Carlos Borges, Agência ECCLESIA

Foi assim esta tarde! É verdade, é dia 25 de abril de 2026, e estou a escrever com alguma antecedência. Cumpriu-se hoje mais do que um ritual anual para milhares de pessoas, e a Avenida da Liberdade, em Lisboa, foi pequena para o mundo de gente que quis celebrar a Revolução dos Cravos, o seu 52.º aniversário.
Uma avenida que neste dia é de todos, e percorrem-na livremente: com cartazes, tarjas e palavras de ordem, cores, festa e música, em associações, movimentos, coletivos, partidos, ou simplesmente com amigos, em fraternidade. Não querem perder os direitos que foram adquirindo após 48 anos de ditadura, nem a liberdade, que permite dizerem o que pensam e sentem, serem cidadãos ativos, participativos, e estarem aos milhares no mesmo sítio.
Direitos que continuam hoje, num sistema político que não é perfeito, mas há um caminho ao qual esta descendência – filhos, netos, bisnetos – que se junta à revolução sabe que não quer voltar, ‘o tempo da outra senhora’, ou algo parecido, que pode levar à limitação desta liberdade. E querem, hoje, continuar a ‘democratizar, descolonizar e desenvolver’, que haja ‘paz, pão, habitação, saúde, educação’, para todos, e a pobreza não seja geracional.
As pessoas ocupam uma Avenida da Liberdade que, neste dia, é de todos, numa comemoração dos valores que Abril de 74 trouxe, e que não termina nos Restauradores, ou no Rossio, mas, continua no Largo de São Domingos, na Praça da Figueira, e na Praça do Comércio, pela cidade capital, e por Portugal.
Eram pessoas de todas as idades, muita juventude, todos os anos mais, de muitas cores e muitas raças, novos e velhos, crianças, jovens e adultos. Alguns tão novos que iam na barriga da mãe, outros, quase centenários, não sabem se regressam em 2027, como o Sr. Alfredo Fernandes famoso pela bandeira de Portugal que leva com dignidade e elegância. Já tem 98 anos, e é figura assídua nesta comemoração. Vejo-o a descer a Avenida da Liberdade há vários anos, e, desde 2023, lembro-me também dele a subir o Parque Eduardo VII, na JMJ Lisboa, a passo largo, jovem com a juventude do mundo inteiro, a que conseguiu estar na capital portuguesa, a que teve liberdade para isso, e não me refiro só à económica.
Nesta tarde de abril, com tempo convidativo a ir para a praia ou passeios menos confusos, estavam lá pessoas de muitos países de vários continentes, da Europa, claro, da América, África e Ásia, porque esta festa é de todos, como a liberdade de comemorá-la. Certamente, nem tudo foi perfeito, mas não se enche a boca para falar de revolução, direitos, e empunhar cravos só neste dia, para a fotografia, e para ganhar votos.
E se eram muitas as pessoas, arrisco que os cravos eram muitos mais, algumas pessoas tinham mais do que um, certamente andaram por lá outras, uma minoria, que não tinha nenhum, mas, depois das 19h00, ainda se vendia esse símbolo da liberdade em Portugal. Eu comprei o meu pouco antes, já depois de descer a avenida.
Cheguei a casa, passei pelos telejornais, e num zapping, apanhei o final do filme ‘Braveheart’, quando William Wallace, em tortura, prepara-se para o último suspiro, aquele grito de ‘liberdade’ que acorda moribundos.
Uma das últimas imagens que guardo deste sábado é de uma grávida, com um bonito barrigão, nas Portas de Santo Antão, e a certeza escrita nessa barriga que está a gerar vida: “Vou nascer em Liberdade”.
E cá estamos nós, com “cara de quarta-feira”, mas daquelas que sabem o querem, e para onde querem ir, no meio de dois dias de lutas e manifestações, aos quais a Igreja Católica, de muitas e variadas formas, também se associa.
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