I Congresso Litúrgico Português: «Os ilustres liturgistas ensinaram Portugal a rezar a partir de Vila Real»

Diretor do Secretariado Nacional de Liturgia lembrou os jornais de então e responsável na diocese pelo setor refere o reforço das raízes de uma diocese a nascer

Foto Agência ECCLESIA/CB

Vila Real, 19 jun 2026 (Ecclesia) – O diretor do Secretariado Nacional de Liturgia, padre Joaquim Ganhão, disse à Agência ECCLESIA que os portugueses “aprenderam a rezar” com a a realização do I Congresso Litúrgico Português, em Vila Real, há 100 anos.

“O primeiro Congresso Litúrgico que se realizou aqui há 100 anos foi, de certo modo, um arranque importante para todo o desenvolvimento do Movimento Litúrgico em Portugal, que teve alguns epicentros, desde o Mosteiro de Singeverga ao Seminário dos Olivais, com o D. António Coelho em Singeverga e o monsenhor Pedro dos Reis nos Olivais. E, na altura, os jornais da época diziam que os ilustres liturgistas ensinaram Portugal a rezar a partir aqui de Vila Real”, afirmou o padre Joaquim Ganhão.

Foto Agência ECCLESIA/TAM

“De facto, este movimento vem até nós hoje e somos herdeiros de todo este caminho, com novos contornos, novos desafios, mas que mantém uma atualidade não só de intenção como de concretização nas comunidades cristãs”, acrescentou o novo diretor do Secretariado Nacional de Liturgia, nomeado esta semana.

Para o diretor do Secretariado Diocesano de Liturgia de Vila Real, o I Congresso Litúrgico Português deu “raízes” à diocese fundada quatro anos antes, reforçando a sua “identidade transmontana”.

“Nós nascemos em 1922 e em 1926 temos um Congresso Litúrgico Português. Isso foi muito importante para reforçar as raízes desta identidade transmontana, não só diocesana. E aquilo que ficou visível para a diocese foi este espírito e esta amor à liturgia: procurar fazer bem, procurar celebrar bem, procurar que o sagrado chegue até ao coração dos fiéis”, afirmou o padre Hélder Libório à Agência ECCLESIA.

A Diocese de Vila Real assinalou hoje, em colaboração com o Secretariado Nacional de Liturgia, a realização do I Congresso Litúrgico Português, entre os dias 17 e 19 de junho de 1926 , com uma conferência do padre Renato Oliveira sobre o tema «O Congresso Litúrgico de Vila Real: “Berço” do Movimento Litúrgico em Portugal», a que se seguiu a celebração da Eucaristia e um concerto evocativo do centenário.

Foto Agência ECCLESIA/CB

“A diocese cresce com estas raízes, vai crescendo sempre com este amor à liturgia, o celebrar bem. Isto não é uma evocação, é o continuar um trabalho de identidade diocesana”, afirmou o atual responsável pelo Secretariado de Liturgia de Vila Real.

O padre Hélder Libório recordou a Procissão Eucarística com cerca de 10 mil pessoas, há 100 anos, afirmando que é um facto “representativo do impacto que ele teve” para a diocese..

“Quisemos que as nossas forças vivas, seja ministros ordinários da comunhão, seja acólitos, eleitores, todas as pessoas ligadas à liturgia e à igreja, à vida da igreja, também usufruíssem de um momento de reflexão, de partilha, para verdadeiramente sentirem que o facto de há 100 anos não é um facto que ficou perdido no tempo”.

Questionado pela Agência ECCLESIA sobre a atividade do Secretariado Diocesano de Liturgia, o sacerdote sublinhou a resposta “às vezes muito prática” que oferece, nomeadamente “formações a nível dos leitores, ecológicos, ministros extraordinários de comunhão”, a que se junta o embelezamento das celebrações na catedral de Vila Real, “a nível de canto, da liturgia”.

Foto Agência ECCLESIA/TAM

Para o bispo de Vila Real, D. António Augusto Azevedo “é sempre um momento especial” celebrar um centenário “de um acontecimento que foi marcante para a diocese e para o país”.

