Padre Vítor Pereira, Diocese de Vila Real

O suicídio está na ordem do dia. Dados da Organização Mundial de Saúde, estão a acontecer oitocentos mil suicídios por ano em todo o mundo. Morrem mais pessoas por suicídio do que por sida, malária, cancro da mama, na guerra ou homicídio. Em Portugal, por dia, estima-se que três pessoas tiram a vida, em média. A maior incidência acontece nos homens com mais de 65 anos, mais no interior e sul do país (dados recolhidos no podcast Da Praça de Pedro, de 13 de novembro de 2025). O suicídio é a segunda principal causa de morte entre jovens (15-19 anos) na União Europeia. Nos Estados Unidos da América, no ano de 2022, cinquenta mil americanos puseram fim à sua vida. Muitos eram adolescentes e jovens. Nos últimos anos a taxa tem diminuído, mas a incidência continua a ser preocupante.
Está a acontecer também entre o clero da Igreja católica. Neste ano de 2026, já são conhecidos, pelo menos, cinco casos de sacerdotes que puseram fim à sua vida. Todos conhecemos um caso ou casos bem perto de nós, pessoas que exibiam rostos alegres e vidas, aparentemente, felizes e realizadas, mas que por baixo da epiderme se debatiam com um grande drama e luta pessoal, debatiam-se pela sobrevivência, num grande sofrimento, angústia, falta de sentido e vazio existencial.
Não vamos cair em avaliações e julgamentos fáceis, nem acusar de forma leviana, ou apontar causas que poderão ser óbvias, mas poderão ser falaciosas e injustas. As causas do suicídio são complexas. E cada caso é um caso. Todos concordamos que temos de fazer mais, instituições, famílias e sociedade, na prevenção do suicídio. Algumas pistas são inevitáveis. É preciso prestar mais atenção à saúde mental. As pessoas estão a revelar mais fragilidade, instabilidade e vulnerabilidade neste campo. A falta de saúde mental está na origem de grande número de suicídios. E no caso dos padres, um padre não é uma fortaleza eterna no campo da saúde mental. Depois é preciso respeitar mais a família e o tempo que a família precisa para ser família. Neste mundo da pressa e sem tempo, a família convive pouco e mal, há pouco tempo para a escuta, nem sempre os pais, dispersos e sobrecarregados de trabalho, prestam a devida atenção aos filhos, que facilmente podem cair nas armadilhas que podem levar ao suicídio. Por fim, temos de repensar alguns valores que se promovem na cultura atual: o narcisismo doentio que só vive de exibicionismo e aprovação a toda a hora e que não sabe viver com a rejeição e a insignificância; o individualismo exacerbado, que mergulha na solidão pouco saudável; o isolamento e a indiferença entre as pessoas; o materialismo e o hedonismo reinantes, que arrastam para a insatisfação e o vazio existencial; a falta de relações sociais de qualidade; inexistência de projetos de vida sólidos, humanizantes e realizadores, para além do imediato e útil da vida.
Não há muito tempo, era noticiado que um em cada cinco portugueses vive com sofrimento psicológico. 23 % sofrem de doenças mentais, sobretudo perturbações depressivas e ansiedade, a mais alta da Europa. Aumentou o consumo de antidepressivos e de tranquilizantes, assim como do álcool, sobretudo da parte das mulheres, dos idosos e das pessoas com menos escolaridade. Uma boa parte do Portugal profundo vive com sofrimento psíquico, num turbilhão de tristeza, nervosismo, insatisfação e desespero.
Como padre, preocupa-me, certamente o que se está a passar com os padres. Como seres humanos que são, não são imunes nem têm um escudo que os livre das fragilidades da condição humana. O Sacramento da Ordem não é um antivírus contra as maleitas do comum dos mortais, mas muitos cristãos pensam que sim. O padre não é um super-homem. Penso que é preciso rever e refletir seriamente o que a Igreja quer do padre e como se pode ser padre para os tempos atuais. Persistimos no modelo pastoral que prevaleceu nas últimas décadas, mas que se está a revelar desajustado e anacrónico para o número de padres que temos atualmente. São muitos os padres que manifestam exaustão ministerial, face ao número de paróquias que têm a seu cargo. O ministério sacerdotal está a perder algum do seu encanto. O padre, adsorvido numa grande dispersão e com responsabilidades de vária ordem, algumas alheias ao ministério, está a tornar-se mais um prestador de serviços ou um funcionário do sagrado e do social, sem tempo para dar densidade e profundidade ao seu ministério. Muitos enfrentam grandes horas de solidão, com grande indiferença das comunidades, que só querem saber que o padre esteja no lugar e na hora que está marcada, quando lhes interessa e convém. Se o padre é correto, rigoroso e exigente, é, muitas vezes, submetido ao linchamento público e atacado com críticas e vitupérios vindos de todo o lado, por vezes escarnecido e até dado ao desprezo. Em vez de sentir acolhimento, apoio e colaboração, o padre, em certos momentos, sente que faz o seu trabalho pastoral sob o olhar da indiferença e da crítica fácil e trocista de um bom número de cristãos, e por vezes até enfrenta uma resistência que lhe mina todo o trabalho e ação pastoral. Toda a sua vida é constantemente escrutinada, comentada e avaliada, e não raras vezes maquilhada com boatos e mentiras sem qualquer fundamento. Para além desta embirrante pressão social, hoje o padre também se vê vergado à pressão pastoral da eficiência, do rendimento e do ativismo, que infelizmente anda a tomar conta da Igreja. Padre que não mostre dinamismo, nem que seja esse dinamismo vertiginoso e tonto que por aí anda, padre que não mostre frenesim pastoral e mudanças e transformações pastorais de encher o olho, facilmente é rotulado de indolente, um imobilista ou conservador, um “antiquado”, um padre desinteressado dos paroquianos e da Igreja. Se não apresenta resultados vistosos, é um inepto e um incompetente.
O padre sabe que o seu ministério não é fácil. Também tem de ter alguma fibra e coragem. Como homem, também tem as suas carências, fragilidades, descompensações e erros. Todos os dramas humanos têm a sua cota parte de culpa pessoal. Mas cobra-se demasiado ao padre. Não faz sentido muita da pressão a que o padre está sujeito, não faz sentido tanta falta de respeito pela humanidade do padre dentro da Igreja, não faz sentido muitas das exigências que hoje se impõem ao padre, tornando-se o sacerdócio um fardo pesado e um ministério pouco realizador e gozoso. Daí que aconteça o abandono e por vezes para alguns não reste outra saída que o precipício do suicídio. Impõe-se à Igreja uma grande atenção e reflexão.
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