Levar o mundo ao Coração de Cristo…

Ir. José Manuel Braz Ferreira, Dehoniano

Se a partida de Lisboa para Paris, no longínquo 1986, em trânsito para Madagáscar, foi no dia 8 de setembro, memória da Natividade de Nossa Senhora, e a chegada à Ilha Vermelha aconteceu na manhã de 15 de setembro, Dia de Nossa Senhora das Dores, foi certamente por desígnio de Deus que nos colocou sob a proteção da Mãe do céu. E o facto de a partida de Paris ter acontecido no dia 14 de setembro, não podemos negar que foi para nos colocar sob o signo da Santa Cruz redentora. Éramos três jovens cheios de entusiasmo e de sonhos.

Após 6 meses de estudo da língua malgaxe, com a vantagem de ser língua única em todo o país, embora com características próprias em cada região, e que, realmente, me apaixonou, demos início à “missão”, cada um na sua comunidade. Como eu não era ministro ordenado, fiquei com o cuidado da logística da comunidade e o apoio ao ministério pastoral. Entretanto, devido à minha paixão pela liturgia, bem cedo o nosso bispo diocesano me “pescou” para trabalhar com ele no seio da Comissão Episcopal de Liturgia, onde permaneci até ao meu regresso a Portugal em 2012. Assim é que sempre passei a dar apoio à formação litúrgica dos agentes de pastoral, tais como catequistas, grupos corais, leitores, acólitos, e mesmo seminaristas, aspirantes, postulantes, noviços/as…

Mas também veio o momento de a Congregação me “atirar para a boca do lobo” da formação, logo em 1992. No andar da carruagem, em 1995, formámos uma nova comunidade numa capital de província, onde se construiu uma Casa de Formação para acolhimento e acompanhamento dos aspirantes à vida consagrada Dehoniana. Quase de seguida, sentimos a conveniência de não enviar os jovens aos liceus da cidade para fazerem os estudos secundários, do 10.º ao 12.º ano, mas de ter o nosso próprio ambiente de estudos. Foi assim que fundámos um colégio reconhecido pelo Estado. E connosco passaram a estudar os formandos das outras Congregações presentes na região, mesmo alguns religiosos, até com votos perpétuos.

Como em Madagáscar se aprecia muito a música e a dança, aproveitámos essa tendência para colocar temas bíblicos em cena, à moda de… “Filipe La Feria”: a Cruz, a Redenção, a Encarnação, Maria, a Vocação… Era importante, para a própria formação, até pelo facto de se poder incutir nos jovens a importância do trabalho em equipa, dominar a própria voz e os movimentos, superar os medos, respeitar o papel dos outros, enfim, dar-se com generosidade e com sentido artístico e muita alegria.

Após deixar Madagáscar e uma passagem pela comunidade do Seminário Nossa Senhora de Fátima, em Alfragide, a trabalhar na Secretaria de Benfeitores e no Centro de Acolhimento e Espiritualidade, foi a vez de embarcar para Angola em 2017, onde me dediquei, quase desde a chegada, a serviços de administração ligados aos Dehonianos de Angola. E nesses serviços, incluía-se também a administração da nossa Lojinha de Artigos Religiosos, bem reputada em praticamente todas as dioceses, com o fornecimento de tudo o necessário para a liturgia, até mesmo com produção de hóstias.

Regressei de novo a Portugal e agora a missão agora é outra: vida oculta, desde finais de 2023. Já não posso voltar para Angola, devo permanecer em casa, tratando da saúde, por vezes sendo até um peso para os outros, mas seja feita a vontade de Deus. Já São Paulo dizia que completava na carne o que faltava à paixão de Cristo no Seu corpo, que é a Igreja… cá vou devagarinho, mas de coração alegre e alma disposta a continuar a missão que é uma só: levar o mundo ao Coração de Cristo e fazer de Cristo o coração do mundo.

Ir. José Manuel, SCJ

Em Parceria com a Missão PRESS (mensalmente no dia 30)
(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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