Arcebispo angolano recebeu o Prémio Sakharov, do Parlamento Europeu, em 2001

Luanda, 30 mai 2026 (Ecclesia) – O arcebispo emérito do Lubango, D. Zacarias Kamwenho, faleceu aos 91 anos de idade, esta sexta-feira, dia 29 de maio, no Complexo Hospitalar Pedro Maria Tonha ‘Pedalé’, informou a Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST).
Em comunicado, a CEAST que cumpriu o “doloroso dever de comunicar” a morte de D. Zacarias Kamwenho, a “todos” os sacerdotes, missionários e missionárias, e “a todos fiéis e ao homens e mulheres de boa vontade”, informa que o arcebispo emérito do Lubango faleceu “vítima de doença”, esta sexta-feira.
A Conferência Episcopal de Angola e São Tomé, que D. Zacarias Kamwenho liderou de 1997 a 2003, “ora pelo eterno descanso” do seu arcebispo, e manifesta solidariedade com os fiéis da dioceses que serviu, nomeadamente a Arquidiocese do Lubango, e a Diocese do Sumbe, onde foi o seu primeiro bispo.
A CEAST, no comunicado assinado pelo seu presidente D. José Manuel Imbamba (arcebispo de Saurimo), lembra também os familiares de D. Zacarias Kamwenho, e as Irmãs Franciscanas da Visitação de Maria, uma Congregação Diocesana fundada pelo arcebispo angolano.
Segundo o padre Tony Neves, que esteve em Angola durante a guerra civil, de 1989 a 1994, faleceu “a figura mais importante da história da Igreja em Angola, o único Bispo que atravessou todo o tempo de independência de Angola”, à Agência ECCLESIA.
Num ‘Lusofonias Especial’, dedicado a D. Zacarias Kamwenho, o missionário espiritano português afirma que a história da Igreja e de Angola “não se pode escrever sem gravar o seu nome, as suas palavras proféticas, o seu compromisso pela justiça e pela paz”.
“Conversamos vezes sem conta, partilhamos alegrias e angústias, era sempre uma festa o nosso frequente reencontro. Encontrei-o em Roma na despedida do Papa Francisco e na eleição do Papa Leão. Vi-o, com o seu habitual sorriso, na recente visita do Papa a Angola. Partiu quase sem ter tempo de se despedir, mas deixa um enorme legado, um mina de diamantes ainda por explorar”, partilha o padre Tony Neves.
O missionário português que lamenta a partida de “um amigo”, assinala que há recordações que não o “abandonam”, como, em 2016, o Jubileu dos 150 anos da chegada dos Espiritanos a Angola, em Luanda, e D. Zacarias “não faltou a nenhum dos momentos do denso programa jubilar”.
O arcebispo angolano escreveu o prefácio de ‘Angola. A Igreja Católica pela Paz’, quando era presidente da CEAST, livro do padre Tony Neves que foi publicado em 2001, no ano anterior ao fim da guerra civil
“Foi eleito Presidente da CEAST onde exerceu dois mandatos em momentos históricos muito difíceis: de 1997 a 2003, tempo que inclui o fim da guerra civil, com o Memorando de Luena assinado em 2002. Neste período de cruel guerra civil, liderou a criação do Movimento Pro-Pace (1999) e, com outras Igrejas Cristãs, lançou e presidiu ao Comité Inter-Eclesial para a Paz (COIEPA), fundado em 2000”, recorda o sacerdote português.
D. Zacarias Kamwenho recebeu o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, em 2001, o Parlamento Europeu reconheceu “a firme, imparcial e persistente luta pela paz, pela democracia e pelos direitos humanos em Angola”.
No artigo de opinião ‘Lusofonias’, com o título ‘Obrigado D. Zacarias Kamwenho’, o padre Tony Neves também recorda os dados biográficos do arcebispo que foi nomeado bispo auxiliar de Luanda, em 1974, “em tempo colonial”.
D. Zacarias Kamwenho, que faleceu aos 91 anos de idade, nasceu em 1934, no Chimbundo, uma aldeia da Missão do Bailundo, no interior de Nova Lisboa (Huambo), e foi levado pelos Missionários Espiritanos para o seminário, foi ordenado padre a 9 de junho de 1961, por D. Daniel Junqueira, arcebispo de Nova Lisboa.
Em 1975, foi criada a a Diocese de Novo Redondo – atual Sumbe –, e D. Zacarias foi o seu primeiro bispo, durante 20 anos, até ser nomeado para o Lubango, primeiro como arcebispo coadjutor de D. Manuel Franklin da Costa (1995-1997), e titular de 1997 até 2009; em 2010, já emérito ainda foi nomeado administrador apostólico da Diocese do Namibe.
D. Zacarias Kamwenho esteve no Santuário de Fátima, em 1967, nos 50 anos das aparições, e também participou “felicíssimo” no Centenário das Aparições de Nossa ao Senhora aos Pastorinhos, em 2017.
CB
