Vaticano/Portugal: «Certamente vai haver uma visita do Papa Leão XIV» – Maria Amélia Paiva

A 21 de abril assinala-se o primeiro aniversário do falecimento do Papa Francisco. É uma data que convoca a refletir sobre o seu imenso legado humano e espiritual, mas também sobre a forma como o mundo tem procurado responder aos desafios que ele tão incansavelmente denunciou. Para nos ajudar nesta análise, é nossa convidada, da Renascença e da Agência Ecclesia, a embaixadora de Portugal junto da Santa Sé

Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

Um ano após a partida de Francisco, que marca principal considera que este Papa deixou na ação do Vaticano e na forma como a Igreja se relaciona com o mundo?

O Papa Francisco deixou-nos, faz agora um ano, a 21 de abril, as marcas são grandes. O legado do Papa Francisco é um legado muito importante, é um legado de um pontificado que foi muito marcante. Muitos consideram tratar-se de um pontificado de uma revolução gentil ou suave. Mas desde uma igreja de maior simplicidade ou uma igreja de saída, como também muitas vezes se descreve, há já aí uma grande diferença, e por exemplo, e logo no início do seu papado, quando optou por viver na Domus Santa Marta, contribuiu talvez dessa forma para humanizar a figura papal, tornando-a mais próxima e acessível. E por outro lado, logo também nesse mesmo sinal, nas suas primeiras intervenções e nas intervenções que marcaram todo o pontificado, há um sinal de grande proximidade com as periferias geográficas e sobretudo com os pobres, com os migrantes, com os refugiados.

Mas o Papa Francisco deixa um legado muito vasto de reforma, por exemplo, da cúria, uma reforma estrutural de transparência, uma nova constituição apostólica que permite, por exemplo, que mulheres assumam e tenham assumido pela primeira vez cargos de liderança no Vaticano. Implementou mudanças estruturais para uma maior transparência financeira, controlos rigorosos contra a corrupção, enfim, uma reforma também aí estrutural e muito relevante. Mas há mais do que isso, há um combate claro à impunidade, adotou a política da tolerância zero em relação aos casos de abuso sexual, que é uma política muito relevante, apesar de muitas acusações de alguns que acham que devia ter feito ainda mais. Certamente fez um caminho muito importante ao sinalizar isto.

Mas há uma outra área, se posso ainda continuar, de muita relevância, que é a da ecologia integral, nomeadamente com as mensagens muito fortes sobre o cuidado a ter com a casa comum como pilar central, criticando de forma muito clara e muito taxativa a destruição da natureza e o sistema económico excludente, e por isso tantas vezes foi chamado do Papa Verde. A ‘Laudato Si’, a encíclica que celebrou em 2025 os seus dez anos, cristaliza esta forma de olhar para a criação e para o cuidado da casa comum, é talvez um dos textos mais relevantes do pontificado do Papa.

Mas o acolhimento e a misericórdia, o diálogo inter-religioso e a geopolítica da paz. A paz foi uma constante nos apelos do Papa Francisco, e eu lembro de facto um livro que saiu no final de 22, início de 2023, quando o Papa escreveu e foi reunido um conjunto de apelos que ele fez para pôr termo à guerra na Ucrânia.

Mas o diálogo com as outras religiões é todo um conjunto de linhas de atuação que mostram de facto um pontificado muito, muito relevante e por isso é tão importante falar dele e tão importante esta vossa iniciativa de recordar o legado do Papa Francisco.

 

O Papa Francisco, como já referiu, fez vários apelos à paz, aliás falou por diversas vezes da Terceira Guerra Mundial aos pedaços. Por que motivo os apelos que ele fez pareceram tantas vezes incomodar certos centros de poder económico e político? Ainda hoje, com o seu sucessor, por exemplo, está a acontecer o mesmo?

Pois o significado e a importância dessas mensagens são fundamentais e os apelos, infelizmente, nem sempre parecem ser ouvidos, mas no fundo acabam por ser ouvidos e espero que façam o seu caminho e que possamos, de facto, encontrar aqui soluções através do diálogo, através da diplomacia e através da capacidade de nos reconciliarmos uns com os outros. E este diálogo é muito importante, nomeadamente porque quer o Papa Francisco, quer, como disse, o Papa Leão XIV, tem marcado muito também as suas intervenções pela reconciliação e pelo diálogo com os outros. E os outros são todos os outros.

