Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Em muito do que se lê ou diz ouvimos esta expressão “cuidado da criação.” Talvez não seja a melhor expressão porque a criação do ponto de vista cristão inclui todo o universo material e o que está para além da matéria, incluindo toda a realidade conhecida e desconhecida que Deus criou. Realisticamente, cuidar da criação parece afastar-se muito daquilo que somos capazes de fazer.

A expressão que o Papa Francisco usa no seu discurso e que deu origem à iniciativa leiga “Cuidar da Casa Comum” é melhor: casa comum. Neste contexto não há dúvida de que se trata do nosso planeta, aquele que nos abriga, a nossa casa que temos de manter arrumada, limpa e em boas condições, como fazemos com as nossas casas. Assumimos essa responsabilidade, mas será o planeta a nossa casa?

O prefixo “eco” que entra em muito do léxico ambiental provém da palavra grega oikos que significa, precisamente, casa. Daí que nos referimos ao nosso planeta como a nossa casa. Mas se pensarmos bem, ao dizermos “nossa” aparenta uma certa apropriação daquilo que se está a referir: o planeta. Bom, o planeta não é nosso, nem foi nunca. O planeta é o lugar onde nascemos e evoluímos, juntamente com tantas outras espécies que perfazem a biodiversidade que observamos no mundo natural. A casa é comum, mas não é nossa. O que significa, então, cuidar da casa comum?

Cuidar no contexto ecológico apela a uma conversão nos estilos de vida. Desde os seus aspectos mais pequenos e simples aos mais complexos. Nos simples temos as escolhas que fazemos no quotidiano: a quantidade de tempo dispendida a gastar água num banho; o modo como lavamos a loiça na cozinha; se carregamos mais ou menos no pedal de aceleração do carro; o que fazemos ao lixo que produzimos; como deixamos o lugar onde fizemos um piquenique; e quantas outras coisas. No aspectos mais complexos temos as questões energéticas, o clima, a biodiversidade, entre outras, mas o Papa destaca este ano a questão da água. Aliás, os dois primeiros exemplos que dei de coisas simples tinham a ver com a ligação da água ao nosso estilo de vida. Mas vale a pena cuidar da casa comum ou não?

Ainda que não cumpramos com as metas estabelecidas nos acordos mundiais obtidos nos diversos COP dedicados às alterações climáticas, e a temperatura média global aumente acima do limiar do risco, o degelo aconteça, as tempestades sejam maiores e os seus efeitos cada vez mais devastadores, será que o planeta sobrevive? Sim. Sempre sobreviveu. Ou seja, não vale a pena cuidar de uma casa que sabe cuidar bem de si mesma. A exigência de cuidado prende-se mais com a nossa sobrevivência. É essa que está em risco. Mas não só.

Em risco está também a vocação a que Deus nos chamou quando revelou sermos criados à Sua imagem e semelhança. Se Deus é Trindade, Pessoas-em-Comunhão, se as nossas acções deixam de ser um reflexo de comunhão e geram antes divisão – entre nós; entre nós e o mundo natural; ou entre nós e Deus – então, não somos aquilo a que Deus nos chamou a ser: geradores de comunhão. Por isso, não vale a pena cuidar da casa comum, enquanto não aprendermos a cuidar dos relacionamentos que geram mais comunhão entre nós, com a natureza e com Deus. Estou ciente que no dia 1 de setembro estaremos muitos em Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, mas, sinceramente, não valeria mais a pena se estivéssemos em Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Relação com a Casa Comum?

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