«Amoris Laetitia»: «Nem sempre a hospitalidade acontece sem rótulo e na atitude mais gratuita, mais evangélica» – D. José Cordeiro

Numa altura em que no Vaticano se avalia a aplicação prática da exortação “Amoris Laetitia”, o arcebispo de Braga reprova a política de apoio às famílias em Portugal

Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

Foto: Departamento Arquidiocesano da Comunicação Social

Decorre no Vaticano, até dia 14, um encontro que foi convocado por Leão XIV para debater a aplicação da “Amoris Laetitia”, dez anos após a publicação. Naturalmente, os bispos portugueses discutiram a realidade nacional na preparação para esta cimeira. Quais são as urgências maiores que é possível identificar nesta realidade familiar no nosso país?

Sim, de facto, essa reflexão está a acontecer no Vaticano e o nosso presidente, D. Virgílio, representa a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) neste encontro de presidentes das Conferências Episcopais, dez anos depois da “Amoris Laetitia”, a “Alegria do Amor”, que propõe e propôs e continua a propor à Igreja, sobretudo, quatro pontos mais urgentes no que diz respeito ao matrimónio: a preparação para o matrimónio, o acompanhamento dos casais jovens, o apoio à família na transmissão da fé e a maior integração eclesial dos divorciados a viver em nova união.

E isto está a acontecer e esperamos que aconteça cada vez mais e melhor na Igreja e, de modo especial, nas nossas dioceses em Portugal.

 

Em 2018, quando era bispo do Bragança-Miranda, publicou uma nota pastoral para a integração de divorciados a viver em nova união. Nessa altura, em Braga, onde é hoje arcebispo, foi criado um centro de escuta com o mesmo objetivo, com o mesmo fim. Como é que olha para o caminho feito, particularmente na aplicação do capítulo oitavo da ‘Amoris Laetitia’? Que balanço faz deste caminho de discernimento?

Muito positivo. O processo foi iniciado e continua em curso. Acompanhar, discernir, integrar a fragilidade é um caminho de escuta, de paciência de ambas as partes, mas que está a dar os seus frutos. De facto, na altura, estava a servir diretamente Bragança-Miranda. Neste momento estou a servir Braga, e Braga apresentou também uma carta pastoral sobre esse tema, o construir a casa sobre a rocha.

Nesse tal processo de acompanhamento, discernimento e integração das pessoas divorciadas em nova união civil, vários casais foram acompanhados e, neste momento, estão a ser acompanhados sete casais em processo de discernimento pela equipa arquidiocesana, mas também com a colaboração dos padres jesuítas, que estão presentes aqui na arquidiocese, neste momento, em três casas. Também eles orientam processos de discernimento de casais, entre aspas, recasados, tendo acompanhado seis casais em segundas núpcias nos últimos dois anos.

 

Estava a perguntar-lhe se as comunidades católicas já aprenderam a não catalogar as famílias entre regulares e irregulares?

Seria bom que sim, o criar comunidade leva a isso, mas é um processo não fácil, exige muita conversão pessoal, pastoral, missionária, para que exatamente não aconteça o que estás a dizer da catalogação das pessoas, porque todos têm que ser acolhidos. É, provavelmente, mais fácil em centros maiores e, por isso, também têm essa possibilidade de escolher onde são acompanhados, porque nem sempre, no seio das suas comunidades paroquiais, essa hospitalidade acontece sem rótulo e na atitude mais gratuita, mais evangélica.

 

É de alguma forma uma forma de resistência, ainda?

Sim, creio que sim, mas também com muitos, muitos sinais positivos, graças a Deus, não só nas paróquias, mas também a nível de vários movimentos laicais. Existem esses grupos para casais em novas núpcias e, felizmente, além daquilo que disse e concretamente aqui na Arquidiocese de Braga, para além do acompanhamento que a equipa arquidiocesana faz, dos padres jesuítas, também outros movimentos como o Caminho Neocatecumenal, como os Focolares, em retiros, encontros de formação, grupos de oração, igualmente também o Opus Dei, o Renovamento Carismático, a Comunidade Shalom, o movimento apostólico Schoenstatt.

E sabemos também que, não possuindo grupos com casais recasados, as equipas de Nossa Senhora empenham-se no acolhimento destes casais e no seu encaminhamento para uma resposta pastoral adequada. E é com muita alegria e com muita gratidão que temos várias situações em caminho, e num caminho consciente, comprometido e o possível, porque de facto é isso, como dizia o Papa Francisco: acolher a todos, todos, todos, mas, depois, quem entra também se consciencializa das regras próprias da vida no interior da Igreja. Tudo isso é a manifestação dessa alegria do amor no matrimónio e na família cristã e as próprias comunidades deviam ser esta tal família de famílias.

