressionou muito foi a qualidade daquelas pessoas, qualidade também orante: vê-los de joelhos,  poder escutá-los, quer na delicadeza humana, quer na sabedoria do seu discurso e da avaliação que fazem das coisas, faz-nos perceber que é um serviço de grande qualidade à Igreja e que o povo de Deus também ganha em conhecer e acompanhar.

 

AE – Na altura, e após ter pregado o retiro, disse que o seu número do casaco era dos últimos…

DJTM – Naturalmente, era mesmo assim.

 

AE – E afinal, tornou-se um número muito próximo.

DJTM – Isso não tem importância nenhuma, é só o lugar onde colocamos o casaco. Nós nascemos e morremos sem casacos, veja só que importância isso tem.

 

Poder colaborar de perto com o Papa Francisco é um privilégio

AE – Entusiasma-o este desafio do Papa Francisco para trabalhar no Vaticano?

DJTM – Poder colaborar de perto com o Papa Francisco é um privilégio muito grande para mim e é uma palavra de ordem que eu, na obediência e na fidelidade à Igreja, senti-me no dever de acolher com as minhas limitações e imperfeições…

 

AE – Não hesitou na resposta?

DJTM – Rezei a resposta, naturalmente! Porque tem de ser uma resposta em consciência e em liberdade. Fundamentalmente não houve uma hesitação, houve um discernimento.

 

AE – Será natural que este seja um passo para outros que se possam dar no Vaticano. Encara-os como?

DJTM – Eu darei todos os passos entre a minha casa e a biblioteca. Esses serão os meus passos. E são esses que eu quero pensar bem e fazer o melhor possível.

 

AE – Os que vierem a Deus pertencem, como se costuma dizer.

DJTM – Estamos nas mãos de Deus. O aqui e o agora são o grande lugar onde Deus nos fala!

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