Leão XIV deixa alertas em encontro com responsáveis políticos, evocando crise que afeta país africano

Iaundé, 15 abr 2026 (Ecclesia) – O Papa iniciou hoje a sua visita aos Camarões com um apelo ao fim da violência nas regiões em conflito, no país africano, e um alerta contra a corrupção que “desfigura a autoridade”.
“As tensões e a violência que afetaram algumas regiões do noroeste, do sudoeste e do extremo norte causaram grandes sofrimentos: vidas perdidas, famílias deslocadas, crianças privadas da escola, jovens que não vislumbram um futuro. Por trás das estatísticas, há rostos, histórias e esperanças feridas”, lamentou Leão XIV.
O primeiro discurso do pontífice no país, perante autoridades políticas, representantes da sociedade civil e o corpo diplomático, decorreu no Palácio Presidencial, em Iaundé, após um encontro privado com o chefe de Estado, Paul Biya.
O Papa rejeitou recurso à violência para superar os conflitos e defendeu uma paz “desarmada”, baseada no amor e na justiça, advertindo as elites governantes para as suas responsabilidades éticas.
“Para que a paz e a justiça se afirmem, é necessário quebrar as correntes da corrupção, que desfiguram a autoridade, esvaziando-a de legitimidade. É necessário libertar o coração daquela sede de lucro que é idolatria”, indicou o Papa.
O presidente dos Camarões, Paul Biya, no poder desde 1982, foi reeleito em 2025 para um oitavo mandato.
Leão XIV sustentou que governar significa “ouvir realmente os cidadãos” e valorizou o papel da sociedade civil, das organizações juvenis aos líderes tradicionais, na pacificação social e na mediação local.
“Gostaria de sublinhar com gratidão o papel das mulheres. Muitas vezes, infelizmente, elas são as primeiras vítimas de preconceitos e violências, e, no entanto, continuam a ser incansáveis artífices da paz”, acrescentou.

Na intervenção inaugural desta visita, Leão XIV apelou à transparência na gestão dos recursos públicos e instou os governantes a um “exame de consciência” para restabelecer a confiança popular nas instituições.
Os Camarões enfrentam uma crise nas suas províncias anglófonas, onde grupos separatistas combatem as forças governamentais, num conflito que agravou as deslocações forçadas e a insegurança na região da bacia do Lago Chade.
“A segurança é uma prioridade, mas deve ser sempre exercida no respeito pelos direitos humanos, aliando rigor e magnanimidade, com especial atenção aos mais vulneráveis”, observou Leão XIV.
A intervenção destacou a variedade territórios, culturas, línguas e tradições, nos Camarões.
Esta variedade não é uma fragilidade: é um tesouro. Constitui uma promessa de fraternidade e um sólido fundamento para a construção de uma paz duradoura.”

O Papa manifestou ainda preocupação com a emigração jovem, falando numa “hemorragia de talentos maravilhosos para outras regiões do planeta”, e os perigos da exclusão social.
“É o único modo de combater os flagelos da droga, da prostituição e da apatia, que devastam demasiadas vidas jovens, de forma cada vez mais dramática”, advertiu.
Na sua saudação, Paul Biya falou de um contexto internacional “complexo” e disse que a visita do Papa é um sinal de “esperança”.
O chefe de Estado elogiou a tolerância religiosa no país africano, elogiando o “contributo precioso” da Igreja Católica, num país onde esta comunidade representa 29% da população.
O programa de hoje prossegue com uma deslocação ao Orfanato Ngul Zamba, antes de um encontro com os bispos católicos do país.
Esta quinta-feira, o pontífice visita Bamenda, no noroeste, uma região anglófona devastada desde 2013 pelos conflitos no país, que provocaram milhares de mortos e quase 500 mil deslocados internos.
As facões separatistas que atuam nas regiões anglófonas anunciaram, esta terça-feira, um cessar-fogo temporário por ocasião da visita do Papa.
Leão XIV é o terceiro Papa a visitar os Camarões, onde São João Paulo II esteve em 1985 e Bento XVI em 2009.
OC
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