Padre Carlos Teixeira acompanhou funerais de vítimas e pede apoio urgente para reerguer hospital em La Guaira
Caracas, 30 jun 2026 (Ecclesia) – O padre Carlos Teixeira, religioso lusodescendente a residir em Caracas, sublinhou a urgência de uma união política e social para reconstruir a Venezuela, após os devastadores sismos da última semana.
“É hora de pensar como construir um país além de cores e partidos”, apelou o professor de Teologia, alertando para os riscos de o desastre resvalar para uma “confrontação política”.
Em entrevista à Agência ECCLESIA, o religioso dehoniano relatou os momentos de pânico vividos durante os abalos de 24 de junho, revelando ter uma familiar desaparecida sob os escombros na zona litoral.
“A coisa que eu mais fiquei admirado foi quando vi os Estados Unidos dizerem que esperavam entre 10 mil e 100 mil mortos”, confessou o entrevistado, recordando a incredulidade inicial em Caracas que deu imediatamente lugar ao choque ao constatar o grau de destruição.
O padre Carlos Teixeira assumiu o acompanhamento pastoral de várias pessoas, nesta emergência, partilhando o impacto de celebrar o funeral de uma jovem lusodescendente que perdeu a vida na catástrofe e deixou uma filha de 11 anos.
“O marido conseguiu salvar a filha, mas não conseguiu salvar a mulher”, relatou o religiosos, admitindo que nestes cenários trágicos “não se acham nem palavras” para consolar a dor das famílias.
A resposta da diáspora lusa na Venezuela foi destacada pelo padre dehoniano, que sublinhou as recolhas solidárias de bens promovidas por instituições da comunidade emigrante.
O sacerdote enalteceu igualmente a prontidão da Embaixada de Portugal em canalizar auxílio, destacando o facto de o apoio diplomático não se fechar na comunidade, estendendo-se a “todo aquele que está a precisar”.
A rede de intervenção da Igreja Católica tem assumido o protagonismo na ajuda às populações, com o religioso a testemunhar “filas de camiões para descarregar” mantimentos nas instalações centrais da Cáritas em Caracas.
“São poucas as instituições que ficaram com credibilidade nestes últimos anos e a Cáritas está a receber de uma forma incrível”, assinalou.
O religioso alertou, contudo, para a necessidade de rigorosa coordenação humanitária, exigindo “transparência” e “rastreabilidade” na aplicação dos fundos para evitar qualquer ato de “aproveitamento ilícito” da tragédia.



Uma das prioridades, neste momento, é recuperar um hospital administrado por religiosas no Estado de La Guaira, uma infraestrutura vital que sofreu danos severos com os sismos.
“Fechar este hospital é deixar as pessoas indefesas, porque isto vai durar alguns anos para reconstruir e para as pessoas recuperarem das mágoas físicas e psicológicas”, advertiu o sacerdote.
Filho de madeirenses, Carlos Teixeira nasceu na Venezuela e estudou no Funchal, antes de regressar em definitivo ao país sul-americano, em 1991, onde desempenha a sua missão na congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos).
O número de portugueses e lusodescendentes mortos devido aos sismos de quarta-feira na Venezuela subiu para 60, segundo o mais recente balanço divulgado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), havendo 87 desaparecidos.
Os sismos registados na Venezuela causaram mais de 1700 mortos e mais de 5 mil feridos, segundo o mais recente balanço oficial.
Segundo a ONU, mais de 50 mil pessoas estão desaparecidas.
Dezenas de edifícios ruíram ou ficaram gravemente danificados na capital Caracas e na região de La Guaira, uma das mais afetadas, onde se concentra parte significativa da comunidade portuguesa e lusodescendente.
OC
