«Abissus abissum invocat» – «Um abismo chama outro abismo»

António Salvado Morgado, Diocese da Guarda

É um belíssimo poema aquele salmo e, talvez, um dos mais cantados nas celebrações eucarísticas das nossas igrejas no momento da comunhão: «Como o veado anseia p’las águas vivas, assim minh’alma anseia por Vós, Senhor». Muitos saberão entoar a solo este refrão musicado pelo falecido P. Manuel Luís [1926-1981]. É o primeiro versículo do salmo quarenta e um, adaptado a refrão nesta composição musical.

Embora não constando na pauta musical a que tive acesso, é nesse salmo que encontramos o versículo que encima esta crónica. Reza assim, conforme a tradução da Difusora Bíblica: «O abismo chama outro abismo no fragor das Vossas cataratas. Todas as vossas vagas e torrentes passaram sobre mim.» Ou, conforme o Saltério editado pelo Secretariado Nacional da Liturgia: «Abismo atrai abismo no fragor das águas revoltas; vossas torrentes e vagas passaram sobre mim.»  É o versículo oitavo.

Não me lembro nem quando nem em que circunstâncias terei ouvido, ou lido, pela primeira vez este versículo. Sei que, mesmo na formulação latina, «Abissus abissum invocat», fui-o fixando muito cedo, naquela altura em que o meu professor de Português nos aconselhava a consultar as páginas de frases latinas que apareciam como anexo no Dicionário da Língua Portuguesa então em uso. O jovem professor geralmente explicava o sentido das expressões e, no caso vertente, ia comentando que o que dizia a frase latina correspondia a muito do que acontecia na vida humana. Talvez por isso, até a descobrir mais tarde integrada no cantar e rezar do salmista, a frase latina ficou-me bem gravada na memória.

Sei agora que aquele salmo é o lamento profundo de um exilado que, com saudade dos tempos passados no templo do Senhor, confia com esperança e fidelidade poder contemplar a face de Deus e satisfazer a sede como o veado que corre ansioso a satisfazer-se nas correntes das águas. Tema recorrente, aliás, na literatura clássica, revestida de lirismo bíblico ou de um platonismo sempre presente. Mas limitemo-nos ao aforismo «Abissus abissum invocat», segundo o qual um abismo chama ou atrai outro abismo.

Independentemente do que os exegetas bíblicos digam ou possam dizer analisando o salmo, coadjuvados ou não pelas palavras dos profetas Ezequiel [«Desencadear-se-ão tragédias sobre tragédias» – 7.27] e Jeremias [«Um golpe chama outro golpe.» – 4.20], aquele dizer do salmo foi sendo assumido no uso corrente na descrição de situações do quotidiano viver para traduzir a ideia de que, uma vez entrados num atoleiro moral ou emocional, se poderá cair cada vez mais fundo de onde dificilmente se poderá sair. Assim, um erro provoca outro erro, tal como uma mentira, para ser sustentada, provoca novas mentiras. Uma asneira puxa por outra asneira, e uma pequena falta propicia faltas maiores, tal como um pequeno crime poderá ser a raiz de crimes mais graves.

«Abissus abissum invocat.» Não faltarão exemplos que possam confirmar a verdade do salmo na nossa história recente ou na História da Humanidade. É o conhecido «efeito dominó» em que cada peça arrasta outra até ao final da série ou da «ladeira escorregadia» onde, uma vez entrados, se ganha cada vez maior velocidade e da qual dificilmente se sai a não ser quando se chega a um fundo insuperável indesejado. São Bernardino de Sena [1380-1444], no quadro do seu pensamento económico em que se notabilizou, lembra que o abismo insaciável dos gastos desmedidos traz em si o abismo insaciável dos lucros ilícitos.

A verdade traduzida pelo salmista possui significativa expressão no quadro das ciências humanas e das artes, da Psicologia e da Filosofia, da Literatura e do Cinema. É bem conhecido o aforismo do filósofo da cultura, Friedrich Nietzsche [1844-1900], que, na sua obra Para Além do Bem e do Mal, publicada em 1886, assim escreveu no aforismo 146: «Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, se não transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para dentro de um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.» [Guimarães Editores, trad. De Hermann Pflüger]

Não sabemos se aquele pensador alemão se inspirou ou não na frase do salmista, mas a leitura do seu aforismo não deixará de o evocar no espírito do leitor, mesmo considerando diferenças. Se a expressão latina do salmo acentua uma sucessão – um abismo arrasta outro abismo -, o aforismo de Friedrich Nietzsche centra-se na interacção: o abismo age sobre quem o olha demoradamente. O combate contamina e o abismo transforma-se em espelho: se encaro obsessivamente uma realidade sombria e absurda lutando contra ela, o combate acaba por exigir a utilização de instrumentos semelhantes. Nesta luta vai-se embotando a sensibilidade e o discernimento e desaparece então a fronteira entre o “eu” que o contempla e o “abismo” contemplado. Como também pode desaparecer a fronteira entre o bem e o mal.

Não sei se acontecerá o mesmo com mais gente, mas é disto que me lembro frequentemente nos tempos correntes. Trágicos. Todos os dias nos chegam imagens terríveis de guerras. Os meios de comunicação social vão apresentando, todos os dias, especialistas e comentadores com pretensas análises. E os poderosos falam. E os decisores das guerras justificam. E as justificações são maldições. E as maldições são abismos. Cada vez abismos maiores, mesmo quando soam no mundo as palavras de alguns que ainda possuem alguma autoridade moral. Mas as palavras, clamores da Humanidade, não chegam a calar os sons dos instrumentos que reciprocamente interagem. Na guerra. «Abissus abissum invocat

Aquele salmo é um lamento de um exilado, mas também um grito de fidelidade, de confiança e esperança de quem, como o veado, anseia pelas torrentes das águas. Será por isso que o Salmo levanta, por duas vezes, a pergunta [vs. 6 e 12]: «Porque estás abatida, ó minha alma e te perturbas dentro do mim?». É o desabafo do fiel crente, mesmo quando todos lhe perguntam [v.4]: «Onde está o teu Deus?»

António Salvado Morgado

Guarda, 9 de Março de 2026

[email protected]

Partilhar:
Scroll to Top