Camarões: Papa defende crianças vulneráveis em visita a orfanato e apela à erradicação da «indiferença»

«Onde quer que haja miséria, sofrimento ou injustiça, Deus está presente» – Leão XIV

Foto: Vatican Media

Iaundé, 15 abr 2026 (Ecclesia) – O Papa visitou hoje um orfanato na capital dos Camarões, apelando ao compromisso coletivo no apoio a crianças marcadas por histórias de “abandono e privação”.

“Num mundo frequentemente marcado pela indiferença e pelo egoísmo, esta casa recorda-nos que somos todos guardiões dos nossos irmãos e irmãs e que, na grande família de Deus, ninguém é jamais um estrangeiro ou um esquecido, por menor que seja”, afirmou Leão XIV, no segundo compromisso da sua agenda nos Camarões, onde chegou esta tarde, vindo da Argélia.

A instituição, que celebra 100 anos de existência sob a alçada da Congregação das Filhas de Maria de Iaundé, acolhe crianças carenciadas e oriundas de meios desestruturados.

“Onde quer que haja miséria, sofrimento ou injustiça, Deus está presente e conhece os vossos rostos, está muito próximo de vós”, destacou Leão XIV, que leu o seu discurso em francês.

O Papa foi recebido pela superiora geral da congregação e dirigiu-se às crianças e funcionários do orfanato ‘Ngul Zamba’, ou seja, ‘A Força de Deus’.

Leão XIV reconheceu a realidade dura enfrentada pelos residentes do espaço, encorajando-os a superar as feridas do passado.

“Queridas crianças, sei que muitos de vós passastes por difíceis provações. Alguns conhecestes a dor da ausência através da perda dos pais ou de entes queridos. Outros experimentastes o medo, a rejeição, o abandono, a privação, a incerteza. Vós sois chamados a um futuro maior do que as vossas feridas”, apontou.

O pontífice destacou ainda a bondade especial que Jesus dirigia às crianças, colocando-as no centro, e afirmou que, hoje, “Ele olha para cada uma com o mesmo carinho”.

O encontro contou com o testemunho de antigos residentes, como Panthaléon Patrice Etogo, que conseguiu concluir o ensino universitário graças ao apoio das religiosos e regressou à instituição como professor.

“Sinto que tenho o dever de transmitir aos outros o que a Providência me concedeu. É uma forma de reconhecimento à instituição, participando na sua continuidade e florescimento”, partilhou o docente.

O Papa agradeceu o esforço de toda a equipa de colaboradores, sublinhando que a dedicação exigida ultrapassa o mero amparo material: “Ofereceis a estas crianças uma presença, uma escuta, uma família, um futuro.”

Foto: Vatican Media

Três crianças também intervieram de forma conjunta durante a receção, afirmando: “Nós somos filhos de Deus. Não somos órfãos”.

A superiora geral da congregação salientou que a instituição acolhe também crianças de bairros de maioria muçulmana e que muitos dos antigos residentes regressam para apoiar os mais novos, provando que “os pobres podem ajudar os pobres”.

Após a oração final e a bênção, Leão XIV prosseguiu a sua agenda, dirigindo-se para a sede da Conferência Episcopal Nacional dos Camarões para um encontro reservado com os bispos do país.

Os católicos são 28,9% da população dos Camarões (cerca de 29 milhões de pessoas), distribuídos por 26 dioceses.

Na quinta-feira, Leão XIV desloca-se a Bamenda, no noroeste do país, território marcado pela designada “crise anglófona” e pelo violento conflito entre forças governamentais e grupos separatistas, que já provocou milhares de mortos e mais de um milhão de deslocados.

A viagem apostólica a África, iniciada esta segunda-feira na Argélia, contempla ainda passagens por Angola e pela Guiné Equatorial até ao próximo dia 23 de abril.

OC

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