Padre Jorge Teixeira da Cunha, Diocese do Porto
Perdoem-me os dois ou três leitores desta coluna, mas parece necessário voltar à conhecida questão dos abusos e à solução de pagar indemnizações às vítimas. Os episódios que tem tido este doloroso processo têm causado escândalo em bastantes pessoas das que ainda olham os sacerdotes com algum respeito e alguma esperança. Por isso, não podemos encerrar o assunto com o apoio psicológico e a comparação com a jurisprudência penal. Esse pagamento faz parte do processo de solução, sem dúvida. Não é isso que está em causa. É algo anterior que pode levar-nos a dizer que a Igreja não tem estado de pé, como é sua missão e seu dever. O que vai ser dito, seguidamente, supõe também o eventual déficit de informação, pois apenas conhecemos o que nos dizem os meios de comunicação social. Mas isso é uma parte do mesmo problema e não da solução.
A Igreja não tem estado de pé porque não tem enfrentado o assunto segundo a sua missão de praticar o ministério da reconciliação que lhe está confiado.
Da reconciliação faz parte a clara confissão do problema. Ora, isso nunca aconteceu. É necessário reconhecer que os abusos foram uma prática, de certo modo sistémica, bem como o seu ocultamento deliberado. A Igreja tem de cair em si e analisar com muita hombridade este ponto. Reparemos que os abusos são mais velhos que a Igreja, pois já são testemunhados na antiguidade, e mais amplos que o mundo cristão. As crianças foram abusadas desde sempre. Isso não nos consola, mas ajuda-nos a ver o problema.
Deste processo de reconciliação faz parte também uma iluminação teológica e moral. Esta iluminação pode ser ajudada pelas ciências humanas que tipificam as condições em que a personalidade de certas pessoas pode ser levada para essa forma de relacionamento doentio. A teologia moral, por sua vez, vê aí uma clara forma de conversão imperfeita ou mesmo ausente, carência que explica a incapacidade das pessoas para o relacionamento afectivo e para a amizade entre pessoas iguais e adultas. Isso faz parte do que chamamos pecado. Quando esta imaturidade medra no contexto de um falso misticismo, então a coisa torna-se trágica. Só um processo pessoal de iluminação e de metanoia pode fazer crescer o ser humano culpado. Esse processo é doloroso até à heroicidade, mas não é impossível. A pastoral vocacional, do passado, viu sinais de vocação em diversas pessoas que apenas demandavam a Igreja em busca do sacerdócio para expandir a sua doença psíquica não curada.
Reparemos que a questão dos abusos não é assunto que se resolve com soluções temporárias. O abuso é um abismo da alma humana que sempre mostrará as suas faces. O processo de reconciliação tem de reconhecer a necessidade de uma contínua vigilância para ser enfrentado. Podemos estar gratos ao tempo que vivemos, pois, a sensibilidade ética para reconhecer a dignidade das crianças e deficientes cresceu enormemente. Isso também por influxo do Evangelho.
A Igreja tem, pois, de se levantar e ficar de pé junto à cruz. Qualquer outra posição não lhe serve. Tem de mostrar a sua perícia em teologia moral e em pastoral da reconciliação. É incompreensível que a Igreja ainda não tenha feito uma exposição ampla da visão teológica e pastoral do problema dos abusos. Tem de o fazer para ter efeitos dentro das suas fileiras e evitar a morte deliberada que diversos dos seus membros já se autoimpuserem neste contexto dos abusos. Mas tem de dar essa oferta como contributo ao nosso tempo que se tem esforçado por melhorar a sorte das pessoas abusadas.
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