Padre António Jorge Almeida, secretário do organismo, aponta possibilidades de «encontros personalizados» através de plataformas digitais para acompanhar processos vocacionais

Fogo Jornal A Guarda, Seminário da Guarda

Viseu, 31 out 2020 (Ecclesia) – A Comissão Episcopal Vocações e Ministério está a elaborar um novo plano nacional de formação (ratio), auscultando os Seminários diocesanos, partilhando experiências que possam ser colocadas ao serviço de todos.

“Na linha da ‘Ratio Fundamentalis’ da Igreja, está a ser desenvolvida por uma comissão de reitores, sob a responsabilidade do presidente da Comissão Episcopal, que trabalhou os temas que irão ser reunidos num único texto que necessitará, depois, da leitura e aprovação da Conferência Episcopal Portuguesa e da Santa Sé”, explicou à Agência ECCLESIA o padre António Jorge Almeida, secretário da Comissão Episcopal Vocações e Ministérios (CEVM).

O sacerdote da Diocese de Viseu afirma que cada Seminário e diocese têm a sua história e contexto, mas importa “encontrar pontos comuns”, para que estes estejam ao serviço da formação de padres, uma ação “delicada” mas que é “para este tempo”.

“Encontrar pontos chave que todos comungamos, seja ao nível de certas dificuldades ou das respostas e soluções no acompanhamento. É bom ter presente porque a ação de formar tem coisas próprias de cada diocese mas há outras comuns. O caminho feito de reflexão e também da Ratio nacional relaciona-se com a pastoral vocacional, dimensões da formação, pontos concretos da vida presbiteral e da formação permanente do clero, que todos comungamos. E é bom tê-lo presente para que todos nos sintamos em segurança para fazer a mediação de Jesus no acompanhamento de vocações”, regista.

padre António Jorge

O padre António Jorge Almeida sublinha a “sinodalidade” do processo que está a ser conduzida sob responsabilidade de D. António Augusto Azevedo, bispo de Vila Real e presidente da CEVM.

A Semana dos Seminários, que a Igreja Católica celebra entre 1 e 8 de novembro, convida a ultrapassar desafios com a distância de segurança e o recolhimento proposto pelas autoridades de saúde, no combate à pandemia da Covid-19.

“A questão vocacional, diz-se em teoria, é transversal a toda a pastoral. Mas isso é em teoria porque com criatividade e coragem temos de usar os mesmos meios que hoje serão possíveis para atuar para chegar aos jovens. Toda a Igreja tem de estar alerta e fazer sinergias para que isto aconteça”, aponta o secretário da CEVM.

O padre António Jorge, atual reitor do Seminário Interdiocesano de São José, em Braga, que junta as dioceses de Viseu, Lamego, Guarda e Bragança-Miranda, esteve durante muitos anos ligado à pastoral juvenil na sua diocese de origem, é coordenador do Comité Diocesano Organizador da Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023.

A organização das JMJ, destaca, está a decorrer e, regista, o uso das redes sociais como “forma de comunicar o que está a acontecer”, tornando-se uma ferramenta de “partilha sobre o que está a ser feito e sobre o que impede de ir mais além”.

“A Igreja está a fazer um caminho sinodal. Quer-se fazer um caminho de processos e acompanhamento, deixar a existência de sectores a fazer cada um por si. Penso que isto é já uma resposta ao Sínodo (dos jovens), para que a voz e o chamamento de Jesus chegue”, sublinha.

O padre António Jorge Almeida acredita que o processo de organização da JMJ 2023, o caminho até à realização em Lisboa, pode ser já um despertar vocacional.

“Tenho até o testemunho e experiência em outras Jornadas. Quando são convidados por alguém da organização, a envolver-se na antecipação que é necessário realizar, a certa altura o jovem sente-se útil e reconhecido na sua pessoa, o que permite acontecer alguns links para a possibilidade de um caminho, de uma profissão ou de uma vocação religiosa”, explica.

O responsável afirma que será a “relação, as experiências e o acompanhamento personalizado” a provocar a inquietação vocacional.

“Já percebemos que o grupo é importante, as assembleias são importantes, o tempo das massas já lá e cada vez mais se sugere o encontro personalizado. Fazer videoconferências já existem há muito tempo, mas não eram consideradas, para dialogar e acompanhar. Temos de explorar a possibilidade do encontro personalizado através destas plataformas”, sublinha.

Mais do que disponibilizar informação institucional, os sites são “são cartões de visita, contentores de informação básica e permanente que servem para os interstícios dos encontros” e, nesse sentido, “não bastam”.

“As plataformas digitais para encontros personalizados podem também preencher lacunas. Pode-se fazer um caminho processual ainda mais preenchido, profundo, tendo em conta a variedade da possibilidade de encontros. O encontro presencial é fundamental. O chamamento de Jesus foi presencial, pessoal, aos primeiros discípulos, ele falava às multidões, mas quando falamos de chamamento vocacional, ele fazia-o tu a tu”, afirma.

O secretário da CEVM propõe um ‘Tratado de Bolonha’ entre o processo vocacional e de catequese, em que o peso se coloca “não no catequista ou formador, mas na relação entre cada pessoa e Jesus”.

“Quem se coloca ao lado é sempre mediador, gestor de uma aprendizagem, de uma descoberta, gestor de um aprofundamento até de uma decisão última, mas o protagonista é o próprio sujeito, respeitando a autoridade de Deus que chama e a autoridade de cada pessoa que escuta, responde e que decide viver um estilo de vida”, indica.

O padre António Jorge indica, assim, que “a responsabilidade de toda a Igreja, e não é algo que esteja nos documentos”, nem se circunscreve a um tempo no calendário.

“A vocação começa numa escuta no coração de cada pessoa, é uma busca. No ser humano a escuta e a busca encontra-se no íntimo”, reconhece.

LS

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