Quando o Papa Francisco usou, muitas vezes, durante a JMJ23 em Lisboa, a expressão todos, todos, todos, ele está mesmo a falar de todos; das outras religiões, dos outros credos religiosos, de todos os outros que muitas vezes não estão na mesa das conversas sobre os temas mais relevantes e, por isso, é  importante falar com todos e os todos não são apenas aqueles que têm o poder político, são também todos os outros que podem ter um papel nesta aproximação, neste diálogo, nesta reconciliação que é tão importante fazermos e, sobretudo, optarmos sempre e sempre pela via da diplomacia e não pela via das armas.

 

A senhora embaixadora falou da JMJ em Lisboa, em 2023, juntamente com as passagens por Fátima, são seguramente marcas que Portugal deixou no pontificado de Francisco. Pergunto também se no contacto com a diplomacia do Vaticano, esses momentos, que foram importantes para nós, também moldam a visão que se tem, em Roma, sobre Portugal e sobre a Igreja por cá? 

Isso certamente, dos contactos que tive aqui, não querendo cometer nenhuma inconfidência, porque não o posso e não o devo fazer, claramente a JMJ tem um marco muito importante neste revigorar do relacionamento entre Portugal e a Igreja Portuguesa e a Santa Sé, entre Portugal, a Igreja Portuguesa e a Santa Sé.

Claramente é um marco muito importante. A JMJ foi um grande sucesso, foi um grande sucesso de uma colaboração muito vasta, de muitos que contribuíram para isso e de uma relação muito próxima que houve entre a Igreja Portuguesa e o Vaticano, que permitiu de facto o sucesso e a vários títulos já me foi referido exatamente esse marco tão importante no relacionamento recente, mais recente, entre Portugal e a Santa Sé.

 

O mundo não parou e a Igreja também não. Desde a eleição do seu sucessor, o Leão XIV, tem encontrado desafios globais, já teve oportunidade de estar com ele e de o ouvir. Que marca própria já se nota na ação do Papa norte-americano?

Acho que a marca está a ser construída, como é natural e como é normal. O Papa tem menos de um ano de pontificado, mas eu acho que há dois ou três temas que são muito recorrentes e de alguma forma são de continuidade entre o Papa Francisco e o Papa Leão XIV.

Antes de mais, eu diria a defesa da paz e da mensagem do Evangelho nesse sentido. E este papel que a Igreja Católica deve ter de continuar a ser uma voz profética de paz e não um agente de poder político. E por isso eu acho que o Papa Leão XIV, de alguma forma, é eleito num contexto que se pode dizer, simplificando certamente, de continuidade e de aprofundamento daquilo que vinham a ser as linhas de força dos pontificados anteriores e sobretudo do pontificado do Papa Francisco.

E claramente o conclave ao escolher o cardeal Robert Prevost, claramente continua nesta linha de um deslocamento do centro de gravidade do catolicismo para o sul global, onde o número de fiéis aumenta, onde há uma expressão cada vez maior também desta atenção às periferias. E eu acho que quando se fala de periferias, quer com o Papa Francisco, quer com o Papa Leão XIV, não estamos apenas a falar de periferias geográficas, estamos a falar de periferias de atenção. Os migrantes, os refugiados, aqueles que de facto enfrentam mais dificuldades num mundo muito complexo. E por isso não creio que haja uma interrupção do discurso geopolítico. …

Falou na questão do Papa Leão e a Santa Sé, se assumirem como porta-vozes do discurso da paz e não como agentes políticos, e é incontornável a polémica dos últimos dias que têm colocado frente a frente o presidente norte-americano e o Papa, embora, enfim, talvez colocar as coisas nestes termos também seja excessivamente simplista. O que eu pergunto é como é que olha como diplomata para esta situação e sobretudo se teme uma escalada nas críticas norte-americanas à figura de Leão XIV?

Eu espero sinceramente que não aconteça, porque eu acho que o Papa Leão tem mostrado, nestes primeiros tempos de pontificado, uma atitude de grande prudência, e porquê é que agora terá feito diferente. Eu acho que a situação internacional e este aumento de conflitos, tínhamos dezenas de conflitos no mundo, mas este último, até com algumas declarações, é de facto de uma gravidade considerável, e eu acho que ele falou com uma enorme clareza. E a clareza dele é ter o Evangelho como bússola, e é daí que vem a clareza das intervenções do Papa.

