Padre Hugo Gonçalves, Diocese de Beja
Há uma tentação subtil – mas profundamente enraizada – que atravessa comunidades cristãs de todos os tempos: a de transformar a Igreja num espaço de privilégios, em vez de a viver como caminho de conversão. Não é um fenómeno novo. Já no tempo de Jesus Cristo havia quem procurasse os primeiros lugares, quem exibisse a sua religiosidade como medalha social e quem entendesse a fé como moeda de troca. Hoje, essa realidade assume novas formas, mas a essência permanece inquietantemente semelhante.
Há católicos – praticantes e não praticantes – que parecem acreditar que o seu nome de família, o seu estatuto social ou mesmo os donativos que fazem lhes conferem um lugar especial na Igreja, como se a pertença ao Corpo de Cristo pudesse ser hierarquizada por critérios mundanos. Esta visão não só desvirtua o Evangelho, como cria uma comunidade desigual, onde alguns se sentem donos e outros meros convidados.
Depois há aqueles que se aproximam da Igreja como quem entra num hipermercado: procuram serviços religiosos conforme a sua conveniência, escolhem “produtos sacramentais” e, quando lhes é dito que a vida cristã implica caminho, compromisso e conversão, reagem com indignação. São frequentemente os mais reivindicativos, não porque tenham maior zelo pela fé, mas porque a encaram como um direito de consumo.
Não satisfeitos, alguns tornam-se verdadeiros “nómadas paroquiais”, percorrendo várias comunidades à procura de quem lhes facilite aquilo que desejam – seja um sacramento sem preparação, seja uma exceção às normas que a Igreja, com sabedoria pastoral, propõe. Nesta lógica, a unidade da Igreja é substituída por uma espécie de mercado religioso, onde se escolhe a paróquia mais “conveniente”.
Há ainda os que, ajudando materialmente a Igreja ou instituições católicas, esperam retorno – não necessariamente financeiro, mas em forma de privilégios, reconhecimento público ou dispensa de exigências. Gostam dos primeiros lugares, das vénias discretas, das referências elogiosas, vivendo aquilo que o Evangelho denuncia com clareza: uma religiosidade que procura a própria glória em vez da glória de Deus.
Mas talvez o mais preocupante não seja a existência destes comportamentos – afinal, todos somos frágeis e necessitados de conversão. O mais grave acontece quando os responsáveis das comunidades, sejam padres, leigos em cargos de responsabilidade ou dirigentes de instituições, cedem a estas pressões. Quando, em vez de ajudar estes irmãos a crescer na verdade, optam pela facilidade, pelo evitar conflitos ou pela manutenção de aparências. Ao fazê-lo, não só prejudicam aqueles que deveriam corrigir com caridade, como também desmotivam profundamente os que procuram viver a fé com seriedade e coerência, acabando estes, muitas vezes, rotulados de “intransigentes”, “rígidos” ou até “maus católicos”.
A Igreja não é um clube social, nem um espaço de privilégios. É uma comunidade de pecadores chamados à conversão, onde todos são iguais na dignidade e igualmente desafiados a caminhar. A caridade pastoral não consiste em facilitar tudo, mas em conduzir cada pessoa à verdade – mesmo quando essa verdade exige mudança, renúncia e crescimento.
Ser verdadeiramente “católico de bem” não é ter estatuto, influência ou reconhecimento. É, isso sim, deixar-se transformar pelo Evangelho, aceitar o lugar que Deus nos dá e caminhar com humildade ao lado dos irmãos. Porque, no fim, não haverá lugares reservados por nome, poder ou donativos – apenas corações convertidos.
Pe. Hugo Gonçalves, Diocese de Beja
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