Em pleno processo de desconfinamento, a Igreja e a sociedade revisitam os ensinamentos, propostas e alertas que o Papa Francisco nos ofereceu na Encíclica ‘Laudato si’.

Há cinco anos, o filósofo e ambientalista Viriato Soromenho Marques, dizia que “era o documento que faltava para a Igreja ocupar o seu espaço-tempo na contemporaneidade de forma mais interveniente e efetiva”. Esta semana

Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Agência Ecclesia)

Começo por lhe perguntar se, do seu ponto de vista, já se notam alguns efeitos dos ensinamentos da Encíclica do Papa Francisco?

As ideias demoram um tempo que é muito difícil de avaliar em termos dos seus impactos, mas se considerarmos os documentos que nos aparecem – seja na literatura científica, seja na literatura jornalística -, penso que a encíclica ‘Laudato Si’ se carateriza por um impacto crescente que se deve, não apenas à solidez das teses que foram apresentadas, mas também ao facto de que existe uma linha de coerência ao longo destes cinco anos.

Muitas vezes, em documentos semelhantes, não apenas da Igreja Católica, verificamos que existe um pico de interesse por um tema e depois existe um abandono, um esquecimento do tema. Neste caso, não, em todo o pontificado, na ação do Papa, onde quer que ele vá, a mensagem da ‘Laudato Si’ surge como central.

O Papa não diz que foi ele que descobriu o tema… Fala em João XXIII, Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI, que também escreveram, mas nada de comparável à ‘Laudato Si’. Eles não foram insensíveis ao que estava a acontecer, mas há uma diferença fundamental: o Papa para construir a encíclica, consultou muitas pessoas, cientistas de muitos ramos, e levou para o texto o percurso de uma vida riquíssima.

 

Esta visão ficou consagrada na ‘Laudato Si’, publicada antes da Cimeira de Paris. O mundo não parou por causa das alterações climáticas, mas parou por causa da crise sanitária e pandémica, que teve o efeito positivo de fazer baixar significativamente os níveis de poluição. Podemos acreditar que se poderá manter no pós-confinamento ou vamos perder tudo assim que as pessoas possam voltar a fazer a sua vida de sempre?

Estamos num momento em que essa pergunta faz todo o sentido e em que qualquer resposta deve ser capaz de fazer um exercício de separação entre o desejável e o que será possível, realisticamente. Como deve calcular, está a falar com alguém que gostaria de responder que nós, como indivíduos, como coletivos, da família aos governos do mundo, seremos capazes de retirar uma lição de humildade e, ao mesmo tempo de força, do que está a acontecer.

Humildade, porque estamos a falar de um vírus, que nem é um organismo vivo – tem impacto sobre a vida orgânica, mas não é um organismo vivo – ou seja, é uma criatura de uma humildade extrema e que foi capaz de parar, de facto, o motor económico do mundo e obrigar-nos a ficar confinados, onde fosse possível.

Temos de reconhecer, também, ao contrário do que muitas pessoas têm dito, não foi uma espécie de surpresa. Os epidemiologistas há muitas anos que chamavam a atenção para que, nos últimos 30, 40 anos, 75% das novas doenças serem resultantes do mesmo processo que nos levou a esta, zoonose, um processo de transmissão de um vírus que vive num organismo animal para o nosso ecossistema biológico.

Como é que se faz esta transmissão? Não é por acaso. É devido à forma intrusiva como a nossa espécie está a atuar sobre a biodiversidade. Nós estamos a destruir os habitats, as florestas, as zonas onde vivem espécies cada vez mais perseguidas, em perigo.

 

Desse ponto de vista, a ‘Laudato si’ pode ser um interessante roteiro para ajudar no processo de desconfinamento?

Eu julgo que sim. É uma lição de sabedoria, as ideias que encontramos vertidas nesta encíclica ajudam-nos a uma coisa muito importante: construir uma interpretação do que nos está a acontecer.

Sabemos que a pior tragédia é estarmos mergulhados numa situação para a qual não temos uma compreensão ou para a qual temos um errado entendimento.

Esta pandemia resulta do facto de não termos respeitado o espaço existencial de outras espécies.

 

A minha pergunta é: o que está a faltar para tirar as lições devidas, deste aviso, até em termos de sustentabilidade e de mudança de estilo de vida?

Eu penso que, como seres humanos, como indivíduos e até como cidadãos, somos sensíveis – a partir do momento em que tenhamos a informação. Uma maioria da população não tem conhecimento tão detalhado destas questões.

Precisamos de ter um conhecimento aberto, holístico, perceber a relação que isto tem com a crise do ambiente. No fundo, o que está mal aqui é a forma como nós estamos a habitar a terra. Nós estamos a habitar a terra como se ela nos pertencesse. Mais, nós habitamos a terra como não habitamos as nossas casas: que eu saiba, nas nossas casas, não partimos as portas, destruímos a mobília, deixamos os resíduos ficar nos sítios onde dormimos ou onde comemos. E nós estamos a fazer isso, na terra, exatamente.

