O novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. José Ornelas, é o convidado desta semana na entrevista conjunta Renascença/Ecclesia. Uma oportunidade para conhecer as principais preocupações do bispo de Setúbal em relação ao país e ao dinamismo das comunidades católicas.

Entrevista conduzida por Aura Miguel (Renascença) e Paulo Rocha (Ecclesia)

Parabéns pela eleição para presidente da Conferência Episcopal Portuguesa. O que significa para si esta eleição?

Primeiro foi uma confusão… Saber como vai ser conjugar a diocese com mais este trabalho. Sem dramatizar nada, mas é evidente que vai exigir ginástica.

 

É uma dupla responsabilidade…

Sou bispo da quarta diocese maior do país em termos populacionais. É uma diocese que me fascina e com a qual me identifico muito bem. É nessa qualidade também que me é pedido para ser presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP). Não existe um bispo que cai do céu para ser presidente da CEP. Os outros colegas que podiam ser hipótese também estão igualmente assoberbados de trabalho.

 

Sendo de Setúbal tem um significado particular, o facto de ser uma diocese periférica ou assim considerada?

Não sei… Acho que ser de Setúbal… Não é Setúbal que fica em evidência, fica em evidência a Conferência Episcopal. Ser bispo de Setúbal e presidente da CEP é uma ideia que me tem de entrar na cabeça e de olhar para a Igreja em Portugal de forma global. Essas duas dimensões têm de ser sempre conjugadas, mas isso é muito importante no ser Igreja. Quando eu penso em Setúbal, não posso pensar em Setúbal como se fosse a Igreja, é uma das Igrejas da Igreja Universal. Mas não posso deixar de pensar que sou da Igreja de Setúbal e com a qual estou identificado. Estas coisas não entram em contradição. São dois níveis que se juntam para formar a rede que somos.

 

O Papa Francisco fala muito da Igreja sair para as periferias. A realidade de Setúbal toca muito esse âmbito. D. José Ornelas disse que acha que foi eleito por causa da experiência no terreno. Isso é uma mais-valia para o país?

Nós temos desde o início quatro Evangelhos. Quatro leituras de Jesus. São o mesmo Jesus, mas quatro modos de viver a Igreja. A Igreja é como uma orquestra. Tem vários instrumentos e todos juntos formam essa orquestra. Fazendo músicas complementares para a melodia final. A Igreja tem de ser sempre assim. Cada um junta à sua experiência eclesial aquilo que a Igreja anuncia. A narração dos discípulos de Emaús é precisamente isso. Cada pessoa que acredita está fazendo crescer a Igreja. Cada bispo que interpreta e vive na sua realidade eclesial está a contribuir a Igreja.

 

Foto: Agência ECCLESIA/PR

O Papa Francisco vai tentando delinear o perfil da Igreja como sendo marcadamente laical e também sinodal. Qual será o papel das conferências episcopais na sinodalidade da Igreja?

Felizmente, na Igreja Católica acentua-se a realidade da unidade e do sucessor de Pedro como centro desta unidade que é feita pelo Espírito Santo, mas tem a sua concretização na figura do Papa. Por outro lado, as Igrejas Ortodoxas, por exemplo, acentuaram as outras sedes apostólicas originais como igrejas irmãs. A primazia do bispo de Roma não é totalmente posta em causa por estas igrejas e também pelas igrejas saídas da Reforma. Agora, que se deve rever um bocadinho tudo isto é muito importante. Mas também na Igreja Católica é importante ter isso presente: a sinodalidade não é inimiga, antes pelo contrário, da unidade.

A catolicidade da Igreja tem de ser vivida dentro de cada uma das Igrejas particulares, mas, ao mesmo tempo, temos de fazer caminho em conjunto.

As conferências episcopais são um instrumento muito importante, saído, particularmente, do Concílio Vaticano II, mas estão na história da Igreja refletidas desde o início. A unidade tem de estar ligada com a pluralidade.

 

E em relação à dimensão laical da Igreja?

