Elisabete Pinelo e Henrique Ferreira, Diocese de Bragança-Miranda

Um dos principais problemas do nosso sistema de saúde, ao longo do ano de 2020, durante a urgência dos doentes-Covid, foi o atraso no atendimento aos restantes doentes.

Com efeito, os serviços hospitalares realizaram, a nível nacional, entre janeiro e final de junho de 2020, 896.000 consultas a menos, comparando com doze milhões de consultas anuais em 2019. Por sua vez, os Cuidados de saúde primários realizaram menos 1,1 milhões de consultas, no mesmo período, comparando com trinta e um milhões de consultas realizadas em 2019 [iii].

O número de cirurgias programadas não realizadas, a nível nacional,  não é menos impactante: de 58.829 realizadas em Março de 2019, caiu-se para 31.216 em Março de 2020 [iv].

No Distrito de Bragança,  no mesmo período, a crise Covid-19 «levou à suspensão da atividade assistencial programada e ao cancelamento de 7.687 consultas e 584 cirurgias» nas unidades hospitalares da Unidade Local de Saúde [v], 50% das quais remarcadas até ao final de Agosto.

Estes atraso, suspensão e cancelamento, nos diferentes espaços territoriais, dever-se-ão essencialmente a duas razões: 1) menor procura social dos serviços de saúde, sobretudo por pessoas acima dos 70 anos, presumivelmente por receio de contaminação; e 2) problemas derivados da reorganização dos serviços de saúde, quer dos cuidados primários quer dos cuidados hospitalares segundo circuitos diferenciados para doentes-Covid e doentes não-Covid, com realocação e readaptação de recursos humanos.

A informação disponível sobre o número de mortos a mais, em 2020, a nível nacional e até ao final de Agosto (6.312), relativamente ao período homólogo do último quinquénio (2015-2019) [vi], permite-nos agora hipotetizar a profundidade e extensão do abandono a que os doentes não-covid foram submetidos, não se conhecendo devidamente as causas da sua morte, o que poderá aumentar as mortes por Covid-19.

De qualquer modo, o atraso nas consultas e nas cirurgias é um indicador poderoso, mesmo se atenuado pelo recurso à telemedicina, que a inevitável desatualização dos sistemas TIC, por parte dos serviços de saúde, e da infoexclusão, por parte das pessoas acima dos 50 anos, não permitiram tornar totalmente eficaz ainda que muito contribuindo para o não maior aumento de consultas não realizadas [vii].

É verdade que o sistema de saúde e os seus profissionais viveram – e ainda viverão – um período de ambiente e tecnologia incertos face ao SARS-CoV-2, mas, adquiridos procedimentos contra o contágio, será tempo de criar eficácia no sistema, mesmo nas situações que exigem tecnologia intensiva [viii] como são as intervenções cirúrgicas e o tratamento de doentes-Covid-19, que impõem a abordagem multidisciplinar.

É da mais elementar justiça, com vista a um convívio social pacífico e saudável, que os portugueses sintam confiança no seu sistema de saúde. Os tempos de caos são excelentes para a reengenharia e para a reinvenção da excelência organizacional [ix] tanto mais que a pandemia veio manifestar, mais uma vez, a grande qualidade humana e técnico-científica dos nossos profissionais e do nosso sistema de saúde, sobretudo do subsistema hospitalar.

Elisabete Pinelo, Médica internista com diferenciação em imunologia e diretora do internato médico na Unidade Local de Saúde do Nordeste. Membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz – Bragança/Miranda

Henrique da Costa Ferreira, Professor Coordenador Aposentado do Instituto Politécnico de Bragança, área de Ciências da Educação – Sociologia das Organizações Educativas e Administração da Educação. Membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz – Bragança/Miranda

 

NOTAS

[i]    Números apresentados pela ex-Secretária de Estado Adjunta e da Saúde, Jamila Madeira, aquando da apresentação do Relatório Anual de Acesso aos Cuidados de Saúde, em 2019 e em 2010, na Assembleia da República e citados por LUSA em https://expresso.pt/coronavirus/2020-07-22-Covid-19.-Realizadas-menos-896-mil-consultas-hospitalares-ate-junho (Jornal Expresso online, 22-07-2020, 16h10. Acedido em 11-09-2020, 10h55.

[ii]    SNS, citado por Ana Maia e Rui Barros em «Cirurgias programadas caem 40% e a telemedicina bate recordes», em Jornal Público, 30-04-2020, acedido em https://www.publico.pt/2020/04/30/sociedade/noticia/cirurgias-programadas-caem-40-telemedicina-bate-recordes-1914508, em 12-09-2020, 14h32

[iii]     TVI24 online, 11-09-2020. Remarcadas mais de metade das consultas e cirurgias canceladas no distrito de Bragança. Acedido em https://tvi24.iol.pt/aominuto/5e56645d0cf2071930699ff6/remarcadas-mais-de-metade-das-consultas-e-cirurgias-canceladas-no-distrito-de-braganca/5f04b0bf0cf23748c012eb3e, em 10-09-2020, 15h00.

[iv]    Segundo INE (2020, 18-09-20, ), «A mortalidade em Portugal no contexto da pandemia COVID-19 – Semanas 1 a 35», em https://ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_boui=452171208&DESTAQUESmodo=2 , acedido em 18-09-20, 13h57, entre 2 de Março e 31 de Agosto de 2020, morreram 57.791 pessoas, mais 6.312 do que a média dos últimos cinco anos. Dos 6.312 mortos apenas 1.822 foram identificados como causados pela Covid-19, tendo 4.484 (70%) mais de 75 anos e 4.371 85 ou mais anos. Ou seja, no período em referência morreram mais 5.518 idosos com 75 ou mais anos do que a média do anterior quinquénio. E, por outro lado, aumentou em 46,1% o número dos que morreram em casa. Ver ainda: Alexandra Campos, «Em seis meses morreram mais 5882 pessoas do que no mesmo período de 2019», em https://www.publico.pt/2020/09/11/sociedade/noticia/seis-meses-morreram-5882-pessoas-periodo-2019-1931228 e https://www.jn.pt/nacional/mais-4490-obitos-sem-covid-face-a-media-dos-ultimos-cinco-anos–12736346.html?utm_term=Mais+4490+obitos+sem+covid+face+a+media+dos+ultimos+cinco+anos&utm_campaign=Editorial&utm_source=e-goi&utm_medium=email, 18-09-20, 13h00.

[v]   Em 2019, terão sido feitas pouco mais de 30.000 consultas telemédicas (cf. https://www.netfarma.pt/teleconsultas-no-sns-atingiram-novo-maximo/, acedido em 15-09-20, 15h47). Em 2020, as consultas por telemedicina terão aumentado 40% por comparação com o período homólogo de 2019 (cf. https://www.jornalmedico.pt/atualidade/39645-apah-e-om-preocupadas-com-quebra-acentuada-de-consultas-presenciais-no-primeiro-semestre-de-2020.html, acedido em 12-09-17h34).

[vi] Estamos a seguir a classificação da tecnologia organizacional e da relação entre ambiente, tecnologia, incerteza e previsibilidade, segundo Kenneth Thompson, 1976, Dinâmica Organizacional – Fundamentos Sociológicos da Teoria Administrativa. S. Paulo: McGraw-Hil.

[xii]    Revisitando Charles Andy (1991), The Age of Unreason, Harvard Business Review Press, perspetivamos melhor a tensão entre o caos e a ordem, a razão e a desordem na dialética construtiva da ordem racional nas organizações.

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