O problema é o da organização coletiva, da governação, que é um dos temas centrais da ‘Laudato Si’. Como é que nós vamos governar esta casa comum.

O nosso confinamento é uma forma de ação. Muitas vezes a forma mais inteligente de agir é uma ação interior, que aparentemente é passiva. Nós baixamos a pressão sobre o mundo, sobre a terra, sobre os ecossistemas e a resposta foi a diminuição da emissão de gases de efeito estufa, uma primavera mais visível para todos nós, com a manifestação da vida natural com uma exuberância que não estávamos habituados a ter.

Há outro aspeto de que nos esquecemos: contabilizamos as baixas da Covid-19, mas não contabilizamos as vidas que se pouparam: as pessoas que não morreram de doenças pulmonares, em acidentes automobilísticos, outro tipo de situações, que foram travadas nesta fase.

Evidentemente, não podemos estar confinados toda a vida. Temos de aprender a habitar a terra de uma outra maneira, o que significa que temos de fazer um esforço, já indicado na ‘Laudato Si’, de termos uma economia completamente diferente.

Este é um tema que se prende com o que está dito na encíclica e com toda a ação do Papa Francisco, uma ação que, pela sua coragem, pela sua lealdade com a humanidade, não apenas com os católicos, acaba por gerar muitos anticorpos dentro da própria Igreja Católica.

Dizer que esta economia mata não é um insulto, é uma simples fotografia de uma economia que transforma complexidade em simplificação; que transforma uma atmosfera saudável numa atmosfera que está a alterar o clima; que substitui a plenitude da diversidade biológica por paisagens completamente uniformes; que destrói a diversidade das florestas por monoculturas de produção, que depois provocam incêndios. E que, depois, no fundo, leva tantos milhões de seres humanos a viver na pobreza e no lixo.

Tive a experiência, em países africanos, de passar pelos arredores das grandes capitais, ver as pessoas conviver com os resíduos, o lixo, as crianças a brincar no meio dos detritos. A mortalidade infantil é incrível, por isso. Dizer que esta economia mata é um dado objetivo, porque se não mudarmos a forma como organizamos a nossa economia – se continuarmos a ter uma economia que se baseia no transporte de carbono que está na litosfera e que, depois, através do consumo do carvão, do petróleo, do gás natural, vai para a atmosfera, alterando os mecanismos climáticos, complexos e subtis -, estaremos a passar de uma pandemia, que é grave, para umas situação de calamidade e catástrofe climática, que será muito pior. Estamos a falar de mudanças que vão determinar os próximos séculos.

 

A necessidade de boas práticas sanitárias pode levar a alguns exageros, nomeadamente o regresso à utilização em massa de descartáveis e de plásticos?

Esse é um aspeto extremamente importante. Ninguém sabe como é que o futuro vai evoluir… Penso que há aqui uma hiperreação a esse nível que também pode ser corrigida pela capacidade comunicacional.

No nosso país verificamos a capacidade de as pessoas, em geral, escutarem as mensagens e agirem em conformidade. A partir do momento em que exista uma atmosfera de comunicação, que é racional, pedagógica, as pessoas agem em conformidade, porque o que está aqui em causa é o interesse de todos e de cada um. Também será do interesse de todos e de cada uma que a saída da pandemia seja uma saída que incentive a resposta à crise ambiental e climática, com a qual já estávamos comprometidos. Falamos no acordo de Paris, em 2015, um compromisso ainda muito frágil, mas para o qual a própria ‘Laudato Si’ teve um papel crucial. Agora temos de aumentar esses compromissos e torná-los mais concretos.

O que está em causa é, no fundo, a própria imagem de nós mesmos como seres humanos. Ou seja, será que nós estamos condenados a ter de optar entre sobreviver, no dia a dia, à custa da injustiça sobre o futuro e sobre as gerações futuras? Ou será que nos temos a capacidade de reinventar a forma como fazemos a nossa economia, como habitamos o nosso planeta?

Olhando para o mundo, para a quantidade de pessoas em todo o mundo que amam os seus filhos, que amam os seus netos, que percebem o que está a acontecer desde há décadas, com uma economia global a entrar numa situação de ‘U’ invertido, ou seja, tivemos gerações e gerações que foram educadas no mito do progresso, na ideia de que cada geração viveria melhor, mas depois daquele planalto, as gerações dos anos 90, se compararmos o rendimento, as oportunidades de trabalho, a segurança no emprego, nos países desenvolvidos… Não têm comparação, são muito inferiores aos da minha geração, que sou um homem do final dos anos 50. Os meus colegas de universidade, mais novos, têm uma imensa dificuldade em conseguirem contratos de trabalho mais defendidos, contratos com mais direitos. E aqueles jovens que têm a idade de Greta Thunberg, que já é uma menina do terceiro milénio, a situação tenderá a ser ainda mais grave.

