A fé e as emoções: uma reflexão necessária

Pe. Ricardo Figueiredo, Diocese de Lisboa

Foto: Agência ECCLESIA/MC

«O anúncio de Cristo não procura diretamente provocar sentimentos, mas testemunhar um acontecimento que transformou a história e é capaz de transformar a existência de todo o ser humano, ocupando o centro da sua vida» (n. 4), é assim que a Comissão para a Doutrina da Fé da Conferência Episcopal Espanhola define de forma certeira o objetivo da missão evangelizadora da Igreja, num recente documento, intitulado: Cor ad cor loquitur, uma nota doutrinal sobre o papel das emoções no ato de fé[1]. É um tema atual e a referida nota doutrinal dos Bispos espanhóis mostra bem a sua pertinência para os nossos dias.

A reflexão parte de um olhar sóbrio e rigoroso para as linhas gerais que definem o homem contemporâneo. Com efeito, a premente tendência emotiva para analisar-se a si próprio, os outros e o mundo à sua volta, conduz a uma fragmentação do ser humano, como se refere na Nota: «O homem “emotivista” experimenta-se fragmentado, porque as emoções, por si mesmas, são inconexas e não lhe podem oferecer uma visão holística da realidade» (n. 8). Continua mais à frente: «Aplicado à vida espiritual, o “emotivista religioso” faz depender a fé da intensidade da emoção, reduzindo-a à medida do sentimento e ao grau de prazer que possa proporcionar, o que se reforça quando se trata de experiências partilhadas» (n. 8). Não se trata de recusar ou apagar os aspetos emotivos, mas de «encontrar um equilíbrio, dentro da vida espiritual, entre os aspetos intelectivos, volitivos e sentimentais» (n. 9). Aliás, o documento oferece uma exposição profunda sobre a importância dos sentimentos para a vida espiritual (cf. n. 11-15). Fazendo jus ao título dado à Nota, uma exposição bíblica e magisterial apresenta a importância da categoria do «coração» como chave para oferecer uma síntese da totalidade do ser humano (cf. n. 16-20).

Os sentimentos, as emoções e os afetos não são realidades negativas. A reflexão dos Bispos espanhóis aponta para uma antropologia integral e uma visão do ser humano em que todos os aspetos se unem. É neste sentido que este documento mostra toda a sua pertinência: numa sociedade fragmentada, não só do ponto de vista político, mas sobretudo do ponto de vista do entendimento do ser humano de si próprio, é necessário convidar a lançar um olhar que seja pleno, integral, completo. Na sua mensagem para a Quaresma de 2026, o Patriarca de Lisboa chamava a atenção para o analfabetismo humano e espiritual do nosso tempo. Escrevia D. Rui Valério: «Este analfabetismo não é apenas psicológico ou cultural; é espiritual. É a perda da linguagem da interioridade, da escuta e da consciência diante de Deus. Quando deixamos de saber ler o coração, também deixamos de saber ler a vida». É necessário recuperar a alfabetização e a literacia que permite o ser humano compreender-se. Ora, o Concílio Vaticano II indicou de forma clara a «chave» que destranca o mistério do ser humano: «Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime» (Gaudium et Spes, n. 22).

A Nota da Comissão para a Doutrina da Fé dos Bispos de Espanha elenca, de seguida, os critérios teológico-espirituais para o discernimento das experiências pastorais de evangelização, que crescem de forma decisiva, não só em Espanha, mas também em Portugal, razão pela qual me parece muito pertinente a reflexão deste documento. Elenco os critérios, com breves citações que indicam o caminho do discernimento que se deve fazer.

  1. A Santíssima Trindade: está no centro e em toda a extensão da experiência cristã. Por isso, «É importante que a oração cristã não perca a sua identidade trinitária, e que o primeiro anúncio, bem como os processos de discipulado, apresentem Jesus Cristo, a quem conhecemos pela ação do Espírito, que nos revela o rosto do Pai» (n. 23).
  2. Unidade do ser humano: a fé não diz respeito apenas a uma dimensão isolada da pessoa, mas ao todo e a cada parte da vida humana. Deste modo, «a fé, certamente, não se reduz ao assentimento teórico a determinados dogmas, mas é um ato pelo qual toda a pessoa se entrega livremente a Deus, que Se nos revela e Se nos entrega em Cristo» (n. 24).
  3. Necessidade de formação: o ato de fé, na medida em que implica todas as dimensões do ser humano, necessita não só da dimensão subjetiva, mas também da dimensão objetiva que se consubstancia na profissão de fé. Assim sendo, «não há encontro com Cristo quando se considera apenas o aspeto subjetivo, sem aprofundar o conteúdo da fé e a doutrina. A formação é o meio primordial que permite integrar a verdade no amor. Se o ato de fé, enquanto adesão pessoal a Cristo, perde a sua profunda unidade com a verdade salvadora que Ele nos trouxe, transforma-se num ato vazio e cego» (n. 27).
  4. A fé acontece sempre em Igreja: numa sociedade cada vez mais individualista, o documento chama a atenção para o facto de a fé cristã ser sempre eclesial, ou seja, nunca acontece de forma isolada: «Não é possível uma experiência nem um conhecimento de Deus de modo direto e individualista. Ninguém se fez cristão a si mesmo, nem é crente por si só. Cremos porque alguém nos falou do Senhor e nos transmitiu a fé da Igreja no âmbito da família, de uma paróquia, de um grupo ou de um movimento eclesial. A própria profissão de fé é um ato simultaneamente pessoal e eclesial, de modo que, quando o cristão diz “creio”, ao mesmo tempo diz “cremos”» (n. 29).
  5. O serviço aos outros como critério decisivo: a fé cristã tem sempre consequências na forma de viver. Jesus colocou no centro do julgamento a que serão sujeitos os seus discípulos a capacidade de O encontrar nos mais pobres e frágeis (cf. Mt 25, 31-46). Por isso, «a fé não pode ficar reduzida a uma experiência meramente emocional, mas traduz-se na caridade para com os mais pobres, no testemunho e no serviço que transfiguram o mundo, tornando nele presentes os valores do Reino» (n. 33).
  6. Vivência litúrgica: a liturgia é um dos pilares sobre os quais assenta a vida cristã, por isso, as celebrações devem ser vividas como momentos eclesiais, de celebração do mistério de Cristo. Numa liturgia, a pessoa ou um grupo não se celebram a si próprios, mas a presença de Cristo e, assim, de todo o Corpo do Senhor. É neste sentido que o documento indica: «As iniciativas de evangelização devem cuidar de não fomentar uma oração “espiritualista” desencarnada ou celebrações litúrgicas intimistas e sensacionalistas. Corre-se o perigo de reduzir a liturgia a um mero “devocionalismo” que potencia o subjetivismo sentimental em detrimento do que é comunitário, objetivo e sacramental» (n. 36).

Este documento não pretende levantar suspeitas sobre as experiências pastorais e de evangelização que estão a acontecer. Pretende, pelo contrário, ajudar a fazer caminho sério e verdadeiro de fé. É neste sentido que me parece uma reflexão central: ajuda pastores e fiéis a fazerem exame de consciência sobre as prioridades da evangelização e a redescobrir que a grande missão que temos diante de cada um de nós é, sempre, ser instrumentos de Cristo vivo para a humanidade.

 

[1] Acessível aqui: https://www.conferenciaepiscopal.es/nota-doctrinal-papel-emociones-fe/

 

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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