Lisboa: Patriarca avisa que comunicação fechada gera divisões

D. Rui Valério deixa alertas em Jornada de Estudo e Reflexão sobre a Missão

Foto: Diogo Paiva Brandão/Patriarcado de Lisboa

Lisboa, 11 out 2026 (Ecclesia) – O patriarca de Lisboa alertou este sábado que a comunicação fechada gera divisões nas comunidades católicas, falando na abertura da Jornada de Estudo e Reflexão sobre a Missão.

“Antes de perguntar por que razão os outros já não escutam a mensagem cristã, pergunto: que espécie de ouvintes nos tornámos nós?”, interpelou D. Rui Valério, num encontro que decorreu no auditório da Igreja de São João de Deus.

A conferência ‘Os desafios da missão: anunciar Cristo num tempo que desaprendeu a escutar’ mobilizou mais de cem agentes pastorais e centrou-se na comunicação contemporânea.

“Vivemos numa época de extraordinária comunicação e, paradoxalmente, podemos tornar-nos cada vez menos capazes de alteridade”, diagnosticou o patriarca, lamentando que grande parte da sociedade procure apenas conteúdos que confirmem passivamente as suas crenças e preferências.

O responsável católico denunciou o risco de esta mesma falha de escuta recíproca estar enraizada na Igreja, prejudicando a abertura das comunidades locais.

“Também dentro da Igreja podemos escutar apenas aquilo que confirma as nossas opções”, reconheceu, numa intervenção divulgada pelo Patriarcado de Lisboa.

D. Rui Valério advertiu ainda para a obsessão pelos resultados quantificáveis e pela excessiva visibilidade que afeta a estrutura das dioceses.

“Uma comunidade pode comunicar muitíssimo e gerar muito pouco”, referiu, na conferência coorganizada pelo Serviço de Animação Missionária e pelo Instituto Diocesano da Formação Cristã.

O patriarca defendeu que o diálogo autêntico procura simplesmente acompanhar sem exercer domínio sobre as crenças dos outros.

“A credibilidade do Cristianismo é muito mais que uma coerência lógica: é uma coerência de vida e de comunidade”, disse, lembrando que a evangelização exige a criação diária de laços autênticos e prolongados.

A atitude certa do evangelizador passa por “não manipular essa abertura, não aproveitar a fragilidade, não transformar a confiança em ocasião de poder religioso”, referiu ainda.

O patriarca destacou que o sucesso pastoral de uma paróquia não depende de estruturas, sublinhando que a qualidade afetiva das relações é a única unidade de medida válida.

“O missionário pode falar ao ouvido, mas só Deus pode abrir o coração”, sintetizou.

O padre David Palatino, diretor do Instituto Diocesano da Formação Cristã, assinalou na abertura dos trabalhos a coincidência da Semana das Missões com o décimo aniversário do Sínodo Diocesano de 2016.

“Estamos, passados dez anos, talvez menos sonhadores e mais realistas, mas também otimistas de que este sonho pode ser, de facto, possível”, considerou o sacerdote.

OC

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