Sínodo/Porto: «Temos uma sociedade muito diferente e não podemos continuar com as mesmas soluções», afirma Isabel Teixeira

Membros da Secretaria Geral abordam processo que decorre até 2028, com o padre Amaro Gonçalo a manifestar o desejo de que grupos sinodais não sejam «paroquializados»

Foto: Agência ECCLESIA/LS, Isabel Teixeira

Matosinhos, 17 jul 2026 (Ecclesia) – Isabel Teixeira, secretária-adjunta da Secretaria Geral do Sínodo Diocesano do Porto, afirmou que enquanto leiga ficou “muito contente” com a convocação deste processo, reconhecendo que “a Igreja precisa de uma mudança”.

“Como leiga, acho que efetivamente não podemos estar com soluções que outrora foram perfeitas ou que foram adequadas aos tempos que vivíamos. Nós temos uma sociedade muito diferente e não podemos continuar com as mesmas soluções. Novos problemas, novas soluções”, referiu, em declarações à Agência ECCLESIA.

O bispo D. Manuel Linda convocou o Sínodo Diocesano do Porto, com o lema “Ser Porto: Formar, Reformar, Transformar”, no âmbito do processo sinodal que a Igreja Universal vive e que chama e implica cada um dos batizados para uma corresponsabilidade eclesial cada vez maior, tendo-se iniciado a 24 de maio, na Solenidade de Pentecostes, e prolonga-se até 2028.

Apesar de não se saber à partida o resultado desta iniciativa, Isabel Teixeira entende que é necessário arriscar: “Como dizia o Papa Francisco, prefere uma Igreja acidentada, e acho que temos que assumir essa possibilidade, do que uma Igreja que está ali mumificada, parada, petrificada, sempre com as mesmas soluções”.

O padre Amaro Gonçalo, secretário para a Coordenação Pastoral da Diocese do Porto, também integra o órgão da Secretaria Geral do Sínodo, assumindo a função de secretário-geral.

Para o sacerdote, ao propor um Sínodo Diocesano, a Igreja do Porto “está a efetivar de uma maneira muito profunda aquelas que são as propostas para a implementação do Sínodo” sobre a Sinodalidade, percurso lançado pelo Papa Francisco e continuado por Leão XIV.

Se a ideia é ativar o princípio da sinodalidade em toda a Igreja, ao convocar um Sínodo Diocesano temos todos os instrumentos e todas as práticas as melhores possíveis para dar substância a esse desafio de implementação”, destacou.

O sacerdote considera que todo o trabalho desenvolvido, desde a escuta, a conversação no espírito, a aprendizagem do método, durante a fase diocesana do processo sinodal romano, vai “facilitar” agora a concretização da iniciativa em vigor no Porto.

“E vai alargar essas possibilidades, porque já houve uma ampla participação nessa fase diocesana do Sínodo sobre a sinodalidade em Roma, que teve duas assembleias sinodais, como sabemos, e concluiu em outubro de 2024. Nós agora, nesta fase, temos já, digamos assim, o treino, por assim dizer, feito”, realçou.

O padre Amaro Gonçalo evocou o Papa Francisco, recordando que o pontífice dizia muitas vezes que era preciso iniciar processos mais do que a obsessão pelo resultado imediato.

“Eu creio que esse é o valor do sínodo, se nos habituarmos a trabalhar sinodalmente, não apenas no momento da execução, que eu creio que essa é a diferença que o sínodo traz”, disse.

O responsável espera que as experiências que este processo vai provocar no Porto, quer ao nível das catequeses, quer ao nível das equipas sinodais, criem hábitos, práticas, “modos de ser e de construir a Igreja, que fiquem para sempre”.

“Porque, como dizia o Papa Francisco, a sinodalidade é o caminho da Igreja para o terceiro milénio. E nós estamos pouco mais do primeiro quartel deste século. E, portanto, há aqui um caminho a fazer e eu penso que o que vai ficar do Sínodo e o que melhor pode resultar do Sínodo é esta aprendizagem de caminharmos juntos”, reforçou.

Sobre a iniciativa lançada pelo bispo do Porto para este território, o padre Amaro Gonçalo reflete que seria “muito importante que as equipas sinodais não fossem apenas equipas ligadas aos conselhos paroquiais de pastoral, que por vezes são grupos que são necessários e são as primeiras instâncias de sinodalidade nas vidas das comunidades, no entanto é preciso “alargar”.

