No dia seguinte à tomada de posse, D. Vitorino Soares, bispo do Algarve, é o convidado da Renascença e da Agência Ecclesia

Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)
Após a sua nomeação, em mensagem enviada aos diocesanos, referiu que já se sentia algarvio e disse que a diocese sempre se destacou pela pluralidade e pela comunhão. Dois meses depois dessa breve mensagem e neste momento de chegada, que novos sentimentos o invadem?
Já me sinto algarvio a um nível mais superior, não por ser mais alto, mas por ter algum conhecimento maior, quer do espaço geográfico, quer das instituições, das pessoas, e por isso, se na altura já tinha assim um cheirinho algarvio, hoje já tenho um cheirinho mais intenso e mais profundo.
Ainda tem de ganhar algum sotaque….
Sim, e tenho de apanhar um bocadinho mais de sol também. Vou adaptar-me, vou tentar adaptar-me. Depois também em relação a essa pluralidade, pois também comecei a fazer consultas e naturalmente também desses contactos que tive com D. Manuel Quintas (bispo emérito do Algarve), apercebi-me também dessa nota e sobretudo dessa possibilidade que é de facto uma grande oportunidade que é oferecida. Essa pluralidade acaba também por ir além muitas vezes daquilo que são os esboços que fazemos, os desenhos, os planos, e, portanto, é uma boa tarefa para me poder abrir também a essa pluralidade onde estão de facto componentes muito diversas e diferentes mas que acabam por enriquecer.
A Diocese do algarve é grande, territorialmente…
Parece que são 5 mil quilómetros quadrados. É verdade. Já estive a medir com a fita.
Estava a dizer que já teve a oportunidade de se inteirar um pouco mais a fundo da realidade, também dessa diversidade de pessoas, e também dessa diversidade quanto à origem geográfica. Tem já algumas prioridades alinhavadas para este início de trabalho de missão episcopal?
A minha grande prioridade vai ser a sequência disto que foi a minha pré-época agora, há 15 dias, que é conhecer de facto, e para conhecer é preciso estar, é preciso ouvir e é preciso esse contacto pessoal. Esta é a primeira fase, depois daí surgirão naturalmente os planos. Não vou fazer planos sem conhecer a realidade e esta é a grande prioridade, conhecer para depois então poder atuar com as pessoas naturalmente, envolvendo também e permitindo que outros possam participar e sobretudo me possam ajudar a fazer luz para que em comum nós possamos então também fazer este caminho da Igreja nesta diocese do Algarve.
E esse conhecimento passa também pelo contacto com as populações mais isoladas, sobretudo na Serra Algarvia? Será também uma prioridade?
Eu tenho um propósito, eu não sei se eu o devia revelar porque também nem sequer falei com o Clero. Este é um sonho que eu tenho, que agora vou dialogar com o Clero, e que era de facto passar pelas paróquias todas. Eu não acho que isso seja um plano, mas esta era uma proposta de estar com os párocos, de estar com as paróquias, com as comunidades, seja no litoral, seja no interior, sejam paróquias mais ricas, mais pobres, mais populosas, mais envelhecidas ou mais isoladas. Não traduzia isso como um plano, mas como um sonho que eu levo dentro de mim e que vamos ver se consigo fazer nestes primeiros tempos. E celebrar Eucaristia ao fim de semana em comunidade, acho que vai ser compatível e, portanto, essa vai ser a minha forma de estar e é por aí que vou começar.
Voltando ao facto de ser uma diocese muito diversa, em que há uma população muito heterogênea e que aumenta também nesta altura do verão; imagino que do ponto de vista pastoral seja um desafio interessante?
Pois, eu suponho que o desafio vai ser interessante durante as 52 semanas do ano, mas haverá ali umas 8 semanas, acredito, sei lá, entre o 15 de julho e o 15 de setembro, mais intensas, onde os destinatários acabam por ser outros. Acredito, que há ali grandes mediadores, que serão naturalmente os párocos e comunidades, que me ajudarão também a aproximar dessa realidade. Às vezes aqui no Porto, já tinha um bocadinho essa sensação de que parece que estamos estranhos, não estamos na nossa terra, não ouvimos a nossa língua… e assim o primeiro impacto é um pouquinho estranho, mas é essa a realidade e é aí também que temos de entrar: E espero que com a colaboração daqueles que já conhecem exatamente esses momentos intensos e altos de presença no Algarve, eu também possa integrar e possa também acompanhar e ser uma ajuda nessas situações. Vou ter de desenvolver um bocadinho o meu inglês…
E vai apostar nas Eucaristias em inglês?
