Santiago de Compostela – Um homem e o seu caminho

Luís Silva, Diocese de Aveiro

A condição de peregrino é das que mais belamente expressam o que é ‘ser-se humano’.

Gabriel Marcel percebeu-o, ao designar o Homem como ‘homo viator’, ‘aquele que caminha’, que ‘faz caminho’… Bem poderia tê-lo dito, cunhando-o como ‘homo peregrinante’. Um qualquer dicionário de latim ajuda-nos a perceber que a densidade do que se diz, neste termo, é maior do que a primeira vista permite vislumbrar. O ‘peregrino’ é aquele que ‘atravessa os campos’, anda ‘pelo campo’, não tanto o ‘campo rural’ (ainda que a ideia não esteja totalmente ausente), mas com o alcance de ‘campo estrangeiro’. O peregrino faz uma ‘longa viagem’. É, de algum modo, estrangeiro em toda a terra, ainda que em toda a terra se demore. É muito distinto do turista, que se acelera, de lugar em lugar, para ver, ver, ver. (Ah, como bem o sabia o autor da carta a Diogneto, no século II, que assim falava da condição cristã como a de quem é estrangeiro em toda a terra, ao mesmo tempo que cidadão da mesma!)

O peregrino, pelo contrário, habita e é habitado. Demora-se, nos espaços e nos tempos, ainda que se saiba não pertencente àquele lugar. Não anda errante, porque o erro não o impede de se encaminhar para a meta que o move.

É por isso que, por se fazer ao caminho, por entre os campos que lhe são estrangeiros, acomoda os pés, prepara o seu coração, mune do fundamental o seu alforge e se faz à vida sem sucumbir às adversidades.

Fiz-me ‘à vida’ com o desejo de não sucumbir às adversidades, entre os dias 18 e 22 de agosto de 2026, percorrendo o caminho português, a partir de Valença.

Não pretendo, porém, com esta partilha, apresentar-me como exemplo (Um só é o Mestre!), mas soprar, com estas palavras, sobre as cinzas que, tantas vezes, repousam, tornando-a opaca, sobre a esperança e mostrar como são muitos os mundos de que se faz um ‘Homem’.

Percorri, num grupo de doze, os mais de 120 kms que separam Valença de Santiago de Compostela. No princípio, éramos um mais um mais um mais um… até aos doze: seis do grupo de jovens de Estarreja (AM, DH, AV, RM, JM e eu, Luís) e seis jovens da ‘Missão País’ (CM, HA, DC, MF, FF e SC)! Acabámos ‘um-que-se-faz-de-doze’: gente de fibra, autênticos ‘buscadores de Deus’. É que o ‘caminho’ entrelaça as histórias e faz com que, no mesmo tempo, se vivam muitas vidas simultâneas: as de todos os que, connosco, caminham o caminho, que jamais voltarão a ser as mesmas, após o entrelaçar caminhado. As dores de uns são as dores de todos. As superações de um alegram o coração de todos.

Doze histórias diferentes de doze mundos distintos, com tempos diversos. Uns mais novos (a grande maioria!), outros mais distanciados do tempo do seu nascer. Encontrámos, no caminho, novos, velhos, coxos e trôpegos, doridos e frescos… Os ombros de uns serviam de apoio à insegura cabeça de outros. É assim o caminho.

Deixámo-nos conduzir, ao longo dos cinco dias, pelos cinco capítulos da carta de São Tiago: um capítulo por dia. A carta em que Tiago nos recorda que a fé sem obras é morta…

Entre as muitas histórias e motivos que levam a que se faça o caminho, há narrativas mais simples, há outras mais densas.

Encontrei, em Padrón, uma das mais marcantes que ouvi, nos últimos tempos.

Este texto é, também, exteriorização da minha profunda unidade de coração com a dor que nela se conta.

Aguardávamos pela hora de abertura do albergue público. A entrada era feita pela ordem de chegada. Tínhamos, por isso, saído muito cedo de Briallos. Havíamos vivido um susto, logo no primeiro albergue, e não queríamos repeti-lo.

Chegados, por volta das seis horas e trinta minutos da madrugada, a Padrón, cujo albergue público tem lotação máxima de 47 lugares, já ali aguardavam dez peregrinos. Fizéramos bem em sair cedinho. A nossa decisão de não marcar lugares e confiar obrigava-nos a este sacrifício suplementar. Talvez, no futuro, venhamos a rever tal opção…

Mas, neste ano, nada havia a fazer e restava confiar. Não deixar reservas (só possível nos albergues privados) densificava a nossa condição de peregrinos. A nossa era uma ‘via’ que, verdadeiramente, depositava toda a confiança no Senhor.

Confirmando que tínhamos vaga, fomos instalando, na pedra fria da calçada exterior ao albergue, os nossos alforges e sacos-camas, preparando-nos para algum descanso até à abertura do alojamento.

Entretanto, chegou A.

(Este meu texto é homenagem àquela que levou A. a realizar o seu décimo quinto caminho, diferente de todos os anteriores…)

A. era português, vindo da margem sul.

Este caminho já fora antecedido de muitos outros, mas era único. Como me disse, perdera a irmã, quinze dias antes, por doença oncológica prolongada. Pudera despedir-se e preparar-se.

Prometera-lhe, no leito de morte, que faria o caminho e que a levaria consigo. (Na história da sua irmã refletia-se a história do meu pai, em luta contra um cancro…)

Trazia, por isso, na sua carteira, duas credenciais de peregrino: a sua e a da sua irmã.

Esperava que lhe emitissem, em nome da irmã, o diploma de peregrino, pois também ela fizera caminho ao seu lado ou, melhor, no seu coração. Sabia-a consigo. Ela fazia caminho com o seu cajado e o seu alforge.

Chorei com ele.

Chorei mais do que uma vez e comovo-me, de cada vez que lembro a sua história.

Disse-me, com a sabedoria de quem sente sem amargura, que estava ali, após ter tentado vários albergues públicos, sempre ocupados. Caminhara quinze horas seguidas (mais de sessenta quilómetros), antes de encontrar aquele albergue. Sabia que não encontrara lugar porque, como me disse, o caminho é feito por peregrinos, mas também por ‘turegrinos’ que ultrapassam outros, através de expedientes pouco coerentes com o ‘caminho’. (Infelizmente, também nisto o ‘caminho’ explicita a condição humana, feita de ‘espertezas’ e sombras.)

A. estava cansado, mas percebia-se-lhe a felicidade. Este era o último albergue, antes da etapa final que o levaria ao regaço do Apóstolo.

Quando parti, no grupo dos ‘doze’, do albergue, A. ainda dormia. Deixei-lhe, sobre a mochila, uma curta mensagem, escrita em papel.

Não sabemos, um do outro, nada mais do que o nome. Mas as nossas vidas jamais serão iguais porque o ‘caminho’ nos entrelaçou.

É assim a condição humana. Somos entrelaçados nas vidas uns dos outros, um entrelaçar que tantos peregrinos visibilizam nos símbolos que guardam e de que nunca mais se desfazem (as pulseiras, as conchas, o chapéu de peregrinos…).

Mas os tempos querem desenlaçar-nos, como se pudéssemos existir e viver sem os demais. Triste ilusão!

Ao pórtico da Glória só se chegará, porém, com os outros, na comunhão dos santos. E quantas lágrimas se derramam, sem que as consigamos estancar, quando nos abraça o Apóstolo! A alegria assume a forma de lágrima fecunda de nova luz sobre o nosso caminhar. É-nos dado, para sempre, um novo caminhar!

 

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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