Inhambane: quando o amor se faz missão e a fé ganha rosto

Mafalda Moreira Alves e Rodrigo Moreira Alves

Escolhemos viver a nossa lua de mel de forma diferente. Partimos para Inhambane, em Moçambique, com o desejo de iniciar a nossa vida a dois colocando Deus e o próximo no centro. Não levámos respostas nem soluções, mas regressámos com histórias gravadas no coração e a certeza de que o amor verdadeiro se constrói na entrega.

Logo nos primeiros dias, as crianças tornaram-se o rosto mais forte desta missão. Vimos meninas ainda muito pequenas a carregarem os seus irmãos bebés às costas, com uma naturalidade comovente, assumindo responsabilidades que não deveriam pesar sobre ombros tão frágeis. Mesmo assim, corriam para nos cumprimentar, riam, brincavam e partilhavam tudo o que tinham: quase nada, mas oferecido com alegria total.

As casas onde muitas famílias vivem são palhotas frágeis, feitas de folhas de palmeira, sem divisões, sem camas e sem colchões. Visitámos famílias que nos recebiam com dignidade, convidando-nos a entrar como quem oferece um palácio, ensinando-nos que a pobreza material não anula a grandeza humana.

Quando o sol se põe, Inhambane mergulha na escuridão. Não há iluminação pública nem eletricidade em muitas zonas. Vimos pessoas a caminhar à noite, sem lanternas, sem luz, guiadas apenas pela memória dos caminhos e pela confiança nos seus próprios passos. Essa escuridão exterior contrastava com a luz interior de um povo que sabe onde pisa, mesmo quando tudo parece faltar.

Um dos momentos mais marcantes aconteceu durante a missa, quando entregámos terços à comunidade. O gesto simples transformou-se num momento avassalador. Todos queriam um terço. Aproximaram-se tantos fiéis, com mãos estendidas e olhos cheios de fé, que por momentos ficámos quase sufocados no meio da multidão. Não era apenas um objeto que pediam, era um sinal de pertença, de oração e de ligação a Deus. Ali percebemos a força de uma fé viva, que se agarra ao essencial.

A realidade dos cuidados de saúde revelou outra face dura da desigualdade. Nos postos de saúde, não há médicos. Tudo é assegurado por enfermeiras e técnicos, que fazem o impossível com recursos mínimos. A medicação é contada comprimido a comprimido, dose a dose, para que chegue a todos. Cada pessoa recebe apenas o estritamente necessário. Faltam medicamentos, faltam materiais, faltam profissionais, mas nunca falta dedicação. Aquelas mulheres e homens são verdadeiros instrumentos de cuidado e esperança.

A diferença entre ricos e pobres é gritante. A poucos quilómetros de comunidades sem água potável e sem condições básicas, existem casas muradas, carros novos e sinais evidentes de abundância. Este contraste permanente interpela e questiona profundamente, lembrando-nos de que a injustiça não é apenas falta de recursos, mas também desigualdade na sua distribuição.

Na educação, a escassez é igualmente evidente. As escolas têm apenas cadeiras para as crianças se sentarem; não há mesas, não há livros, não há materiais. Os alunos repetem tudo o que a professora lhes diz, para assimilarem os conhecimentos e escrevem apenas quando vão ao quadro, com um pequeno giz, mas com uma vontade de aprender que nos envergonha. Foi neste contexto que, graças à angariação de fundos feita antes da viagem, conseguimos reconstruir um infantário que se encontrava em condições muito degradadas. Cada parede erguida, cada melhoria feita, foi fruto da generosidade de muitos e tornou-se um sinal concreto de esperança para aquelas crianças.

Vivemos também a experiência da entrega de bens alimentares a famílias que vivem o dia a dia sem qualquer segurança alimentar. Um saco de arroz ou de farinha representava muito mais do que uma refeição: era um descanso, ainda que breve, da angústia de não saber o que comer no dia seguinte.

Regressamos com o coração transformado. Fomos em lua de mel, mas voltámos em missão permanente. Inhambane ensinou-nos que amar é servir, que a fé se vive no concreto e que Deus está presente nos lugares onde aparentemente tudo falta. Começámos a nossa vida matrimonial com esta certeza: aquilo que se dá com amor nunca se perde, multiplica-se.

Mafalda Moreira Alves e Rodrigo Moreira Alves

Nota: A Mafalda (enfermeira) e o Rodrigo (contabilista) casaram em setembro 2025. Em novembro 2025 fizeram a sua “lua de mel lua de mel missionária” em Inhambane.

Em Parceria com a Missão PRESS (mensalmente no dia 24) 

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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