E por isso mostra, e é testemunho de uma Igreja, que continua a recusar, na minha leitura das palavras do Papa e da sua postura, a sacralização da força das armas, e de facto isto tem sido de uma enorme clareza. Mas o Papa tem feito várias mensagens e vários apelos à paz em relação aos vários conflitos internacionais: à Ucrânia, ao Líbano, ao Médio Oriente em particular, ao Irão, ao Sudão, entre tantos outros. São insistentes apelos à paz que têm sido feitos, como foram com o Papa Francisco, e que agora também são uma constante do Papa Leão. Nesta viagem que o está a fazer, vai ser possível que o Papa continue a fazer esses apelos, porque infelizmente também no continente africano há variadíssimas situações de enorme gravidade, de enormes atropelos do direito humanitário, gerando e criando números muito impressionantes, não só de violações de direitos humanos, mas de refugiados e deslocados internos em variadíssimas situações.

E por isso é natural que, infelizmente, o mundo que temos obrigue o Papa a continuar a fazer estes apelos.

 

Então, do seu ponto de vista, é expectável um aumento desta tensão com o poder político, dado que do Papa não podemos esperar outro comportamento que não seja este que ainda agora referiu, dos consecutivos apelos à paz? 

Eu espero que não, eu espero que os apelos possam ajudar também uma reflexão desses poderes políticos, no sentido de também fazer uma reflexão que os encaminhe para o caminho justo e para o caminho da paz.

 

A ligação de Portugal à Santa Sé é histórica, em relação ao Papa Leão XIV, o Estado português já formulou um convite oficial para que visite o nosso país. Nas conversas que tem mantido com o Santo Padre ou com a Secretaria do Estado, essa possibilidade já foi de alguma forma abordada? 

É evidente que vários já fomos os interlocutores desse convite, mas também a complexidade da agenda papal não nos permitiu ainda obter uma resposta taxativa à aceitação desse convite. Mas vamos ter de aguardar e vamos ter de esperar mais um pouco.

 

Mas o Papa já disse que gostava de vir a Portugal, não é? 

Sim, o gostar de vir é claríssimo, é claríssimo. Ele é também um Papa muito mariano, como foi o Papa Francisco. Agora, o poder dizê-lo de uma forma já muito conclusiva que irá no ano Y, no mês Y ou Z, isso ainda não temos essa resposta, mas acho que temos que também dosar de alguma calma e de alguma paciência, porque certamente vai haver uma visita do Papa Leão, temos é que aguardar pelo calendário.

 

Ainda olhando para o que é esta praxe das relações diplomáticas entre Portugal e a Santa Sé, e sem querer cometer nenhuma inconfidência, pergunto-lhe se é de esperar uma deslocação oficial do novo Presidente da República, António José Segura, ao Vaticano, como aconteceu, por exemplo, com o Marcelo Rebelo de Sousa? 

Não tenho, de momento, nenhuma indicação nesse sentido, mas, enfim, melhor do que eu, a assessoria diplomática ou o gabinete do senhor presidente poderá responder.

 

Olhando para o seu trabalho, que matérias são prioritárias para o Estado português, neste momento, na relação com a Santa Sé? 

Acho que não vale a pena eu entrar muito por aí. Elas são muito intensas, temos uma concordata que, como sabe, celebrou 20 anos em 2024, e que é, de facto, o instrumento que rege a nossa relação. Mas temos, obviamente, muitos temas de interesse comum, nomeadamente, na esfera da diplomacia e na esfera internacional, onde a defesa dos nossos valores, a defesa dos nossos princípios, coincide, basicamente, com aquilo que é também a postura da Santa Sé em relação a essas mesmas prioridades.

E, por isso, estou em crer que elas vão continuar a ser, como têm sido até aqui, relações de grande profundidade, havendo, claramente, a intenção de continuar a aprofundá-las das formas mais diversas. Portanto, como sabe, há vários mecanismos para o fazer, e esses mecanismos estão todos na mesa, e vamos continuar a trabalhar com eles.

 

Partilhar:
Scroll to Top