Não podemos ser indiferentes ao drama migratório

D. António Luciano, Bispo de Viseu

Foto: Diocese de Viseu

Não podemos fechar os olhos e ser indiferentes ao drama humano migratório. A vulnerabilidade a que está exposta hoje a maioria dos migrantes e descolados leva os cristãos a pensar com seriedade em todos aqueles que, por falta de trabalho, de casa, de pão e de ordenado se sentem obrigados a sair da sua terra rumo a um destino desconhecido, onde a possível morte os surpreende e o futuro almejado se torna incerto.

A realidade migratória descontrolada, que continua a ser um tema atual e muito pertinente, como tem vindo a ser noticiado, levou os governantes da Europa comunitária a reunirem-se para tomar conta do fenómeno de milhares de pessoas vindas de Marrocos e de outros países de África que chegam por mar a Ceuta.

Este fenómeno é um alerta para toda a comunidade internacional e para os responsáveis dos povos, que não podem ficar indiferentes à fome, à miséria e à falta de dignidade e respeito pela pessoa humana em muitos lugares do mundo. Trata-se de gente jovem que foge dos seus países em busca de um futuro melhor, mas que apresenta ao mundo um cenário chocante em pleno século XXI.

Este mês, vivemos a Semana Nacional de Migrações, com o tema “da Fragilidade à Esperança”, que nos convidou a renovar o nosso olhar sobre aqueles que deixam a sua terra em busca de segurança, melhores condições, dignidade e esperança.

Se por um lado não podemos ignorar o sofrimento de quem parte, por outro lado não podemos permanecer alheios aos desafios que este fenómeno coloca a fim de dar a quem precisa o mínimo para viver com dignidade.

Quando homens, mulheres e crianças atravessam fronteiras movidos pelo desejo de uma vida melhor, muitas vezes marcados pela pobreza, pela insegurança e pelo desespero, a nossa consciência é chamada a responder. A indiferença nunca pode ser a atitude de quem reconhece em cada ser humano uma dignidade que não depende da sua origem, nacionalidade ou condição.

O acolhimento destas pessoas deve ser sempre pautado pelos princípios do humanismo, mesmo que a resposta seja o regresso às suas origens. As multidões em busca de um nível de vida melhor e os deslocados sem uma perspetiva de futuro são um fenómeno complexo e um grande flagelo mundial, que exige respostas sérias, equilibradas e responsáveis no acolhimento e na integração.

É por isso que têm de ser encontradas soluções imediatas para a política migratória, mas com capacidade de resposta a longo prazo, que deem condições de sustentabilidade a todos. É esperado dos governantes que adotem medidas que regulem a situação, mas que sejam profundamente humanistas e não apenas administrativas e políticas e que respeitem a dignidade da pessoa humana. Não será fácil fazer este caminho, mas torna-se urgente.

À luz dos valores defendidos pelo Papa Leão XIV, que já manifestou a sua preocupação com a situação em Ceuta, somos chamados a colocar a pessoa humana no centro das nossas decisões.

Juntemo-nos ao seu pedido e rezemos pela paz, “para que cessem as guerras no mundo e se encontrem soluções diplomáticas para os conflitos”.

Que a empatia, o respeito e a solidariedade sejam as premissas principais na defesa e na promoção da dignidade dos migrantes, imigrantes e emigrantes.

Não esqueçamos que há quem se aproveite do sofrimento do outro para seu benefício. Combater o tráfico de seres humanos, promover vias seguras e legais de migração, apoiar os países de origem e garantir condições dignas de integração para aqueles que permanecem têm de ser objetivos concretos, que devem ser dialogados e conhecidos por todos.

A Igreja, especialmente neste tempo da Semana Nacional de Migrações, recorda que ninguém deve ser reduzido à condição de estrangeiro ou de problema. Devemos, pelo contrário, saber acolher, integrar e apoiar. “Tudo o que fizerdes ao mais pequenino dos meus irmãos, a Mim o fizestes” (cf. Mt 25, 40).

Que nas nossas paróquias, famílias, locais de trabalho e grupos sociais saibamos dar a mão, principalmente aos que vêm de fora, com gestos concretos de partilha e de solidariedade.

 

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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