Será que nós não temos a capacidade de olhar com coragem para este desafio e dizer: então, uma civilização que tem tanto conhecimento, tanta gente capacitada, uma economia com empresas capazes de responder a estímulos – veja-se em Portugal, como é que perante os desafios da pandemia, as empresas, algumas delas sem iniciativa ou apoio do governo, avançaram, fazendo máscaras, construindo ventiladores -, será que nós não compreendemos que esta é uma guerra pelo futuro? É uma guerra pelos nossos filhos e os nossos netos. Será que é mais importante alimentarmos uma elite de super ricos, que tem uma vida numa riqueza absolutamente – não encontro outra palavra – pornográfica, obscena?

As pessoas que têm aviões particulares, que se deslocam como se fossem uma espécie de semideuses, tomam o pequeno-almoço num país e seguem para outro, ainda por cima atrevendo-se, muitas vezes, a aparecer como representantes de causas nobres e justas. Será que não temos capacidade moral dentro de nós, capacidade ética para dizer basta?

 

A ‘Laudato Si’ é uma encíclica social, na tradição da Doutrina Social, e profundamente teológico, sublinhando a dimensão da sobriedade, da mudança de estilo de vida. Há pessoas a quem é imposta uma condição, da qual dificilmente conseguem sair, mas há outras que têm a opção de assumir estilos de vida diferentes. O que é que falta para dar esse passo, para que seja interiorizada a ideia de que é possível um futuro diferente?

Sem dúvida. Nós estamos numa transição, claramente. A pandemia criou um quadro de transição. O que é que isto significa? Que estruturas, regras, normas, sistemas de Governo que eram muito sólidos ontem, estão muito periclitantes, neste momento. Veja-se o nosso caso: não sabemos para onde é que vai a União Europeia. E, como sabemos, o futuro de Portugal, como o dos alemães ou dos holandeses, está muito… totalmente dependente da forma como nos vamos governar. Temos sinais contraditórios: sinais que apontam no sentido da fragmentação, outros sinais que apontam no sentido da solidariedade.

Neste momento, cada indivíduo tem uma responsabilidade especial. Penso que, no balanço geral, aquilo que produz mudanças que são estruturais, com resultados permanentes, são as mudanças que passam pelas instituições, pelas leis e pelas normas. Atenção: quem as faz são as pessoas. Agora que está tudo preso por arames, em que estamos entre o ser e não ser, é que é necessário que cada um de nós não saia do campo do combate que é preciso travar. Cada um de nós, com as poucas forças que tenha, deve ser capaz de ajudar, a criar os consensos e o diálogo de que precisamos, as decisões operativas.

 

Para terminarmos: o Vaticano inicia no próximo domingo um ano especial dedicado à encíclica “Laudato si”, para propor compromissos com vista a uma sustentabilidade total em sete anos. É uma proposta arrojada? Será alcançável?

É possível almejar o impossível. Diria que a crise ambiental – na medida em que, durante tantos anos, os alertas não foram escutados – acabou, quem tinha poder para isso, por colocar a agenda política ou da sua grande empresa à frente do interesse mundial e do interesse humano, do futuro.

Há uma diferença fundamental – e essa é, certamente, a intenção do Vaticano e a intenção do Papa – entre adaptarmo-nos a danos que são, neste momento, já impossíveis de evitar, mas fazê-lo ativamente, para evitar danos maiores, esses sim irreversíveis e ingeríveis. Nesse aspeto, podemos fazer uma analogia entre a pandemia e a crise ambiental e climática: temos de reconhecer, na Europa, que todos chegamos tarde, mas temos países que foram capazes de antecipar, para evitar remediar. Porque o custo da remediação é um custo muitíssimo elevado, como estamos a ver nos EUA, no Brasil, em que não é só o número de vítimas, é a própria noção do Estado funcional, um Estado que respeita os seus cidadãos, que os defende, que está em causa. Quando os hospitais fecham, como está a acontecer no Brasil porque já não conseguem dar resposta, é a crença numa sociedade civilizada que está em causa. Vamos aprender com esta situação e vamos mobilizar as nossas energias para fazer – aí é que podemos fazer a guerra – uma longa guerra pela vida, uma longa guerra pelo melhor de nós.

Na verdade, o que é mais difícil – e isto é um desafio moral -, porque exige uma grande autoconsciência, não são as guerras contra os outros, são as guerras que travamos dentro de nós próprios: entre o melhor de nós, que muitas vezes vive esmagado, a melhor voz de nós e a pior voz de nós.

Neste momento, coletivamente, temos a pior voz de nós, que está a bloquear o futuro. Temos de deixar que a nossa melhor voz seja poderosa, tenha músculo suficiente para travar esta guerra que vai demorar muitos anos e da qual só podemos sair vitoriosos.

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