Também, sim, acho que sim, acho que havendo destinatários, acho que também temos de nos adaptar às pessoas que ali estão e tenho também de afinar o meu exercício de natação. Com tanta água tenho que também ter cuidado, porque nem sempre as águas são serenas e por isso é preciso estar apto e preparado para tudo.
Há muita praia…
Sim, porque na prática era isso que eu conhecia e com certeza é isso que também está na mente de muitos portugueses. Acredito que há muita gente ali a trabalhar, mas com certeza o maior conhecimento que temos é da praia, é aquela zona litoral naturalmente que é mais apetecível, mas o Algarve é mais do que isso e também é mais rico do que isso. Há aí outras áreas a conhecer e a procurar que também têm o seu valor.
Voltando a este grupo de pessoas, tanto aquelas que se fixaram vindas de fora como aquelas que passam regularmente, são um desafio ou são um problema?
Eu não vejo como problema, porque quando nós fixamos a missão, já estamos com certeza a adulterar a missão e a missão que Jesus pede à Igreja está sempre para além daquilo que é aquilo que nós sonhamos ou imaginamos. A realidade muitas vezes ultrapassa isso, mas eu acredito que a graça de Deus ultrapassa a própria realidade. Neste sentido, como diz o Papa Leão XIV, uma mão com certeza que não consegue segurar os desafios todos, mas várias mãos são capazes de suportar exatamente esta missão que não está planeada, porque a presença dessas pessoas surpreende e naturalmente é importante essa atenção à realidade para também as poder integrar, como dizia o Papa Francisco, é acolher, é acompanhar, é promover, integrar e portanto são esses quatro eixos que caem como uma luva nesta realidade algarvia.
Queria fixar-me um pouco na questão da integração para falar da forte implementação de imigrantes na região. Como é que pensa apoiar e valorizar do ponto de vista pastoral esta população que é mais vulnerável?
Eu não tenho os diagnósticos feitos, mas eles com certeza já estarão feitos e não faltam com certeza já números. A dificuldade depois é naturalmente dar resposta, depois de conhecer. Esse trabalho já vai sendo feito, eu sei que através da Cáritas diocesana, alguns grupos também caritativos nas paróquias, estão atentos a essas populações, a esses homens e mulheres, famílias concretas, porque esta é a dificuldade da Igreja em todos os tempos, não é só agora no Algarve, nem só com a chegada de novos imigrantes. É ir ao encontro das pessoas e saber também das dificuldades delas, das necessidades e naquilo que é possível, nos meios que possuímos, naturalmente poder também permitir que se sintam pessoas, que se sintam humanas, com obrigações, com certeza, mas também com direitos e que no dia a dia sintam que também são uma imagem de Deus como qualquer outro, independentemente da cultura, independentemente da origem, independentemente da cor, continuam a ser irmãos, como todos.
Vai ser uma voz na defesa daquilo que estava a dizer, dos seus direitos e no combate aos populismos e àqueles que diabolizam os imigrantes?
A Igreja tem de ser a voz de Jesus Cristo, portanto, eu escutando Jesus, vou ter de ir ao encontro totalmente daquilo que ele faria hoje, se aqui estivesse, e aquilo que nós conhecemos no nosso histórico foi exatamente essa atenção, sobretudo àqueles que nem sempre tinham o primeiro palco, o primeiro plano naquilo que era a preocupação quer das instituições religiosas ou políticas da época. E, portanto, são essas franjas que vão merecer uma atenção maior, depois responder, vamos ver, mas pelo menos denunciar é fundamental. Não podemos ficar calados; podemos não resolver os problemas, mas podemos ser esses sensores que alertam para que outros também possam responder, que eu acho que também é bom ter presente, porque muitas vezes imaginamos que a igreja é que vai ter solução para tudo e vai resolver tudo. Não tem, e, portanto, temos de ter a noção que há outros que também trabalham como nós, há outros que também têm capacidades como nós, há outros onde Deus também está presente. Portanto às vezes passa um bocadinho por aí… é o lembrar, é o recordar, é o sensibilizar para que também possam participar e se possam envolver na procura de algumas respostas naturalmente.
Agora onde houver mal, onde houver fome, onde houver discriminação, onde houver perseguição, onde houver solidão, a igreja não pode estar calada, não é só no Algarve, é em qualquer parte do mundo. É este sinal também, é esta marca que estamos convidados a promover e naturalmente a fazer chegar àqueles que mais necessitam.
Promete estar na linha da frente no combate, nomeadamente a esses populismos?
