«Deixou de haver uma confiança na paz e na estabilidade; as famílias mais vulneráveis ficam com mais ansiedade» – Isabel Jonet

Lisboa, 30 mai 20216 (Ecclesia) – A presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome alerta que as “famílias mais frágeis, do ponto económico”, têm “insegurança pela incerteza” mundial, na paz e na estabilidade, e lembra que “as crises são sempre diferentes”.
“Ainda nos lembramos bem do impacto da pandemia, e aquilo que foi o sobressalto, mas esta crise tem em si, primeiro, o impacto no preço da energia, e inevitavelmente no preço dos cabazes alimentares. Tem alguns impactos que ainda estarão por avaliar, como por exemplo o impacto na agricultura pelo facto de não haver fertilizantes, herbicidas, pesticidas, que também passam pelo Estreito de Ormuz”, disse Isabel Jonet, à Agência ECCLESIA, no contexto da campanha de recolha de alimentos deste sábado e domingo.
A economista observa que “as crises são sempre diferentes”, e esta é “um bocadinho diferente de todas as crises”, as famílias mais frágeis, “mais vulneráveis do ponto de vista económico”, têm insegurança pela incerteza, porque “o mundo mudou”.
“Deixou de haver uma confiança na paz e na estabilidade que os nossos parceiros de defesa traziam, e esta insegurança traz uma grande imprevisibilidade. As famílias mais vulneráveis ficam com mais ansiedade, e esta ansiedade é aquilo que eu sinto hoje neste conjunto de famílias que procuram o apoio do Banco Alimentar. Têm muito medo daquilo que vai vir, e daquilo que se vai refletir numa situação que já de si é muito frágil”, desenvolveu.
Os 21 Bancos Alimentares Contra a Fome em Portugal – em território continental, Açores e Madeira – realizam duas campanhas nacionais de angariação de alimentos, no último fim-de-semana de maio e de novembro; a primeira campanha de 2026 decorre hoje e domingo, dias 30 e 31 de maio, e é necessária a “ajuda de todos”, nos armazéns a organizar as doações, ou nos supermercados a recolher os alimentos.

Isabel Jonet adiantou que “estão a ser apoiadas 370.000 pessoas, através de uma parceria com 2400 instituições de solidariedade social”, esta segunda-feira, dia 25, quando apelou aos voluntários que “continuem a participar nas campanhas do Banco Alimentar, nestas grandes ações de recolha, mas também no dia-a-dia”.
O relatório ‘Portugal Balanço Social 2025’, apresentado no dia 20 de maio, indica que a pobreza baixou, e a entrevistada lembra que “há um atraso em relação à situação real”, a realidade hoje “não tem nada a ver com aquilo que se passava em 2024”.
“Essa é a situação que o Banco Alimentar vive e conhece diariamente: é o melhor barómetro que existe na sociedade portuguesa pelo imediatismo, até daquilo que é a procura, e também a oferta das empresas; nós sentimos um decrescer das doações das empresas, mas também um decréscimo das doações da agricultura, não nos podemos esquecer que houve um impacto enorme na agricultura das tempestades Kristin. A fruta que não se vai colher na região do Oeste, de Leiria e de Santarém ia estar na mesa dos portugueses depois no verão e no outono”, desenvolveu.
Para a especialista “um decréscimo da pobreza são muito boas notícias”, porque “em Portugal quase um quinto da população que vive com menos de 520 euros por mês”, e “é muito difícil” em relação ao “valor da habitação”, e da comida que “as pessoas têm de consumir nas suas casas”.
A presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome, “quase há 34 anos” nesta rede de Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), tem assistido à “alteração do perfil da pessoa que pede”, e afirma que “o que está pior é a situação das famílias que têm um trabalho, por vezes têm dois trabalhos”, já não podem dar mais horas, mas “aquilo que ganham não chega para as necessidades do agregado familiar”.
“O preço da habitação aumentou muito, e muitas destas famílias passaram a ter que alugar um quarto de suas casas para poder pagar o preço da renda da casa, mas também porque se verificou uma inflação dos produtos mais básicos, e nós hoje temos mais famílias de pessoas que trabalham, muitas vezes estas famílias têm crianças, mas não têm folga para nada: não têm folga para as atividades extracurriculares dos filhos, para as visitas de estudo, e isso é muito angustiante, aquilo que ganham nunca chega para poderem ter uma vida pelo menos remediada”, explicou.
“Há ainda muito a fazer na sociedade portuguesa e, portanto, aquilo que me angustia um pouco é que não vejo uma diminuição dos pedidos, aquilo que assisto é uma alteração do perfil de quem pede.”
| A campanha solidária da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome “tem três modalidades”, para além da recolha de alimentos nos super e hipermercados, hoje e domingo, existe também “a campanha Ajuda Vale e a campanha online, através do site alimenteestaideia.pt”, até dia 7 de junho.
Os 21 Bancos Alimentares mobilizam cerca de 40 mil voluntários nesta campanha solidária, presencialmente podem ser doados alimentos em mais de duas mil superfícies comerciais por todo o país. O Programa ’70×7′, este domingo, dia 31 de maio, na RTP2, é dedicado à atividade solidária do Banco Alimentar Contra a Fome e das IPSS parceiras, com destaque para a Associação de Beneficência Luso-Alemã (ABLA Portugal) e para o Centro Padre Alves Correia (CEPAC) dos Missionários Espiritanos. |
CB/OC
