Padre Vítor Pereira, Diocese de Vila Real

Valerá a pena propor a quaresma ao mundo de hoje? A quaresma é uma graça, um dom cheio de dons para que a vida seja mais vida e se viva mais em Cristo e para os outros. Para muitos cristãos, em cuja vida Deus está muito ausente, a quaresma, erradamente, evoca um tempo de tristeza, de sacrifícios sem grande sentido, práticas fúnebres e sombrias, incómodos dispensáveis, precisamente numa sociedade que se sacrifica pelas dietas e outras coisas mais. Vivemos numa sociedade que sacralizou dois valores: o prazer e o divertimento sem limites. Propor alguma disciplina, simplicidade, austeridade e emancipação deles é quase ser considerado um herege ou um desmiolado contemporâneo. Felicidade rima com euforia, corações excitados e acelerados, experiências atrás de experiências, sensações atrás de sensações, ruído, volúpia e fruição de toda a espécie. E não há tempo a perder nesta ditadura de estar “sempre plenamente satisfeito” em que vivemos. Tem lá algum sentido escolher o oposto disto? Quem procura ser mesmo cristão e viver a sério como cristão, aceita a quaresma e sente a sua necessidade. Composta de oração, escuta e meditação da Palavra de Deus, conversão e penitência, jejum e abstinência, partilha e caridade, é libertação, maturação, renovação, é um recomeçar de novo, é progredir, é refletir e rever para ser mais, é um ir beber de novo à fonte para continuar a caminhar e ser mais, é morrer para o que tem de se morrer para se cantar com toda a força a vitória do amor e da vida no dia de Páscoa.
Há várias dificuldades que se apresentam diante de nós. Vivemos num tempo de grande confusão, por força da «ditadura do relativismo», e promove-se a despreocupação moral. Sou livre de fazer o que faço, ninguém manda em mim, não tenho de prestar contas a ninguém. Depois, socialmente, há todo um discurso de desresponsabilização e de adormecimento da consciência: tudo acontece porque foram as circunstâncias que o proporcionaram. As pessoas são boas. Estão é na hora errada, no lugar errado. As pessoas são santas. O mundo à sua volta é que as corrompe e deforma. Se não fossem estas más influências e o caldo caótico do mundo, como todos seríamos tão bons…Todos sabemos que não é bem assim. É preciso despertar e quebrar a crosta da nossa consciência, já dura como a terra dos caminhos, que não nos deixa chegar à verdade de nós mesmos e à verdade da nossa vida e de enfrentá-la sem rodeios, também feita de infidelidades, incoerências, hipocrisias, escuridão e sombras. Cada um de nós, neste deserto quaresmal, é chamado a encontrar-se com a verdade da sua vida, sem medo de a questionar e de se questionar a si mesmo, diante da verdade do ser homem, que Deus nos dá a conhecer em Jesus Cristo. Num deserto não há mais ninguém, só nós. É para si e só para si que cada um deve olhar, deixando cair todas as máscaras, todos os subterfúgios, todos os condicionalismos. O mal existe e são pessoas que o fazem, mas que não deviam fazê-lo. Há que crescer e melhorar. Somos levados por Deus ao deserto para reorientar a vida e recuperar o essencial: a nossa identidade de filhos de Deus, que devemos procurar aprofundar. É preciso estabelecer uma relação mais sólida e profunda com Deus, com a Igreja e com os outros. Viver a Quaresma é empreender um caminho de busca de liberdade interior, para nos centrarmos no essencial da vida, para crescermos em humanidade e santidade.
Não é um tempo triste. A fé cristã no seu calendário litúrgico não tem tempos tristes. Viver em Cristo é sempre um acontecimento de alegria e salvação. É um tempo de austeridade e ascese, mas iluminado sempre com a luz da ressurreição de Jesus Cristo, que no dia de Páscoa celebraremos.
Por fim, seria bom que nesta quaresma muitos cristãos católicos questionassem o seu «nem roubo, nem mato», que se ouve com muita facilidade na boca de muitos cristãos, súmula que diz tudo e não diz nada e nos faz atores de um filme de ficção. Quem se lembrou de inventar tamanho disparate? A afirmação, que se ajusta muito à hipocrisia que gostamos de cultivar, encerra vários erros: reduz a vivência da fé ao legalismo minimalista; vê a vida pelo negativo e por aquilo que não se deve fazer e não pelo positivo e que se deve fazer; trata-se Deus como um juiz e não como um Pai que ama; promove um amor calculista e mesquinho com Deus e com os outros. Mente-se descaradamente, recorre-se à vingança, comete-se adultério, vive-se egoisticamente e indiferente às necessidades dos outros, difama-se e calunia-se com requinte e malvadez, é-se invejoso, cultivam-se ódios e rancores, recorre-se à corrupção, abusa-se do álcool e de drogas, é-se trapaceiro e explorador nos negócios, praticam-se falcatruas, desprezam-se os pais, aninham-se e alimentam-se maus desejos, não se tem civismo na rua e na estrada, falta-se ao trabalho e ao cumprimento do dever, traficam-se influências, exploram-se trabalhadores, serve-se a ganância e a avareza, despreza-se Deus e a Igreja, perseguem-se pessoas, projetam-se planos diabólicos, faz-se pouco dos outros e ainda temos a inconsciência e a leviandade para nos pormos de joelhos diante de Deus e dizer «nem roubo, nem mato»? Bem, um dia alguém sempre foi sincero: «Senhor padre, nem roubo, nem mato, de resto tenho-os todos».
Boa Quaresma.
Padre Vítor Pereira
Diocese de Vila Real
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