Sim, eu não entendia o estar na linha da frente como uma estratégia, porque isso também pode depois redundar no contrário. Não é questão de brilhar, não é questão de ser protagonista, é questão de estar ao lado daqueles que precisam, e havendo quem precisa tenho que estar. Posso não resolver, nem ajudar a resolver, mas essa gente tem que sentir que há alguém que está do lado deles, assim como nós temos que sentir que podíamos ser nós a estar desse lado, e, portanto, esse é o melhor exercício que nós temos para poder também entender, poder ajudar, poder integrar e sobretudo poder promover. Não alimentar assistencialismo, mas promover também capacidades que as pessoas têm e envolvê-las também nesse esforço de colaborar e também por elas próprias também poderem crescer e darem delas, pois também têm capacidades como nós. Não criar dependências, isto também é uma tentação, e eu acho que isso não promove, se eu estou a criar dependências das pessoas em relação a mim, não estou a promovê-las. Nem a valorizar.
Falemos um pouco da realidade do clero diocesano, pois o Algarve não escapa à crise de vocações e também à falta de sacerdotes. Como é que pensa contornar ou minimizar este problema?
Eu não tenho essa poção mágica, se tivesse já tinha explorado aqui no Porto. Eu suponho que em termos de números a Diocese do Algarve tem 59 padres, claro que alguns já não têm uma nomeação, uma responsabilidade, mas apesar de tudo não é um número muito baixo tendo em conta as 82 paróquias que a Diocese tem. A questão vocacional é uma questão que fervilha sempre, em todas as dioceses e em todas as épocas, e hoje mais do que nunca, mas esse é um brilhozinho que está dentro de mim que eu não vou descurar, e farei tudo o que estiver ao meu alcance; embora eu saiba que há algumas vocações já na diocese que até têm um peso, que vão para além daquilo que é o consagrado. Há ali muitos leigos, há ali também alguns diáconos permanentes que têm alguma responsabilidade e que fazem girar a igreja de forma diferente, não tão clerical ou clericalista, mas um bocadinho mais eclesial e, portanto, mais batismal. Estarei atento e acompanharei, com certeza, o pré-seminário. Não serão muitos, mas é necessário ir também ao encontro dos jovens, ao encontro destas sementes que com certeza andam por ali, e que é necessário fortificar. Agora nós sabemos que isto não depende apenas de nós, mas também depende de nós, então não podemos cruzar os braços nem esperar que as coisas aconteçam…
E vai usar a sua experiência na pastoral das vocações….
A minha experiência já é do passado e hoje com certeza as experiências têm que ser adaptadas ao tempo presente. É claro que isso serviu-me também de alguma lição e, portanto, daí também trago algum ânimo e entusiasmo no acompanhamento de jovens ou de seminaristas que foi o que foi no espaço onde eu estava. O Algarve será diferente, vamos ter de encontrar também formas diferentes, mas o alvo continua. Vamos ver a forma de o atingir com os meios que possuímos, mas não podemos perder esta noção que é para todos, não será apenas para um secretariado, para um grupo; isto tem que estar presente na mente e no coração de todos os cristãos.
Falava ainda há pouco da diferença na pastoral vocacional, como responsável por uma diocese vai ter a oportunidade de viver de forma diferente o processo sinodal, em particular lançado por Francisco em 2021 e agora continuado, e que tem marcado muito a vida da Igreja Católica. Esta dinâmica exige também outra forma de exercer o ministério episcopal?
Eu acho que sim, ainda agora a semana passada o Papa Leão XIV deixava uma mensagem no encontro com os bispos. E eu não digo que seja a chave do êxito, ou que seja de facto a poção mágica, mas é preciso que o bispo desenvolva uma relação de humanidade. Ele dizia (Leão XIV) saiam, vão ter com as famílias, procurem as pessoas, tentem saber o nome de cada pessoa, portanto isso são desafios que vão permitir com certeza pelo menos mexer um bocadinho e pode ser que daí também nesta questão desta proposta sinodal saiam daí vocações, não sei, vamos ver, só Deus é que sabe. Mas esta humanidade, esta exposição, que não há que ter receio, este estar mais pertinho, mais baixinho, com certeza que é capaz de inquietar e eu acredito que sim, que Deus vai atuar também no coração de alguns.
Mesmo antes de terminar, queria deixar uma palavra à diocese de onde sai agora?
À Diocese de Porto, pois, a palavra maior é a gratidão. A gratidão por este tempo de graça que eu vivi aqui no Porto, agora já na idade da reforma é que saio do Porto e sobretudo uma palavra para todos aqueles com quem eu contactei assim pessoalmente, porque é aí que vão ficando as marcas, é aí que vai ficando cada um de nós e é aí onde nós também vamos continuando, por isso agradeço a todos com quem eu contactei pessoalmente, seja comunidade, seja sacerdote, seja os próprios bispos, os jovens do Crisma, tanta gente que nós abraçámos, que tocámos e que essas marcas possam naturalmente fecundar, possam trazer vida e possam sobretudo permitir que nos sintamos bem independentemente do local onde nos encontramos.
