Paulo Rocha, Agência Ecclesia

A publicação deste texto tem apenas uma finalidade: destacar a grandeza de ideias, mensagens e propostas que o Papa Francisco escreve na Mensagem para o Dia Mundial dos Pobres. E o melhor que pode acontecer a quem tenha começado a passar os olhos por estas linhas é ficar por aqui e passar a outro texto: começar a ler devagar, muito devagar, o documento que o Papa publicou no Dia de Santo António (de Lisboa, na versão portuguesa, e de Pádua em todas as outras, incluindo a árabe), a Mensagem para o III Dia Mundial dos Pobres.

Seguiu para este parágrafo, o segundo deste texto? Partilho, então, nos que se seguem, marcas de uma Mensagem que interessa ter por perto não num dia, mas todos os dias. Como os pobres.

“Os pobres não são números, que invocamos para nos vangloriar de obras e projetos. Os pobres são pessoas a quem devemos encontrar: são jovens e idosos sozinhos que se hão de convidar a entrar em casa para partilhar a refeição; homens, mulheres e crianças que esperam uma palavra amiga”.

É assim que o Papa assume o problema e é dessa forma que se dirige a quem cuida dos pobres. Mas quem são eles? São as “famílias obrigadas a deixar a sua terra à procura de formas de subsistência noutro lugar; órfãos que perderam os pais ou foram violentamente separados deles para uma exploração brutal; jovens em busca duma realização profissional, cujo acesso lhes é impedido por míopes políticas económicas; vítimas de tantas formas de violência, desde a prostituição à droga, e humilhadas no seu íntimo”. As marcas da pobreza são assim identificadas pelo Papa Francisco que não esquece também “os milhões de migrantes vítimas de tantos interesses ocultos, muitas vezes instrumentalizados para uso político, a quem se nega a solidariedade e a igualdade” nem “tantas pessoas sem abrigo e marginalizadas que vagueiam pelas estradas das nossas cidades.

Em todo o texto do Papa, li e reli esta afirmação: “Aos pobres, frequentemente considerados parasitas da sociedade, não se lhes perdoa sequer a sua pobreza”. Eis o grande estigma: a condenação da pobreza, dos pobres, “ameaçadores ou incapazes”.

“Tendo-se tornado, eles próprios, parte duma lixeira humana, são tratados como lixo, sem que isto provoque qualquer sentido de culpa em quantos são cúmplices deste escândalo”.

O documento do Papa para o Dia Mundial do Pobre, que este ano se assinala a 17 de novembro, tem na sua estrutura uma ideia que é determinante para o combate à pobreza: mais do que distribuir o que sobra a quem muito tem, é urgente apropriar-se apenas do necessário.

Enquanto se distribuírem sobras, os pobres continuarão nas lixeiras à procura do descarte e do supérfluo: “drama dentro do drama, não lhes é consentido ver o fim do túnel da miséria”.

O que fazer?

“Exorto-vos a procurar, em cada pobre que encontrais, aquilo de que ele tem verdadeiramente necessidade; a não vos deter na primeira necessidade material, mas a descobrir a bondade que se esconde no seu coração, tornando-vos atentos à sua cultura e modos de se exprimir, para poderdes iniciar um verdadeiro diálogo fraterno”.

É a proposta do Papa, dirigida sobretudo à comunidade crente, porque “a promoção, mesmo social, dos pobres não é um compromisso extrínseco ao anúncio do Evangelho; pelo contrário, manifesta o realismo da fé cristã e a sua validade histórica”.

“Os pobres precisam das nossas mãos para se reerguer, dos nossos corações para sentir de novo o calor do afeto, da nossa presença para superar a solidão”.

Urgências nas palavras do Papa, não por uma motivação só religiosa, mas porque “a condição de marginalização, em que vivem desanimadas milhões de pessoas, não poderá durar por muito tempo. O seu clamor aumenta e abraça a terra inteira”.

“Que este Dia Mundial possa reforçar em muitos a vontade de colaborar concretamente para que ninguém se sinta privado da proximidade e da solidariedade”. Todos os dias.

Paulo Rocha

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