 

Aquando da publicação da “Amoris Laetitia”, a questão dos divorciados em segunda união foi a questão dominante, mas trata-se de um documento amplo sobre a pastoral familiar. Para quem nos está a ouvir e não se recorda tanto, o encontro que está a decorrer no Vaticano acontece num clima de crise económica, de precariedade laboral, de problemas de habitação, que são grandes entraves à família e enfraquecem muito nos jovens a confiança no casamento. Pergunto como é que a pastoral da Igreja é capaz de dar a esperança e acompanhar quem hesita em dar este passo por falta de condições materiais?

Essa é a realidade e a realidade é superior à ideia que nós tínhamos também sobre o matrimónio e a família.

 

Como dizia Francisco….

Exatamente. E essas situações tão concretas como a que acaba de enumerar traduzem esta mesma realidade do quotidiano das famílias, porque limita o sonho da abertura à vida, da própria qualidade de vida, até da questão vocacional na igreja, porque está tudo interligado e mesmo as políticas de habitação, do trabalho, não são amigas da família. Nós vemos na maior parte das cidades que as construções na sua maioria são de T0, ou de T1, e, portanto não estão a pensar sequer numa possibilidade mais alargada da família.

Claro que com toda a complexidade do tempo que nos toca viver, mas era necessário, à semelhança do que estão a fazer outros países mais desenvolvidos, e nos quais não está presente tanto o alinhamento da doutrina social da igreja, que têm políticas mais amigas da família do que, por exemplo, nós em Portugal. Acredito que, neste momento, também as avaliações que de todo o mundo chegam a propósito destes 10 anos da “Amoris Laetitia” têm isto muito presente, porque é a realidade que nos toca viver hoje.

 

Seria importante também os bispos portugueses sublinharem cada vez mais perante a sociedade e perante o Estado essa necessidade de se apoiar cada vez mais a família e sensibilizar o Estado também a ser amigo da família?

Sim, sim, e nós não perdemos a ocasião disso mesmo. E, de um modo especial, esta encíclica do Papa Leão XIV, a sua primeira, a “Magnifica Humanitas”, Magnífica Humanidade, sem tratar expressamente da família, trata do desenvolvimento integral e integrado da doutrina social da igreja neste tempo dos desafios tão grandes, como da Inteligência Artificial (IA) e destas problemáticas que estamos aqui também a referir, que importa conjugar e todos somos poucos para que esse ambiente seja mais centrado na humanidade, na pessoa humana, na dignidade do amor, da família, do matrimónio, dos valores essenciais para a construção da paz, como o trabalho, como a dignidade da pessoa humana desde a sua conceção até à sua morte natural.

 

E 10 anos após a “Amoris Laetitia”, as famílias já deixaram de ser vistas apenas como destinatárias da ação pastoral para se assumirem também como sujeitos da missão?

Seria bom que sim e a Igreja tem de continuar a viver como tal: a experimentar cada vez mais a família e sentir que é uma comunidade de comunidades e, repito, uma família de famílias, não a orientar-se para a família, mas com a família e, na medida do possível, na vida das comunidades, seja para o mais elementar de um conselho para os assuntos económicos, o conselho pastoral, para os vários ministérios da catequese, da liturgia, da caridade e contar com o casal, contar com a família e que a família seja o sujeito da evangelização, o sujeito da vida da Igreja.

A família e os jovens são como que duas prioridades que têm que acompanhar constantemente a ação e a vida da Igreja, sob pena de deixar de ser aquilo que é chamado a ser, casa. Fazer casa é a missão da igreja.

 

Falava há pouco da questão da família e das famílias, que a igreja é chamada a ser, e teve a oportunidade de alertar numa intervenção pública para o facto que cada vez mais crianças e jovens precisarem de apoio psicológico. Falou também da necessidade de se preparar os filhos para as dificuldades da vida. As paróquias têm a atenção suficiente? E também a necessidade de amparar os pais que se sentem isolados e esgotados na educação dos filhos?

Esse é também um enorme desafio e, podemos dizer, uma prioridade pastoral na continuidade do que estava a dizer, porque mesmo no projeto que a Conferência Episcopal apresenta para a Catequese se tem em conta o ambiente familiar, porque, na linha daquilo que também estava a referir, eu creio que o maior problema na Igreja hoje nem são as crianças, nem os jovens, os adolescentes, mas é a falta de adultos na fé.

A Igreja tem de apostar cada vez mais e investir na formação de adultos na fé e, por isso, a Iniciação Cristã é hoje o grande, grande desafio, como está acontecendo noutros países da Europa e em Portugal também. Mesmo aqui na catolicíssima Braga, isso sente-se e tem de ser um acompanhamento harmonioso, que não é fácil. Alguns movimentos e grupos conseguem fazê-lo, mas nós ainda não estamos a conseguir ao ritmo, por exemplo, da transmissão da fé na Catequese. Ainda temos muito esses limites do preparar a primeira comunhão, do preparar para o Crisma, mas temos de mudar o paradigma de formar adultos na fé, formar comunidade, formar casa, no sentido de dar forma de Cristo, dar a luz do Evangelho ao nosso quotidiano, à nossa vida, ao ambiente de trabalho, ao ambiente da família. Ou seja, precisamos de sentirmo-nos a viver nessa casa onde habita Deus.

