Carlos Borges, Agência ECCLESIA
‘Cada um tem a sua Via-Sacra’, ‘cada pessoa carrega a sua cruz’, diz-se popularmente sobre os outros, e sobre nós próprios – ‘é a minha cruz’ –, relativamente a dificuldades, sofrimentos, e lutas diárias. E pode ser algo tão simples, mas complexo, como escrever um artigo de opinião, um grande 31. Essas cruzes, umas vezes, são partilhadas – família, amigos, bons camaradas, e/ou encontram-se cireneus ao longo do caminho -, outras vezes não. E ‘cada um tem a sua Via-Sacra’, onde carrega a sua cruz, em lugares e caminhos variados, muitas vezes, nos transportes públicos, em casa, na família, no trabalho, nas instituições.
Este ano não participei em nenhuma Via-Sacra, acho que a memória não me engana neste final de Quaresma. E o leitor, em quantas é que esteve presente? Ainda se lembra, e onde foi: na sua paróquia, na comunidade onde vive, ou em “terra alheia”, quem sabe num regresso a casa do trabalho, numa escapadinha de fim-de-semana. Mas assisti a uma, em trabalho, que fica na categoria de “privilégio”. Estive na equipa da reportagem da Via Sacra ao vivo do Centro de Apoio e Reabilitação para Pessoas com Deficiência (CARPD), em Touguinha.
É verdade, foi um privilégio testemunhar o trabalho que fazem nesta instituição da Santa Casa da Misericórdia de Vila do Conde, para além do apoio e reabilitação – conseguimos filmar sessões de fisioterapia, e de snoezelen, de trabalhos manuais variados, ping-pong e boccia, divertimento, e pequenas colaborações com o próprio CARPD. A cereja deste trabalhou foi a Via-Sacra ao vivo dos utentes e colaboradores, cada um tem também a sua própria Via-Sacra, umas visíveis outras não, num texto original do seu diretor. Já a tínhamos na agenda há algum tempo.
Publicámos na última semana notícias, peças (um 70X7) e vídeos, não me vou alongar em pormenores, está tudo aqui, apenas aconselhar, se nunca assistiu a esta representação do CARPD que surgiu em 2005, a marcar na agenda da próxima Quaresma, tem ainda a vantagem de ser itinerante, é apresentada em várias localidades da região. Cuidado, as salas costumam estar lotadas, os bilhetes são grátis, e esgotam rápido.
A representação da Via-Sacra, o ciclo tradicional de 14 estações relativas aos momentos da prisão, julgamento e condenação à morte de Jesus Cristo, aproxima-se do fim. Não são exclusivas deste tempo da Quaresma, mas têm neste período o seu apogeu. São divulgadas nos anúncios paroquiais, nos sites e jornais, em muitas das nossas notícias e dados de agenda. Não perca ainda a de Sexta-feira Santa, no coliseu romano.
‘Dá-me de beber’, foi o tema desta Via Sacra 2026 do Centro de Apoio e Reabilitação para Pessoas com Deficiência, inspirada no diálogo entre Jesus e a Samaritana, e nas sedes do mundo de hoje, que também são as nossas, ou conseguimos identificar nos outros, quando carregam as suas cruzes.
Participaram 47 pessoas do CARPD nesta Via-Sacra que foram ovacionadas de pé, ao longo de vários minutos, na primeira das duas últimas vezes que subiram a palco este ano. Estes utentes e funcionários são uns atores fantásticos. Não têm medo do palco, decorram muitas frases, pequenos diálogos e monólogos, e ajudam a quebrar preconceitos em relação às capacidades da pessoa com deficiência. Dignificam muito, e bem, a 5.ª Arte (numeração tradicional das artes), o teatro. Até o guarda-roupa foi local, confecionado pela costureira com os utentes.
“Quantas e quantas vezes nós tomamos atitudes de não confiar ou de não querer ou não entregar plenamente um assunto ou uma responsabilidade a uma pessoa com deficiência, porque achamos que ela não é capaz?” – Carmo Diniz, diretora do Serviço da Pastoral a Pessoas com Deficiência da Conferência Episcopal Portuguesa (entrevista conjunta Agência Ecclesia/Rádio Renascença, 29 março 2026)
No Evangelho de Jesus segundo São Mateus, de domingo passado, na forma longa o verbo ‘beber’ foi lido 5 vezes, enquanto na forma breve foi proclamado 3 vezes. «Tenho sede!», é uma das ‘7 Palavras de Cristo na Cruz’.
E a si, quem lhe dá de beber, e mata a sua sede? Quem é que considera também que precisa desta água?
Como cantam Samuel Úria e Selma Uamusse: “Pra quem tem sede, ainda há lugar à mesa’; “Há uma festa / Que nunca termina / Onde todos cantam / Ninguém desafina”; [Música ‘Há Lugar’, álbum ‘Tudo É Vaidade’]
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