D. José Ornelas afirma que Portugal «não é um país cristão» e considera a discussão da eutanásia no Parlamento um «punho no estômago»

Lisboa, 19 jun 2020 (Ecclesia) – O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa disse que a Igreja não vive em cristandade, lembrou que a “dramaticidade” da pobreza existe em todos os países e afirmou que a proteção social na Europa é uma “questão de inteligência económica”.

“Pela primeira vez – vamos ver se vai para a frente – a União Europeia aparece, realmente, com uma capacidade de intervenção para dizer que ninguém fica para trás. Isto é uma medida inteligente, é questão de inteligência económica, social e política”, afirmou D. José Ornelas.

Em entrevista à Agência ECCLESIA e à Renascença, o novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) referiu a “dramaticidade” dos níveis da pobreza que “existem em todos os países” e desafiam a que se criem “condições mínimas de dignidade para todos”.

“A União Europeia não pode ser apenas para os mais potentes e não pode deixar de lado os mais fragilizados”, afirmou.

Para o novo presidente da CEP, a Igreja tem de ser “motivo de esperança, de denúncia” e agir na defesa da “primazia da vida”, considerando a discussão da legalização da eutanásia no Parlamento um “punho no estômago”.

“Estar a discutir a eutanásia neste sentido é punho no estômago e em contramão de tudo aquilo que se veio dizer aqui. Deve-se enquadrar também a questão dos cuidados paliativos, criar um ambiente para que as pessoas tenham um gosto de viver. Isto é que é importante. Agora colocar a questão da eutanásia aqui é um contraponto”, afirmou.

D. José Ornelas lembrou que Portugal não é um “país cristão”, “onde tudo conflui para a Igreja”, lembrando que os que a frequentam “são uma minoria muito pequena”.

“A igreja tem de ser missionária em todo o lado. A secularização veio dizer-nos, para quem ainda não se convenceu, que não vivemos em cristandade. Nós não somos um país, digamos, cristão”.

Questionado sobre o papel das conferências episcopais, o bispo de Setúbal o considera que “a sinodalidade não é inimiga, antes pelo contrário, da unidade” e que as conferências episcopais “são um instrumento muito importante”, com origens sobretudo no Concílio Vaticano II, a demonstrar que “unidade tem de estar ligada com a pluralidade”.

“O ministério da autoridade não é incompatível com a sinodalidade. O exercício da autoridade dentro da Igreja está ao serviço da comunhão e da unidade. O bispo é aquele que supervisiona para que não falte nada e ninguém fique para trás”, afirmou.

O bispo de Setúbal foi eleito presidente da Conferência Episcopal Portuguesa esta terça-feira para o triénio 2020-2023, sendo vice-presidente D. Virgílio Antunes, bispo de Coimbra.

D. José Ornelas disse que vai ser necessário “conjugar” o trabalho na Diocese de Setúbal, a quarta maior do país em termos populacionais”, com “mais este trabalho”, o que encara “sem dramatizar nada” e na certeza de que “vai exigir ginástica”.

“Ser bispo de Setúbal e presidente da CEP é uma ideia que me tem de entrar na cabeça e de olhar para a Igreja em Portugal de forma global. Essas duas dimensões têm de ser sempre conjugadas”, afirmou.

Em cada sexta-feira, a Agência ECCLESIA e a Renascença publicam uma entrevista conjunta nos respetivos portais da internet a partir das 07h00, que é emitida na Renascença entre as 13h00 e as 14h00.

(Aura Miguel, Renascença, e Paulo Rocha, Agência Ecclesia)

PR

«União Europeia não pode ser apenas para os mais potentes» – D. José Ornelas

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