D. Raúl Biord apontou como prioridade da diocese nos próximos meses o apoio e formação àqueles que estarão na linha da frente do acompanhamento pastoral

Lisboa, 30 jun 2026 (Ecclesia) – O arcebispo de Caracas, na Venezuela, apontou como prioridade a proteção de vidas, numa altura em que decorrem operações de socorro, depois de dois terramotos terem atingido o país.
“Devemos dedicar o tempo necessário para organizar estrategicamente a ajuda. A necessidade é imensa. Sem dúvida que, neste momento, o mais importante é salvar e reconstruir vidas”, afirmou D. Raúl Biord, em declarações à Fundação Ajuda à Igreja que Sofre Internacional, citadas hoje pelo secretariado português.
Os sismos de magnitude 7,2 e 7,5 atingiram a Venezuela a 24 de junho, com menos de um minuto de intervalo e epicentro a 200 quilómetros de Caracas, causando um elevado número de mortos, feridos e desaparecidos, que continuam a ser contabilizados, e um rasto de destruição.
“Foi um milagre para quem continua vivo, mas perdemos muitas pessoas”, destacou o arcebispo.
Fontes eclesiásticas, em declarações à Fundação AIS Internacional, estimam que cerca de 250 mil pessoas possam ter ficado sem habitação em consequência dos terramotos; além disso, o encerramento de numerosos bancos dificulta o acesso a dinheiro em numerário para cobrir as necessidades mais básicas.
La Guaira foi a diocese mais atingida pelos sismos, sobretudo a faixa costeira situada junto a Caracas, sendo o seminário de São Pedro e São Paulo um dos edifícios que sofreu os danos mais graves.
“Os seminaristas estavam no edifício quando a terra tremeu. Podemos dizer que foi um milagre. Houve alguns feridos ligeiros, mas ninguém morreu; os seminaristas e os professores conseguiram sair”, descreve o arcebispo.
D. Raúl Biord relata que “não é possível entrar no edifício, que ficou inutilizável e sofreu danos muito graves”: “Perderam tudo: a roupa, os sapatos… nada se salvou”.
Após vários dias alojados num centro desportivo em La Guaira, o responsável católico explicou que os seminaristas foram transferidos no sábado para Caracas, onde receberão apoio psicológico para os ajudar a superar o trauma vivido.
“Um dos pontos mais importantes agora é saber ouvir”, salienta, relatando que “muitas famílias” tiveram de “retirar elas próprias os seus mortos dos escombros”.
Há sacerdotes que estão a acompanhar os feridos nos hospitais e um deles relata a sua visita a uma destas unidades em Caracas: “Antes de administrar a unção dos doentes a uma mãe, perguntei-lhe como se sentia. Ela, com um sorriso, respondeu-me: ‘Estou viva’ […] e depois acrescentou: ‘Tudo vai ficar bem; acabaram de me amputar ambas as pernas, mas vamos conseguir superar isto’”.
“Outra mãe, antes de receber a unção, pediu-me: ‘Reze pelos meus dois filhinhos, que morreram.’ Uma jovem, entre lágrimas, confessou-me: ‘Perdi os meus pais, os meus avós e os meus irmãos’”, contou, concluindo que “a realidade é devastadora”.
Face a este cenário, o arcebispo Biord considera que um dos desafios mais urgentes é acompanhar aqueles que sobreviveram: “Os sacerdotes e as religiosas, bem como os voluntários da Cáritas e os agentes pastorais, deverão prestar apoio psicológico e espiritual a milhares de pessoas marcadas pelo trauma”.
“Esta será uma das grandes prioridades da diocese nos próximos meses: dar apoio e formação àqueles que estarão na linha da frente do acompanhamento pastoral durante os próximos meses”, complementou.
Perante o sofrimento e destruição causadas pelos sismos, o Papa enviou uma primeira ajuda financeira de 100 mil euros para socorrer as populações atingidas e apelou à solidariedade internacional para com o país sul-americano.
“O Papa escreveu-me algumas palavras muito bonitas. Comoveram-me profundamente”, realça o arcebispo de Caracas, que agradece também o apoio da Fundação AIS, que lançou uma campanha intitulada “SOS Venezuela” e enviou ajuda de 100 mil euros para apoiar resposta de emergência, e outras obras de caridade internacionais.
| A Conferência Episcopal Venezuelana (CEV) partilhou esta segunda-feira que as autoridades daquela Igreja reuniram-se na sede da Conferência Episcopal para coordenar as linhas de ação, serviço e acompanhamento espiritual dirigidas à população afetada pelos recentes terremotos no país.
No encontro, o presidente da CEV enfatizou que as diversas dioceses e paróquias do país se transformaram imediatamente em centros de coleta, espaços de oração e locais de apoio, tendo dando especial atenção à situação do clero em La Guaira, cujos sacerdotes vivenciaram a tragédia em primeira mão, sofrendo a perda de casas, colaboradores próximos e membros de suas equipes paroquiais. “A nossa prioridade é ajudar esses ‘cuidadores do povo de Deus’ a curarem suas próprias feridas para que possam continuar oferecendo auxílio e conforto às suas comunidades”, afirmou. Por sua vez, o núncio apostólico, arcebispo Alberto Ortega Martín, ressaltou a mobilização da Igreja venezuelana desde o primeiro momento da tragédia e confirmou que o Papa Leão XIV enviou ajuda material concreta, juntamente com mensagens constantes de proximidade e oração pelas vítimas. O representante do Papa anunciou que se espera mais assistência de Leão XIV e de diversas Igrejas irmãs ao redor do mundo, encorajando o público a permanecer aberto à solidariedade. Por sua vez, o bispo de La Guaira apontou que o principal desafio hoje é a organização eficiente de voluntários para garantir que os recursos cheguem verdadeiramente àqueles que mais precisam. D. Pablo Modesto informou que está a ser realizada uma fase de diagnóstico rigorosa, comunidade por comunidade, priorizando três aspetos: atenção aos sacerdotes no terreno, restabelecimento dos canais de comunicação com os setores que permanecem isolados e apoio psicossocial para as pessoas que, devido ao nível de impacto e trauma, encontram-se em estado de “paralisia” emocional, o que dificulta o acesso aos centros de ajuda. A diretora-executiva da Cáritas Venezuelana, Janeth Márquez, explicou que foi ativado o “Plano 24×24”, que dedica um dia completo à entrega de alimentos, água, medicamentos e kits de higiene, alternando com 24 horas de receção e triagem no centro de recolha. A responsável deu conta ainda que em apenas três dias de emergência, mais de 321 camiões carregados com ajuda humanitária foram enviados aos estados de Vargas (La Guaira), Caracas (distrito capital), Carabobo e Falcón. Para o futuro do país, o arcebispo de Caracas apresentou duas recomendações fundamentais, sendo uma delas a reconstrução integral, lembrando que que o verdadeiro desafio vai além da construção de prédios, casas ou templos de pedra. A segunda sugestão foi um apelo às autoridades competentes para que respeitem rigorosamente a unidade das famílias nos processos de realocação e acolhimento, garantindo que as crianças permaneçam com seus pais e evitando os graves erros metodológicos do passado. |
LJ/OC
