Educação: «A inteligência artificial nunca poderá substituir um professor», afirma diretor do Colégio do Sagrado Coração de Maria

Paulo Campino assume preocupação com a possibilidade de esta tecnologia poder diminuir o pensamento crítico dos alunos 

Foto: Agência ECCLESIA/LJ

Lisboa, 19 jun 2026 (Ecclesia) – O diretor do Colégio do Sagrado Coração de Maria, em Lisboa, Paulo Campino, rejeitou a ideia de que a solução para a falta de professores passe pela inteligência artificial [IA], sublinhando a importância da relação dos docentes com os alunos.

“Acho que é pobre e acredito que isto não vai acontecer, a inteligência artificial nunca poderá, a meu ver, substituir um professor. Sem professor não há relação pedagógica”, afirmou o diácono permanente ao programa Ecclesia, transmitido hoje na RTP2 (15h).

O responsável considera que a “educação perde” sem a existência de uma “forte relação humana” entre docentes e estudantes, considerando que é através dela que se pode ajudar crianças e jovens a desenvolver o pensamento, a transmitir valores e a transformar as suas vidas.

O Papa Leão XIV publicou a primeira carta encíclica do pontificado a 25 de maio, intitulada “Magnifica humanitas” (a magnífica humanidade), sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da IA, numa reflexão que se estende ao campo da educação, apresentando o “grande desafio da integração dos saberes” e lançando o apelo a “uma aliança educativa para a era digital”.

Paulo Campino manifestou a preocupação que a IA possa “fazer diminuir o pensamento crítico” dos estudantes.

Hoje, esta tecnologia é “uma realidade” que “está presente nas escolas” e  não é possível esconder isso, destacou, relatando que o Colégio do Sagrado Coração de Maria iniciou, há dois anos, a utilização de manuais digitais, acreditando que esta ferramenta vai “diversificar estratégias”.

“Nós não podemos continuar com alunos como tínhamos há 20 anos, sentadinhos numa secretária, todos em carreirinha. Não. Hoje o trabalho colaborativo é muito importante”, defendeu o responsável.

No entanto, alertou Paulo campino, a “dimensão tecnológica não pode dispensar a dimensão ética”, da qualidade das fontes e da sua autoria “que têm que ser trabalhadas”.

“Neste momento, estamos a definir um conjunto de formações sobre a utilização da inteligência artificial, quer na dimensão a partir dos professores para os alunos e depois também dos alunos para os trabalhos que eles podem resolver”, explicou.

O diácono permanente revela que o estabelecimento de ensino está “a elaborar um plano de formação e um plano de ação”, com valores éticos, cujo objetivo é que se realiza durante o ano letivo.

“Não vale a pena diabolizar [a IA]”, enfatizou, acrescentando que se deve tirar proveito dela e utilizá-la naquilo que ela poderá trazer à escola.

Em entrevista a propósito do encerramento do ano letivo, o diretor do Colégio do Sagrado Coração de Maria, em Lisboa, defendeu que o desenvolvimento académico dos alunos nas várias disciplinas deve ter o mesmo peso que a formação humana.

Nós queremos formar boas pessoas e naturalmente estas boas pessoas são depois convidadas a ter uma intervenção na sociedade, uma intervenção no mundo. Para nós, uma formação científica no português, na matemática, na história, é tão importante como a formação humana”, afirmou.

O responsável destaca a importância de escutar os estudantes, entender a sua realidade e perceber que não são os mesmos jovens de há 20 anos.

“A questão das redes sociais, do digital, trouxe para a escola um diálogo muito mais aberto, muito mais plural e, portanto, é preciso ouvi-los, é preciso ouvi-los nas assembleias de turma, é preciso ouvi-los também na Associação de Estudantes”, referiu.

Além disso, Paulo Campino salienta que é essencial o diálogo com os pais, que entregam a cada manhã o “seu maior tesouro” nas escolas, assinalou, destacando que todos devem estar unidos com o “mesmo empenho” para transformar crianças e jovens.

O Colégio do Sagrado Coração de Maria caracteriza-se por procurar abrir-se para o exterior, indica o responsável, dando conta que este estabelecimento promove várias atividades que levam os estudantes além das paredes da escola.

“Os nossos alunos têm todos encontros de formação, encontros de espiritualidade, encontros com a natureza. Isto é transversal para todos os alunos”, sublinhou, acrescentando que os jovens participam também em assembleias e jornadas de família.

Paulo Campino adianta ainda que o Colégio dinamiza também diálogos sobre vocações e promove, do 9º ao 12º anos, o modelo da Assembleia Geral das Nações Unidas, em que se trabalha a dimensão dos objetivos do desenvolvimento sustentável.

“Ser bom economista é importante, ser bom médico, ser bom engenheiro, mas que o bom economista aconteça a partir destes valores que nós acreditamos, que dão sentido à nossa vida e que podem tornar o mundo mais justo, mais fraterno, mais solidário”, frisou.

O diácono permanente realça também que o Colégio do Sagrado Coração de Maria, em Lisboa, é marcado pela inclusão de alunos com dificuldades económicas, sociais e até de aprendizagem, aludindo também à quantidade e diversidade de línguas que abrange.

“Nós, entre alunos e pais, temos neste momento cerca de 40 nacionalidades no colégio”, revela, considerando que é o reflexo também da “realidade portuguesa atual”.

Nós, que somos um colégio assumidamente cristão católico, temos muitos muçulmanos, temos muitos hindus e temos até alguns que não acreditam. E para nós é fundamental esta diversidade porque nos permite o conhecimento e nós quando nos conhecemos acabamos por ser capazes de estabelecer relação e de construir unidade e construir paz”, enfatiza.

Paulo Campino admite que o Colégio trabalha com uma realidade que não é igual à da escola pública, assumindo que o risco encará-la como uma bolha “é uma preocupação” que o estabelecimento de ensino procura ultrapassar.

“Mas o nosso olhar para a nossa realidade leva-nos a abrir para o mundo exatamente para que não sintamos que estamos ali a criar uma elite fechada, mas sim uma elite aberta, atenta, com os olhos postos naquilo que vai ser a sua realidade. E hoje a realidade é da internacionalidade, é das relações e portanto não podemos ficar fechados”, sublinhou.

LS/LJ

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