António Salvado Morgado, Diocese da Guarda
Será bem fácil encontrar os limites humanos. Eles são uma imensidão. E limites de todas as espécies: físicos e fisiológicos, mentais e espirituais. Em todos eles trazemos a marca dos nossos limites existenciais, os limites que manifestam a nossa contingência. Somos, mas poderíamos não ser. Mas, sendo, carregamos, necessariamente, a marca da nossa finitude. Somos necessariamente finitos na contingência do nosso existir. Somos, mas, sendo e sabendo que somos, encontramo-nos imersos na infinitude do Ser. Sempre somos sendo.
Se é bem fácil encontrar limites humanos no nosso viver quotidiano, é também muito fácil esquecê-los. As mitologias das culturas ancestrais não o ignoram e as narrativas míticas aí estão para no-lo significarem na irrealidade das suas narrativas.
Era uma vez um pai e um filho, Dédalo e Ícaro, que se encontravam perdidos num labirinto onde haviam sido lançados por castigo devido aos seus crimes e da sua desobediência. Assim diz o antigo mito da antiga Grécia. Valerá a pena recordar a narrativa.
Dédalo havia sido um importante arquitecto de Atenas de onde fora expulso por ter matado, por inveja, um seu discípulo excepcionalmente inteligente. Dédalo e o seu filho Ícaro, expulsos de Atenas, passaram para a ilha de Creta, reino de Minos, onde o engenhoso arquitecto ateniense constrói o labirinto do monstro Minotauro. Traindo a confiança de Minos ao dar informações a Ariadne sobre o labirinto, Dédalo e o filho Ícaro são aprisionados no próprio labirinto. Engenhoso como era, o hábil arquitecto constrói dois pares de asas com penas de pássaros, fios dos cobertores e do couro das suas sandálias, tudo engenhosamente acondicionado com a cera das abelhas. A ideia era, voando, libertarem-se do labirinto em que se encontravam aprisionados. Antes de levantarem voo, Dédalo alertou insistentemente o filho para não voar nem muito perto do mar nem muito perto do Sol. No primeiro caso molhar-se-lhe-iam as penas e afogar-se-ia; no segundo caso derreter-se-ia a cera, destruir-se-iam as asas e o resultado seria a queda. Porém, entusiasmado com a liberdade, deslumbrado com o voo e encantado com a beleza da ascensão, Ícaro ignorou os avisos do pai, e, despreocupado e desfrutando do vento favorável, voou demasiadamente alto. Derreteram-se-lhe então as asas com o calor do Sol, caiu no mar e morreu afogado. A historieta mítica anda por aí, na literatura e na arte, tratada conforme os ventos mutantes das correntes artísticas, a começar, obviamente, pela literatura clássica.
Foi a 3 de Agosto de 2025. Numa homilia do Jubileu dos Jovens, Leão XIV falou dos nossos limites e da liberdade. Perante um milhão de jovens. Falou dos limites como espaço de verdade. E falou aos jovens para dizer que aceitar a pequenez humana é o princípio da liberdade verdadeira. Aos jovens que sonham sonhos sem fim para um futuro de encanto. E disse-lhes que a nossa fragilidade «faz parte da maravilha que somos.» Seremos, então, maravilhosamente frágeis no espaço infinito circunscrito pelos nossos limites. Que são uma imensidão.
No passado dia 15 de Maio, Leão XIV publicou a carta encíclica «Magnifica Humanitas», sobre «Sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial». Isso é sabido, como será sabido que o texto papal foi elogiado pela generalidade dos públicos. Não sei se está devidamente assimilada mesmo por muitos daqueles que a citam e chego a duvidar se foi suficientemente lida por todos os que elogiaram o texto de Leão XIV.
É no Capítulo III, intitulado «Técnica e domínio: a grandeza da pessoa humana perante as promessas da IA» [Inteligência Artificial], onde o Papa Leão preenche vários parágrafos sobre os limites humanos [N.º 118-130].
Tratar-se-á do coração da carta encíclica e o contexto são as ideologias ligadas pelo mesmo mar de pressupostos: «a centralidade da tecnologia e o sonho de ultrapassar os limites da condição humana» [116], ou seja, o «transumanismo» e o «pós-humanismo». Não se trata de renunciar à tecnologia, mas impedir que ela domine o ser humano, ideia que vai sendo repetida: «uma coisa – escreve o Papa – é integrar as tecnologias numa visão humana e relacional, outra é deixar-se guiar por um imaginário que desvaloriza os limites e promete uma “salvação” puramente técnica.» [117].
Reconhecendo que a vida aparenta mover-se numa crise, Leão XIV escreve: «Tudo o que se apresenta como “limite” – incapacidade, doença, velhice, sofrimento, vulnerabilidade – tende a ser interpretado, antes de mais, como um defeito a corrigir, e não como um espaço onde o humano amadurece e se abre à relação. Em vez disso, devemos recordar que o humano não floresce apesar dos limites, mas, muitas vezes, através dos limites.» [118]. É aí onde pode florescer a ambivalência entre a grandeza e os limites do ser humano interpretada à luz da relação original e fundamental com Deus.
Regressando ao mito de Ícaro, lembremos que ele é pluridimensional na sua riqueza significativa: obediência, luto, castigo, sofrimento, indiferença, a inveja, a ambição desmedida. Muitas dessas dimensões e valores vão aparecendo nas múltiplas obras da cultura ocidental. De facto, o mito de Ícaro constitui uma das alegorias mais recorrentes na cultura ocidental, e, de um modo mais geral, ele representa particularmente o perigo da arrogância do ser humano que, na ânsia de eliminar os limites, ignora a raiz primeira da transcendência que o sustém: o «mais que humano» que «não pode ser senão o infinito que se doa: é o próprio Deus quem supera a desproporção “infinita”» [127]
De entre as representações pictóricas do mito de Ícaro, realço a pintura atribuída ao pintor renascentista flamengo Pieter Bruegel, o velho, conhecida com o nome «Paisagem com a Queda de Ícaro» [c. 1558]. O quadro prima por uma simbólica originalidade. No canto inferior direito do quadro, junto a um grande barco, lá se encontra Ícaro, minúsculo e entre as penas, a esbracejar e a fundar-se nas águas, enquanto os marinheiros, o agricultor que lavra a terra e o pastor que olha o céu noutra direcção, todos vivem as rotinas do dia ignorando a situação por que Ícaro está a passar. Será a expressão plástica da indiferença de muitos, ou de todos, perante a tragédia individual.
Se voar perto demais do Sol significa perder a noção dos limites e ser consumido pelo desejo de grandeza e ambição desmedida, no quadro do artista flamengo vemo-nos na azáfama do dia-a-dia ignorando as tragédias humanas.
Hoje Pieter Bruegel, a acompanhar o lavrador, o pastor e os marinheiros poderia pintar no quadro outras profissões da nossa era que poderão passar indiferentes às tragédias de hoje e, sobretudo, de amanhã, com particular relevo aquelas que se prendem com o redobrado implemento da IA. Também será por isso que Leão XIV lembra que «A qualidade de uma civilização não se mede pelo poder dos seus meios, mas pelo cuidado que sabe oferecer, pela capacidade de reconhecer o outro enquanto pessoa e não enquanto função.» [114].
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