Pelo batismo somos filhos e filhas do Espírito de Deus. O Espírito dá os seus dons a todos e cada um para o bem de todos. Para colaborarem na construção da Igreja e construção do mundo. O primeiro papel da autoridade não é ser dominador de leões, mas ser criador de leões. Isto é a única forma de fazer uma Igreja viva. Mas não nos podemos esquecer que a Igreja funciona com todos os seus carismas e ministérios. O ministério da autoridade não é incompatível com a sinodalidade. O exercício da autoridade dentro da Igreja está ao serviço da comunhão e da unidade. O bispo é aquele que supervisiona para que não falte nada e ninguém fique para trás.

 

A sua experiência missionária e o percurso no terreno ajudam a essa consolidação da experiência sinodal?

Quando temos uma Igreja muito parada, institucionalizada e acomodada é uma Igreja também onde, facilmente, a estruturação e o esquema ganha maior preponderância. Quando temos uma Igreja que vive fazendo-se, portanto caminhando, é uma Igreja que tem de ir sempre inventando. A Igreja missionária é por natureza uma Igreja constantemente criativa, tem de se adaptar a novos meios, novas culturas, novas línguas, criar o que ainda não estava criado.

Esta pandemia veio dizer-nos que se nos fixarmos simplesmente naquilo que temos, não chega. Fomos criando outras coisas. Nas missões fomos criando coisas.

 

Uma experiência de fé criativa…

Quando a Igreja se deixa mover pelo Espírito não deixa de ser uma Igreja missionária. A igreja tem de ser missionária em todo o lado. A secularização veio dizer-nos, para quem ainda não se convenceu, que não vivemos em cristandade. Nós não somos um país, digamos, cristão.

 

Foto: Agência ECCLESIA/PR

Não?

Nós não somos um país cristão no sentido de que a nossa Igreja determina e onde tudo conflui para a Igreja.

 

As estatísticas enganam?

Na Diocese de Setúbal a maioria considera-se crente, mas os que frequentam a Igreja são uma minoria muito pequena. Isso significa que o nosso espírito missionário é tão necessário aqui como em África. Aliás, os países mais cristãos, nesse ponto de vista já não são os europeus.

 

Há também necessidades que surgem e exigem à Igreja criar respostas para este tempo e ultrapassar problemas que tem, como por exemplo as comissões de proteção de menores. Que trabalho foi este feito através do Vaticano e, sobretudo, envolvendo todas as dioceses nesse processo?

Isto é um chamamento a toda a Igreja. As comissões de proteção de menores vêm ao encontro de uma situação que não é simplesmente eclesial. Não é simplesmente a questão dos abusos sexuais. É um problema mundial onde o principal foco de preocupação não são verdadeiramente os ambientes eclesiais, que também existem. Infelizmente, não posso garantir que não vão continuar a existir.

 

As comissões vão ajudar a ultrapassar este problema?

Elas foram criadas para isso. Criar sistemas de deteção e ajuda. Criar uma mentalidade de intolerância a este estado de coisas. A nível infantil, pessoas fragilizadas e o drama da violência familiar. É uma mudança cultural que é preciso. Vejo estas comissões não tanto como estando prontas para intervir em caso de avaria, mas sobretudo manter sãos os nossos ambientes, ajudar a formar para outra cultura de respeito para com as pessoas.

 

Foto: Lusa

Que desafios e aspetos positivos depois do período pandémico?

O documento aprovado na assembleia plenária dá muitas perspetivas a esse nível. Um dos primeiros elementos de valorização foi a primazia da vida, a convergência de valores para a vida e os meios que defendem a vida. A atenção aos mais frágeis. Parâmetros muito importantes. A própria convergência de política interna e internacional a este nível acabou por ser interessante, mas ao mesmo tempo revelar também sistemas de interesses que já estão passando ao lado. Isso é dramático de ver.

 

Não o preocupa a questão da eutanásia voltar?

Estar a discutir a eutanásia neste sentido é punho no estômago e em contramão de tudo aquilo que se veio dizer aqui. Deve-se enquadrar também a questão dos cuidados paliativos, criar um ambiente para que as pessoas tenham um gosto de viver. Isto é que é importante. Agora colocar a questão da eutanásia aqui é um contraponto.

Há outros valores que estão a sair daqui e são importantes também. Outro ponto focado, é uma questão internacional, mas relacionado com Portugal é a União Europeia. Pela primeira vez, vamos ver se vai para a frente, a União Europeia aparece, realmente, com uma capacidade de intervenção para dizer que ninguém fica para trás. Isto é uma medida inteligente, é questão de inteligência económica, social e política. A União Europeia não pode ser apenas para os mais potentes e não pode deixar de lado os mais fragilizados.

