Lisboa: Patriarca alerta para desumanização e rejeita ditadura da «eficiência» nas Misericórdias

D. Rui Valério reflete sobre desafios da inteligência artificial no setor social

Foto: Patriarcado de Lisboa

Cadaval, 10 jul 2026 (Ecclesia) – O patriarca de Lisboa alertou esta quinta-feira para os riscos de desumanização no cuidado aos mais frágeis perante a revolução tecnológica, rejeitando a sobreposição da eficiência de gestão à dignidade humana nas Misericórdias.

“Quando prevalece apenas a lógica da eficiência, o utente pode transformar-se num número; o trabalhador, num recurso; o idoso, num custo; o doente, num processo; a pessoa dependente, num indicador de ocupação”, advertiu D. Rui Valério, durante a reunião do Secretariado Regional de Lisboa da União das Misericórdias Portuguesas.

Falando na Santa Casa da Misericórdia do Cadaval, o responsável centrou a sua reflexão na recente encíclica ‘Magnifica humanitas’, do Papa Leão XIV.

“Uma instituição pode ser altamente eficiente e profundamente desumana”, advertiu.

O patriarca interpelou os provedores e colaboradores sobre a adoção acrítica da Inteligência Artificial (IA), assinalando que “é necessário perguntar que espécie de pessoas nos estamos a tornar”.

A tecnologia, disse, pode ajudar a organizar e libertar recursos, reconheceu o orador, mas avisou de imediato que a máquina “também pode conduzir a formas impessoais de atendimento, aumentar a vigilância, transformar a pessoa num conjunto de dados”.

A intervenção, divulgada pelo Patriarcado de Lisboa, recomendou que os dirigentes recusem reduzir a assistência a simples indicadores de desempenho ou utilidade, lembrando que “o idoso não vale menos porque já não produz” e a pessoa com deficiência “não é um erro a corrigir”.

D. Rui Valério vincou a fronteira entre uma estrutura secular e a missão fundacional do setor solidário católico, frisando perante a plateia que “as Misericórdias não são apenas prestadoras de serviços sociais, são testemunhas institucionais da misericórdia de Deus”.

A necessidade de travar o que classificou como uma “atrofia da consciência” impõe uma resistência ativa das lideranças, insistindo o arcebispo no princípio de que “a economia, a técnica e as instituições devem estar ao serviço da pessoa, e nunca a pessoa ao serviço dos sistemas”.

O responsável católico instou as instituições a enfrentar as dificuldades financeiras, as exigências burocráticas e a escassez de trabalhadores sem medo do futuro.

“Coloquemos sempre o ser humano no centro das nossas escolhas. E aceitemos, com coragem e esperança, a missão de sermos guardiões e construtores de uma humanidade verdadeiramente magnífica”, concluiu.

OC

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