Tecnologia: Psiquiatra Vítor Cotovio alerta para «ecranização das relações» que dificulta «capacidade de empatizar»

Psicoterapeuta participa no XV Congresso de Psiquiatria S. João de Deus, em Lisboa, que regista adesão de cerca de 250 pessoas

Foto: Agência ECCLESIA/LJ

Lisboa, 16 abr 2026 (Ecclesia) – O psiquiatra Vítor Cotovio alertou esta quarta-feira para a mediação das relações através de ecrãs, que coloca em causa o desenvolvimento da empatia.

“A ecranização das relações dificulta aquilo que é capacidade de empatizar”, afirmou à Agência ECCLESIA o também psicoterapeuta, que participa no XV Congresso de Psiquiatria São João de Deus, que decorre entre 15 e 17 de abril no Centro Ismaili, em Lisboa.

Organizada pelo Instituto das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus e o Instituto São João de Deus, a iniciativa reúne cerca de 250 participantes e centra-se no tema “Saúde Mental e Pós-Modernidade: O Analógico e o Digital”.

A propósito do encontro, o diretor clínico da Casa de Saúde do Telhal aponta que se vive um tempo de 5V’s – “muito volume, muita velocidade, muita voracidade, muita volatilidade e muita vacuidade” – advertindo que o último deles pode ser o “vazio existencial”.

“Nós precisamos daquilo que é o real, porque se não temos o real, e se é o ecrã a mediar as relações, se isto não é salvaguardado, a minha capacidade de empatizar fica alterada”, reforçou.

O psiquiatra indicou o exemplo dos jogos de computador violentos, em que os utilizadores são indiferentes à dor do outro.

“Nós temos neurónios espelho e os neurónios de espelho espelham precisamente aquilo que é a inquietação, o sofrimento do outro, mas para os neurónios espelho serem ativados, eu preciso da relação real e não só da relação virtual e preciso de algum tempo e algum espaço para pensar sentir, para elaborar aquilo que sinto”, referiu.

Contudo, Vítor Cotovio lembra a importância das tecnologias digitais, nomeadamente no que respeita aos cuidados de saúde.

“Não se deve diabolizar as tecnologias ou as redes sociais, mas também não se deve endeusar”, frisou.

O diretor clínico do Instituto São João de Deus defende que é “muito importante que as ferramentas existam para servir as pessoas” e não para os seres humanos ficarem reféns delas.

“A inteligência artificial é fundamental, mas a inteligência artificial não tem emoções”, ao contrário da relação terapêutica, disse.

“Isso é algo que nós temos de salvaguardar sempre”, realçou Vítor Cotovio.

O programa do XV Congresso da Psiquiatria São João de Deus aborda temas como a inteligência artificial aplicada à psiquiatria, a ética digital, os novos padrões de sofrimento psíquico e a humanização da prática clínica em contextos cada vez mais mediados pela tecnologia.

Foto: Agência ECCLESIA/LJ, Irmã Paula Carneiro

A superiora provincial das Irmãs Hospitaleiras em Portugal, irmã Paula Carneiro, refere que estes dias de reflexão são uma ocasião para partilhar saberes e receber “novas abordagens”, acreditando que profissionais de instituições participantes vão levar dali “novas ideias”.

“O enfoque maior neste momento é conseguirmos apresentar dados e investigação científica que possa comprovar que o que fazemos aliado à inteligência artificial potencia a recuperação e a sanação da pessoa. Que passa não de uma intervenção apenas tecnológica, mas passa sobretudo por uma relação e por uma confiança”, expressou.

Da comissão científica do congresso, Alexandre Mendes assinala que a IA “traz muitas vantagens nos cuidados” de saúde mental, “mas também traz alguns limites e alguns riscos” e que este encontro é uma oportunidade para refletir sobre todos eles.

“Só faz sentido preparar congressos e passarmos aqui este tempo de reflexão conjunta, se depois, na prática do dia a dia, nos cuidados que prestamos, as pessoas assistidas beneficiarem com aquilo que foi a reflexão e não só a reflexão, também a partilha de experiências de diversas casas, de diversos técnicos”, mencionou.

O encontro reúne até sexta-feira profissionais de diferentes áreas – médicos, psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, investigadores, gestores e decisores.

LJ/OC

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