Isabel Figueiredo, diretora do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais
Ainda tenho na memória, os meus primeiros alunos do secundário. As aulas de história terminavam habitualmente com a mesma recomendação: “na próxima aula quero saber quais foram as noticias que viram no telejornal…” Ainda estávamos no tempo em que a família se reunia à frente da televisão, para assistir ao telejornal e à novela que se seguia… estava muito longe de imaginar que viria a trabalhar num órgão de comunicação social e que o mundo das noticias passaria a fazer parte da minha vida.
Percebo agora, que ao dar como trabalho de casa, a alunos de 14, 15 anos, a obrigação de saberem as noticias do dia, estava a pedir-lhes uma maior consciência da importância da informação, na construção de uma sociedade mais livre, mais justa, mais solidária. E desde então, nunca mais deixei de o afirmar, certa de que a comunicação social é um verdadeiro motor de crescimento da verdade e da igualdade na sociedade, tal como tem igual capacidade de construir mentiras e favorecer desigualdades. Basta olhar para o mundo atual, ouvir as noticias, ver o que se passa nas redes sociais.
Nunca sentimos tão de perto o impacto da comunicação social, nunca se estudou e se ensinou tanto sobre comunicação – tipos, estratégias, ferramentas, qualidades, defeitos, consequências, estatísticas – nunca fomos tão capazes de intervir diretamente no mundo das noticias, mas a verdade é que nunca se produziu tanto lixo mediático, que se recicla a si próprio, reinventado pela realidade dos algoritmos, que alimentamos de forma quase inconsciente.
Esta realidade em nada belisca a minha convicção de que a sociedade precisa mais do que nunca, da comunicação social. Mas precisamos de estar conscientes de que a comunicação social devolve aquilo que somos enquanto pessoas e sociedade. Devolve e responde ao que lhe é pedido. Não coloquemos todos os males sobre a comunicação social que temos e sejamos capazes de fazer o exercício da verdade e da humildade que nos é pedido, sempre que somos chamados a avaliar o que somos e o que queremos.
Já oiço as vozes que me lembram as questões dos interesses, da interferência dos poderes e dos poderzinhos, as queixas das faltas de meios, da pouca formação ética e profissional, a pressão do dinheiro e da sua falta… Questões que cruzam toda a sociedade, todos os países, nas mais diferentes realidades. É verdade. Mas também é verdade que é possível fazer diferente.
A instrução “COMMUNIO ET PROGRESSIO”, sobre os meios de comunicação social, publicada em Maio de 1971, por mandato do II Concílio Ecuménico do Vaticano, continua a ser um extraordinário documento que nos abre renovados caminhos de pensamento e nos coloca questões que permanecem atuais.
O primeiro ponto da Introdução deste documento diz-nos: “A comunhão e o progresso da convivência humana são os fins primordiais da comunicação social e dos meios que emprega, como sejam: a imprensa, o cinema, a rádio e a televisão. Com o desenvolvimento técnico destes meios, aumenta a facilidade com que maior número de pessoas e cada um em particular lhes pode ter acesso; aumenta também o grau de penetração e influência na mentalidade e comportamento das mesmas pessoas.” E o primeiro ponto da Conclusão é igualmente útil, se queremos refletir sobre comunicação social: “Neste momento, um problema difícil se nos depara: estamos ou não no limiar duma nova era da Comunicação Social? Por outras palavras, todo o processo que acabámos de descrever comporta apenas mudanças quantitativas, ou também qualitativas? É difícil responder a esta pergunta, mas uma coisa é certa: dados os recentes progressos científicos e técnicos, sobretudo os relacionados com as comunicações via satélite, muito brevemente informações de toda a ordem difundidas pela Rádio e Televisão, chegarão simultaneamente ao conhecimento de todo o mundo. Por outro lado, a gravação e transmissão, destes programas será motivo de distração e formação cultural. Assim todos os povos estarão cada vez mais informados sobre a vida uns dos outros e terão mais possibilidades de trabalhar juntos pela união da humanidade e pelo estabelecimento da paz.”
Estávamos em 1971 e o documento foi assinado no V Dia Mundial das Comunicações Sociais. Datas e palavras que revelam a intervenção e pensamento da Igreja sobre a Comunicação Social. Sendo que todos somos agentes de Comunicação, estejamos do lado de quem escreve, fala, filma, conta, ou de quem lê, assiste, assimila, partilha. Responsabilidades que devem ser ensinadas e assumidas por todos. A favor do Bem Comum que, neste caso em particular, se chama Verdade.
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