 

O Papa Francisco consagrou na “Amoris Laetitia” as três palavras que repetiu sempre como chave para a vida familiar: “obrigado”, “com licença” e “desculpa”. Acha que a crise da família hoje é, antes de mais, uma crise relacional e de falta de hospitalidade dentro da própria casa?

Também é. Essas três palavras eu recordo-as constantemente nos encontros com casais, com famílias e também quando tenho a graça de assistir a alguns matrimónios, porque é essa gramática do coração da casa, do respeito pelo outro como terra sagrada e do valorizar as relações, como também pede o Papa Leão XIV na “Magnifica Humanitas”, que é muito importante no cultivar das relações e isso deve começar por casa.

É surpreendente também o número, a estatística do que conhecemos em relação à violência doméstica, à violência no namoro, a crise e a dificuldade na relação dos pais com os filhos, dos filhos com os pais e com os avós e com a família mais alargada. Temos de ser sensíveis a tudo isso e não ter medo de todos os dias e muitas vezes pronunciarmos essas palavras ou outras, mas que traduzam essas atitudes da gratidão, do perdão, da reconciliação, do respeito.

Lembro este último livro que publicou o filósofo coreano Byung-Chul Han, que vive na Alemanha, “Sem respeito”. É que estamos a viver um tempo dessa falta de respeito no quotidiano das nossas relações. Só com relações virtuais, ou de faz de conta em ambientes mais íntimos como é a família, é difícil que possamos a viver na harmonia das diferenças e construir a paz.

 

Falava há pouco sobre os apelos que é preciso fazer ao Estado, sobretudo a necessidade de materializar a centralidade da família, o apoio à natalidade. Insisto para lhe perguntar que apelo é que é preciso deixar, sobretudo para proteger a família neste contexto de rápidas transformações sociais que vivemos e de envelhecimento demográfico no país?

A família é a célula da sociedade e não por acaso também o Concílio Vaticano II a designou como Igreja doméstica. É essencial porque a família é a vida, é o santuário mais íntimo da vida e se a família não vive essa harmonia, com todas as condições que se requer da educação, da saúde, da habitação, do trabalho, não é possível viver num mundo mais humano, mais fraterno, mais belo.

 

Eu aqui também queria insistir na questão da crise de natalidade, porque todas essas condições também limitam muito o desejo que muitas famílias têm de ter mais filhos…

É verdade, é verdade. Nós estamos a viver um inverno demográfico e é sentido em todos os lados, mas de um modo especial no interior, junto de quem está mais longe do mar e dos grandes centros, porque hoje há também essa fuga para os grandes centros. Mas tudo isso é muito sentido depois na coesão territorial, na coesão social e na necessidade de mais vida para que a família tenha também esse lugar primordial e singular na construção de uma sociedade mais justa e no desenvolvimento da paz. Provavelmente não são só as condições materiais que estão subjacentes ao déficit da natalidade. É preciso que as famílias se abram mais ao dom da vida, mas para isso é preciso criar mais confiança, para criar mais condições, porque aquilo que eu ouço aos casais novos, aos mais novos, é o medo de encarar o futuro, é a problemática toda que vivemos na complexidade desta aldeia global, no mundo em que nos toca viver, que faz temer e arriscar pela vida, pela educação, pelo crescimento das nossas comunidades.

 

Hoje é um dia de festa na arquidiocese, com a inauguração do Santuário Eucarístico Alexandrina de Balasar, esta tarde. Enquanto arcebispo de Braga, que valor pastoral atribui a este novo Santuário?

É imenso. A mensagem da Beata Alexandrina, que já está inscrita há muito no coração do povo como santa, mas a quem ainda falta alguns passos para a sua canonização, é muito clara. Agora, na materialização deste Santuário Eucarístico, que na sua arquitetura e nas artes subjacentes aparece como uma tenda grande, que acolhe 1800 pessoas sentadas, tem a centralidade de Cristo, a centralidade do Altar, do qual nasce uma cruz que até perfura o teto e vai em direção ao céu, e na continuidade da adoração.

Aparece aqui também a centralidade da celebração e da adoração como uma prioridade pastoral e que já está a acontecer, nomeadamente, na Arquidiocese de Braga e sei que em muitos outros lugares. Este dia da dedicação da igreja e do Altar deste Santuário Eucarístico é para ser também uma porta aberta para quem chegar a Balasar.

A ideia é que possa encontrar ali sempre alguém que o escute e estamos a trabalhar para que este Santuário possa cumprir a sua missão. Ou seja, quando alguém o visitar possa regressar à sua vida mais disponível para cuidar dos outros e dessa forma também sentir o essencial do peregrino. A vida e a mensagem desta mulher leiga admirável é uma mística dos nossos tempos. A Alexandrina de Balasar é assim como que uma lamparina da tenda ou do tabernáculo para nos chamar ao essencial, o mesmo é dizer, à prioridade do Evangelho da vida e da esperança.

 

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