Padre Miguel Lopes Neto, Diocese do Algarve, membro RedAlfamed e Universidade de Huelva

Durante demasiado tempo, confundimos presença digital com missão cumprida. Abrimos contas em todas as redes sociais, comprámos câmaras de alta definição, melhorámos a captação de som, transmitimos missas em direto e multiplicámos conteúdos a uma velocidade vertiginosa. Fizemos da técnica um sinal de modernidade e de vitalidade pastoral. Mas a pergunta decisiva, aquela que realmente importa, continua por responder: sabemos realmente comunicar no mundo digital?
A pandemia deixou a nu uma verdade incómoda: a Igreja entrou no continente digital com imensa boa vontade, mas com uma preparação manifestamente insuficiente. Houve esforço, criatividade e uma dedicação inegável para manter as comunidades unidas quando as portas físicas se fecharam. Mas também ficou tragicamente claro que, na esmagadora maioria dos casos, se trocou a literacia mediática por mera habilidade técnica. Saber usar uma plataforma não é o mesmo que compreender a cultura que ela cria. Fazer diretos no Facebook não significa gerar encontro. Publicar incessantemente não é, por si só, comunicar.
Este é o ponto central que a hierarquia e os agentes pastorais precisam de interiorizar: a Internet não é apenas uma ferramenta utilitária. É um ambiente. Não é um púlpito novo onde se repete, em formato vídeo ou post, o que antes se dizia dentro de quatro paredes. É um espaço relacional, veloz, fragmentado, emocional, altamente competitivo e moldado por algoritmos impiedosos que premiam o ruído, a simplificação extrema e a indignação. Quem entra neste ecossistema sem pensamento crítico arrisca-se a ser rapidamente engolido pela ditadura do espetáculo e do efémero.
E aqui, a Igreja depara-se com um problema estrutural sério. Em muitos contextos, continua a confundir-se educomunicação e literacia mediática com o mero domínio de software e hardware. Investe-se milhares de euros no aparelho e esquece-se a linguagem. Valoriza-se a emissão unilateral e descura-se a escuta ativa. Produz-se conteúdo em massa, mas raramente se constrói diálogo autêntico. Ora, o digital não é um depósito inerte de mensagens; é um lugar de encontro humano. Quando a rede é usada apenas para despejar dogmas ou ideias pré-feitas, sem abertura à interpelação do outro, trai-se a própria natureza da comunicação. Reduzir a complexidade digital a um megafone é ignorar a sua essência relacional.
Há ainda uma ferida social profunda que não pode ser ignorada: a fratura digital doméstica. A crise pandémica mostrou de forma cruel como os idosos, os mais pobres e as pessoas com baixa literacia mediática ficaram ainda mais isolados, mais dependentes e mais excluídos. Numa cultura digital guiada pelo lucro, pela rentabilidade e pela extração de dados, estes grupos tornam-se invisíveis e descartáveis. Se a Igreja não fizer da inclusão digital e da capacitação crítica uma prioridade pastoral urgente, estará a ser cúmplice de uma nova e silenciosa forma de exclusão social.
Por isso, o desafio que se impõe já não é tecnológico. É profundamente cultural, ético e espiritual. Precisamos urgentemente de formar padres, catequistas, leigos e, sobretudo, a própria hierarquia para ler criticamente os media. Precisamos de líderes capazes de discernir a lógica dos algoritmos, identificar manipulações e fake news, evitar polarizações e comunicar com verdade, profundidade e humanidade. Precisamos de menos fascínio acrítico pela máquina e de muito mais inteligência sobre a mensagem. Menos ansiedade de marcar presença, mais capacidade de construir relação.
O ambiente digital não deve ser demonizado com atitudes saudosistas ou supersticiosas, mas também não pode ser idolatrado como uma panaceia universal. Não é o inferno na Terra, nem garante a salvação automática. É um território de missão fascinante, sim, mas também um campo de batalha marcado pela disputa de atenção, pela manipulação e pela superficialidade. Habitar este mundo de forma cristã e humanizadora exige muito mais do que ter acesso a uma boa ligação de fibra ótica: exige consciência, pensamento crítico e empatia.
A Igreja não precisa apenas de estar online. Precisa de saber estar. E isso, no século XXI, chama-se literacia mediática.
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