 

Isso não evita que esta pandemia tenha colocado a descoberto bolsas de pobreza, bairros mais problemáticos e pessoas mais fragilizadas…

Que acontecem por essa Europa fora. Os níveis de pobreza podem ser diferentes, mas a sua equidade e dramaticidade existem em todos os países. Temos de criar condições mínimas de dignidade para todos.

 

Sem o tal vírus do egoísmo como falou no Domingo de Páscoa.

Se não formos capazes de fazer isso, as consequências vão ser dramáticas para todos. Os fenómenos como aquele dos coletes amarelos, em França; as revoltas nos bairros periféricos de Bruxelas (Bélgica) e os protestos em Portugal sobre as discriminações. O mundo está sempre a refazer-se. São sinais e sintomas de uma doença que não está curada. Os coletes amarelos paralisaram a França, mesmo com muita manipulação à mistura, mas revelam um mal-estar que é preciso atender.

 

E o que revelam as manifestações de violência e de antirracistas que têm marcado a sociedade em todo o mundo?

Primeiro, positivamente, revelam – e não é só da parte das pessoas discriminadas – uma consciência onde se juntaram muitas raças e etnias e disseram: Não pode ser. Basta. Não se pode viver assim.

Veja o que significa a exclusão política da África. Um continente, como lhe chamava o professor Adriano Moreira, estrategicamente insignificante depois da Guerra Fria. Esquecidos. Até que acordámos com eles a baterem-nos à porta, a entrarem desesperados, arriscando tudo para atravessarem o Mediterrâneo.

Estive com os nossos estudantes africanos, a maioria deles nos Camarões, onde falavam de África com ceticismo. Jovens de deviam ser fonte de esperança, mas olhavam para os vários setores da sociedade e não encontravam os motivos de esperança.

A Igreja tem de ser motivo de esperança e de denúncia. Temos de criar um mundo alternativo que não se faz simplesmente por contraposição, mas por criar.

Veja-se o caso de Nelson Mandela, um homem que sofreu a discriminação, a opressão política e a opressão. Quando saiu da prisão devia ser um homem completamente amargurado, mas fez com que um país se erguesse e deu passos significativos na criação de um novo mundo. Felizmente, o mundo também está cheio destes profetas.

 

É portador desta esperança porque também a experimentou e conhece o mundo inteiro.

Neste país e Europa secularizada o que pode tornar a fé atrativa nos dias de hoje, concretamente aos jovens?

A fé é uma forma de viver que nos faz interpretar as coisas. Primeiro, como a realidade do mundo onde vivemos. Eu não vivo em mundos ideais. O mundo novo tem de nascer dentro de mim. Tenho de sonhá-lo. Os profetas viram esse mundo.

 

É um sonho realista?

É um sonho realista porque vai ser a base da criação de caminhos. A Igreja vai ser sempre isto: ter um sonho e querer realizá-lo e depois ser capaz de dar a vida por esse sonho. De empenhar aí a existência. Não podemos ficar à espera que aconteça. Temos de fazer acontecer. O cristão tem de ser alguém ativamente presente na criação deste mundo.

 

Foto: Agência ECCLESIA/PR

Que motivações, os jovens e a sociedade portuguesa podem encontrar na realização da Jornada Mundial da juventude para essa participação?

– Nós em Setúbal estamos a falar do «Partilha». Partilha-te… Partilha em… Partilha-te em missão, na solidariedade, na construção. Partilha-te ao nível do sonho. Queremos que os nossos jovens sejam capazes.

A Igreja do Concilio Vaticano II foi o levantar-se para estar ativa na construção da sociedade. A Igreja em si e no seu modo de viver tem de ser um laboratório do mundo novo que Deus sonha para a humanidade.

 

Disse que a Igreja é chamada a discernir sem saudosismos. É isso que quer para a Igreja em Portugal?

Gostaria que a Igreja fizesse sempre, com gratidão e alegria, memória. Memória sim. Memória daquilo que ela é e sem medo e sem constrangimentos. Não é uma memória saudosista e bolorenta. Memória que dá força e inspiração.

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