Fração do Pão: a entrega que gera unidade

Pe. Tiago Torres, Diocese de Lamego

Agência ECCLESIA/LS

Ao aproximar-nos da grande festa do Corpo de Deus, proponho olhar para alguns elementos da espiritualidade eucarística – tesouro verdadeiramente inesgotável – a partir de alguns textos das Orações Eucarísticas (OE) e do gesto da fração do pão.

Esse gesto que deu nome à celebração nos tempos apostólicos (cf. IGMR 83) e que tão despercebido parece passar hoje, talvez, em parte, pela discrição simples que lhe é inerente. Discrição essa que não é, de todo, insignificante para a sua riqueza simbólica, capaz de nos conduzir ao centro mesmo do Mistério Eucarístico. O gesto da fracção do pão “significa que os fiéis, apesar de muitos, se tornam um só corpo, pela Comunhão do mesmo pão da vida que é Cristo, morto e ressuscitado pela salvação do mundo” (IGMR 83). Unidade e Paixão, Banquete e Sacrifício: duas dimensões do Mistério, reunidas no único gesto do Pão partido, distribuído, entregue por nós. No Pão único que se parte, para que todos os que dele participem se tornem um só, encontramos o memorial e a atualização da entrega do próprio Senhor, Corpo partido e entregue em favor da “humanidade dilacerada por divisões e discórdias” (Oração Eucarística da Reconciliação II)[1].

Mas, podemos perguntar, de que forma a comunhão no Corpo repartido de Cristo chega a gerar tal unidade? Não convivemos nós no seio da Igreja que, comungando desse Corpo, todos os dias sente a tensão da divisão e da discórdia? O dinamismo do Pão partido é verdadeiramente capaz de gerar unidade, quando gera naqueles que dele participam o dinamismo de uma vida partida, repartida, entregue – verdadeira comunhão na Vida partida, repartida, entregue do Senhor Crucificado e Ressuscitado.

Tão claro fica este dinamismo de entrega que, na liturgia hispânica de Quinta-feira Santa se pode chegar a perguntar “Por que nos admiramos de que, próximo já à morte voluntária, retirasse as vestes e cumprisse o ofício dos servos, quando sendo Deus se aniquilou a si mesmo?”[2]

Esta entrega implica-nos, o que se percebe não só no pedido pela unidade que atravessa todas as orações eucarísticas, mas pelo carácter oblativo dessa mesma unidade: “O Espírito Santo faça de nós uma oferenda permanente” (OE III), “Aceitai-nos também a nós, Pai santo, com a oblação do vosso Filho” (OE Reconciliação I), “a fim de vivermos não já para nós próprios mas para Ele, que por nós morreu e ressuscitou” (OE IV). Assim se compreende que a Igreja que comunga do Corpo partido do Senhor possa pedir para si mesma que “resplandeça como sinal profético de unidade e concórdia” (OE V/A), um sinal que se manifesta ao abrir “os olhos do nosso coração às necessidades e sofrimentos dos irmãos”, servindo-os de coração sincero (cf. OE V/A).

Uma espiritualidade eucarística permite ver que uma vida entoada com beleza é aquela que, comungando do Corpo único que se parte, assume em si mesma o dinamismo da oblação. Descobrindo no Pão partido da Vida do Senhor o único valor que permanece, por contraposição a tantos falsos valores que se quebram e nos quebram, aceita incorporar-se no Corpo Místico que continuamente é chamado a partir-se e repartir-se na entrega generosa de si mesmo. Também por isso, uma espiritualidade eucarística não renuncia a receber o testemunho de quantos encarnaram a fundo este movimento, particularmente da vida plenamente entregue e, portanto, imaculada da Virgem Maria, como eloquentemente expressa certa anáfora galicana: “Maria os criou entre carícias, dando-lhes terno pão como alimento; e nenhum de seus filhos morre a não ser que sinta fastio deste pão.”[3]

Afinal de contas, se sentirmos fastio do Pão partido da Vida entregue, o que nos resta?

 

Pe. Tiago Torres

[1] Doravante abreviaremos Oração Eucarística por OE.
[2] Sánchez Caro e Martín Pindado, La gran oración eucarística. Textos de ayer y de hoy (Salamanca: La Muralla, 1986), 354.
[3] Anáfora Mariana da liturgia galicana na Assunção de Santa Maria.

 

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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