O contributo católico para o 25 de Abril

Padre Vítor Pereira, Diocese de Vila Real

Padre Vitor Pereira, Diocese de Vila Real

Aproxima-se mais uma celebração do 25 de abril, e dou graças a Deus por ser um filho do novo tempo que a revolução originou. Não me vejo a viver de outra forma que não seja em liberdade. Liberdade com dignidade, com regras, com compromisso e com responsabilidade, com direitos e com deveres. Merecem um grande respeito e a justa homenagem todos aqueles que lutaram por tão grande conquista para a sociedade portuguesa. Nos últimos anos, notamos que a celebração do 25 de abril desune mais do que une e continua a ser um dia para troca de recados e de galhardetes entre forças políticas ou fações da sociedade, manifestando que a história não é consensual e que há muitas maneiras de contar e ler a história. A este propósito, recordo um bom professor de história, que tive no secundário, que afirmava que ainda está muito por contar sobre o 25 de Abril. Então militar, na sua opinião, foi o mal-estar no interior das forças armadas que provocou a revolução, porque existiam graves injustiças e desequilíbrios dentro das forças militares, no campo das regalias, do percurso das carreiras e dos privilégios, injustiças a que o poder instituído não estava a dar a devida resposta e atenção, despoletando, assim, a reação dos militares com a revolução. A narrativa da liberdade foi uma forma romanceada de se esconder as verdadeiras razões da revolução de Abril, nas palavras do professor. Verdade ou mentira? Não sei. O que sabemos é que, de facto, a história não é consensual e tem muitas leituras. Nem todo o historiador separa bem a verdade do que quer que seja verdade e há muito historiador que escreve com preconceitos, inquinando, assim, a sua redação histórica. A história é, muitas vezes, feita de “histórias”.

Seja como for, e querelas históricas à parte, é inquestionável o valor e o significado da revolução do 25 de Abril. Operou uma mudança necessária e premente e institui no país um conjunto de valores democráticos, que há muito fervilhavam na consciência da maioria da população portuguesa. O regime estabelecido em Portugal era retrógrado, estava caquético e desatualizado. Persistia-se numa guerra do ultramar que era um matadouro da juventude portuguesa, causadora de sofrimento imorredoiro e indescritível em tantas famílias portuguesas. Nenhum regime ou poder político tem direito a legitimar uma ditadura sobre um povo, porque a finalidade da ação política é construir o bem comum desse povo, numa atmosfera de liberdade e de respeito por esse povo, em todas as suas dimensões. O poder político não é dono e senhor do povo, mas é seu servo, mandatado pelo próprio povo, para organizar e construir o conjunto de condições para que cada cidadão contribua para o bem comum e procure o seu bem individual. Se é certo que o regime de Salazar, nos seus alvores, contribuiu para a consolidação da paz e da estabilidade social, num país que ainda vivia em febre republicana, com o tempo estendeu abusivamente e ilegitimamente os seus tentáculos inquisitórios e totalitários a todos os campos da sociedade portuguesa e da vida privada das pessoas, promovendo o medo, a perseguição, a tortura, o amordaçamento, a submissão forçada, a denúncia, o policiamento doentio sobre ideias, valores e ações, algo que jamais um povo deve aceitar da conduta do poder político.

Houve algum vento católico que tenha inspirado a revolução? Houve. E foi decisivo. Eu sei que a ação e o procedimento da Igreja Católica durante o Estado Novo não é consensual. Há quem acuse a Igreja de colagem e colaboracionismo com o velho regime e de falta de coragem e de audácia para denunciar os seus abusos e de enfrentar, com inspiração profética, os seus atropelos, apontar, com firmeza, caminhos mais consentâneos com o respeito pelo povo e pela dignidade humana. Ficou a perceção de que a Igreja era uma amiga íntima do velho regime. Talvez a Igreja tenha passado ao lado do pobre caído na berma da estrada, falhou por grave omissão, mas também há exemplos de enfrentamento ao velho regime, como é o caso do bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, entre outros. Dou aqui o exemplo de D. António, mas antes dele já muitos católicos vinham a fazer caminho, e é bom lembrar isso. Sobretudo desde 1958, muitos setores católicos começaram a lutar e a exigir alguma transformação política e social. Dizer-se que a Igreja Católica era, sem mais nem menos, como já ouvi, aliada da ditadura, não é correto. Uma boa parte da Igreja pediu mudanças e caminhos novos, reclamou a liberdade e o pluralismo.

Se a boca se cala, o Espírito Santo não se cala, e acreditamos que o Espírito Santo conduz a Igreja. No dia 11 de abril de 1963, o «Papa da Bondade», João XXIII, publicava e oferecia à Igreja a carta encíclica Pacem in Terris (Paz na terra), com o subtítulo «A paz de todos os povos na base da verdade, justiça, caridade e liberdade». Foi e é um documento marcante da Igreja Católica, que apontou novos caminhos e impulsionou mudanças no mundo, nomeadamente na Europa, ainda a debater-se com o aguilhão dos regimes opressores e totalitários. A encíclica do Papa João XXIII foi uma nova aragem que veio sobressaltar consciências e mentalidades. Apontou a necessidade de uma nova construção social e um conjunto de valores e princípios, que as ditaduras europeias não estavam a respeitar, como a falta de liberdade, liberdade de pensamento, liberdade de expressão, participação cívica, falta de liberdade para as associações e organizações, liberdade para associação, o direito dos trabalhadores a terem uma vida digna, uma vida com condições, uma vida de liberdade. Este documento da Igreja católica despertou e uniu, sobretudo, os jovens daquele tempo e gerações seguintes, na busca de um novo rumo para as sociedades europeias, despertou para a urgência de uma mudança profunda nas sociedades, em que se devia «olhar o homem como pessoa, com direito a ter uma vida digna, a ter direito ao trabalho, a ter direito à liberdade».

A encíclica não teve o intuito de provocar revoluções políticas e sociais. Os seus horizontes estão para além disso. Mas inspirou-as. A seu modo, foi a base para a revolução do 25 de Abril. Em 1974 saiu a Carta Pastoral sobre o Contributo dos Cristãos para a Vida Social e Política, convocando os cristãos para os novos desafios. Membros do movimento Graal percorreram o país, em 1974, a divulgar valores da «Revolução dos Cravos». O ‘Graal’ é um movimento internacional de mulheres cristãs. Diz Isabel Allegro de Magalhães: “Logo a seguir ao 25 de Abril estivemos nas chamadas equipas móveis, que iam de terra em terra, às pequenas aldeias, às sedes de concelho, falar com as populações para explicar e mostrar que era cristão escolher uma coisa que desse mais justiça e igualdade ao país”. Em 1973 (Carta Pastoral) e 1974, vários bispos publicaram documentos onde pediam mais pluralismo nas opções políticas.

Celebremos, por isso, a liberdade e a democracia.

Padre Vítor Pereira
Diocese de Vila Real

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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