É muito importante ouvirmos as vozes da comunicação social, dos artistas, dos distantes, dos separados, dos imigrantes. Era muito bom suscitar na diocese equipas sinodais onde estivessem elementos, pessoas que têm uma leitura diferente”, sublinhou.

“Às vezes estas pessoas que vêm do mundo da cultura, do trabalho, do mundo académico, da ciência, da imigração, de outros setores da sociedade, eles veem o que nós não estamos a ver. Eles têm algo a dizer-nos que nós ainda não ouvimos, que nós ainda não compreendemos”, acrescentou o sacerdote.

O padre Amaro Gonçalo assume o desejo de que os grupos sinodais não sejam “paroquializados, isto é, que não fossem restritos à nossa quinta paroquial”.

Sobre o papel da escuta, o secretário-geral da Secretaria Geral do Sínodo Diocesano do Porto salienta a relevância de “saber ouvir as histórias de vida” e “as pessoas”.

“Eu acho que há um grande défice de escuta na Igreja. Nós temos muita pressa em falar, mas temos muita dificuldade em dar tempo. Isso começa pelos cartórios paroquiais, começa pelo atendimento pastoral, onde as pessoas são despachadas por impressos e por respostas mais ou menos convencionais, onde há pouco espaço para o diálogo, para a abertura do coração”, lamentou.

Na carta pastoral para o Sínodo Diocesano, os bispos do Porto assinalam a necessidade olhar e propor caminhos que encurtem distâncias e permitam alcançar todos, incluindo os já não pedem nada à Igreja.

Isabel Teixeira acredita que a paróquia da Senhora da Hora, em Matosinhos, à qual pertence, é pode ser um exemplo nesse aspeto, na medida em que é conhecida por ser uma “comunidade acolhedora” não só daqueles “que estão dentro do sistema, que cumprem com os preceitos, “mas, sobretudo, daqueles que vêm de fora”.

“Nós temos aqui a facilidade do metro, que facilita muito a mobilidade das pessoas. E, no fundo, aquela pressa que não temos em julgar, mas sim em acolher, em ouvir. As pessoas vêm, sentem-se acolhidas, fazem o seu caminho, ao seu próprio ritmo”, refere.

No decorrer do processo sinodal da Igreja, a secretária-adjunta da Secretaria Geral do Sínodo Diocesano do Porto conta que as pessoas, apesar de não saberem em concreto do que se trata, percebem que se relaciona com mudança.

“Então, muito livremente, vêm ter connosco, seja aqui no fim das celebrações, seja em outros contextos, até mais celebrações da diocese, e apontam-nos, vão-nos dizendo ‘olha, se um dia tiveres oportunidade, pensa nisto, propõe isto’. E eu acho que, no fundo, partindo das bases, é isto que se quer, que depois começa a proliferar”, indicou.

O Sínodo Diocesano do Porto vai ser composto por diversas etapas: ciclo de catequeses sinodais em toda a diocese (setembro a dezembro de 2026); encontros das equipas sinodais para diálogo e discernimento, cuja síntese dará origem ao Instrumento de Trabalho (janeiro a junho de 2027); apresentação oficial do Instrumento de Trabalho (08 dezembro de 2027); realização das três sessões da Assembleia Sinodal (janeiro a abril de 2028) e encerramento do Sínodo e divulgação das Propostas Sinodais (04 junho de 2028, Pentecostes).

“Tal como a Padre Gonçalo disse, mais do que o resultado, eu acho que o processo é essencial. Se todos se sentirem escutados, envolvidos, e que a sua opinião não é só mais uma, numa espécie de parlamento, em que cada um opina e, no fundo, já se sabe a decisão que se vai tomar”, afirmou Isabel.

“É muito importante que cada decisão seja tomada com o contributo de todos, e que cada um que está no processo decisório tenha a humildade também de saber modificar pela opinião do outro”, complementou.

Este domingo, o programa 70×7 emitido na RTP2 vai abordar o tema do Sínodo na Diocese do Porto, também a partir dos testemunhos de Isabel Teixeira e do padre Amaro Gonçalo.

LJ/PR

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