“Há 100 anos, por iniciativa do bispo de então, que foi o primeiro bispo de diocese, tomou-se esta iniciativa de um congresso de reflexão litúrgica e foi importante para o movimento litúrgico em Portugal. Tem esse grande sentido e esse grande mérito”, afirmou D. António Augusto Azevedo.

D. João Evangelista de Lima Vidal, então arcebispo-bispo de Vila Real, reconhecido como o “Grande Apóstolo da Liturgia”, tomou a iniciativa de realizar o I Congresso Litúrgico em Portugal, lançando assim o Movimento Litúrgico que se foi estendendo a todas as dioceses.

Foto Agência ECCLESIA/TAM

O presidente da Comissão Episcopal Liturgia e Espiritualidade considera o Movimento litúrgico em toda a Igreja “muito importante”, assim como os “movimentos catequéticos, bíblicos, pastorais”, que ganharam novo impulso com o Concílio Vaticano II e permitem colher “bons frutos” na atualidade.

Em declarações à Agência ECCLESIA, em Vila Real, no contexto da sessão evocativa do I Congresso Litúrgico Português, D. José Cordeiro recordou os antecedentes desta iniciativa, assim como o facto de se terem congregado na diocese várias pessoas que “tinham bebido” do “movimento litúrgico que estava já a fervilhar na Europa”, nomeadamente beneditinos que tinham sido expulsos de Portugal  e regressar progressivamente.

“Fazer esta memória para nós é muito importante, pela gratidão, por reconhecer que nós somos carregados aos ombros de gigantes que nos antecederam no passado e que permitem hoje vivermos a beleza, a nobre simplicidade da liturgia com este substrato, este chão tão rico, histórico, bíblico, pastoral, espiritual, patrístico, canónico, interdisciplinar, para que possamos continuar a sonhar em grande e com grande esperança e a acreditar na formação para a liturgia e na formação pela liturgia para o autêntico encontro com Jesus Cristo”, afirmou.

D. José Cordeiro lembrou que o “arranque” do Movimento Litúrgico em Portugal aconteceu em Vila Real, tendo depois a sua continuidade em Braga, por exemplo, no II Congresso, por causa da “envolvência do Episcopado e dos outros pastores e também dos cultores de liturgia, dos liturgistas”.

O presidente da Comissão Episcopal Liturgia e Espiritualidade lembra que “há dois lugares que se destacam em Portugal” no que diz respeito ao Movimento Litúrgico Português: o Seminário dos Olivais, em Lisboa, e é o Mosteiro de Singeverga, na Arquidiocese de Braga.

“Foi nestes lugares onde se deu continuidade àquilo que, de uma forma solene, podemos dizer, aconteceu aqui num congresso diocesano, mas que passa a ser nacional por aquilo que, no nosso olhar retrospetivo e a uma distância crítica, podemos considerar e convencionar”, afirmou.

D. José Cordeiro lembrou também que o Santuário de Fátima é um “lugar indiscutível” para “todo o processo da reforma litúrgica”, lembrando que há mais de 50 anos se realiza o Encontro Nacional de Pastoral Litúrgica, que não aconteceu apenas nos anos da pandemia.

Este ano, de 27 a 30 de julho, vai decorrer o 50º Encontro Nacional de Pastoral Litúrgica, no ano em que se evoca o centenário do início do movimento litúrgico.

“Interligam-se também as temáticas, até porque escolhemos para tema desse encontro nacional ‘A Liturgia na vida da Igreja’, fazendo eco desta tradição viva, porque é uma memória viva, não é apenas estar a recordar o passado, nem a fazer referência a personagens, a textos, a obras, a publicações, mas àquilo que nos identifica com a fonte e com o cume de toda a vida da Igreja, que é a liturgia, ou mesmo que é dizer, a Bíblia rezada e a fé celebrada”, afirmou.

CB/PR

(Notícia atualizada às 18h30)

Partilhar:
Scroll to Top