Ser irmão entre irmãos

Irmão Eduardo Freitas, Missionário comboniano

Sou o Eduardo Freitas, irmão missionário comboniano. Estou em Lisboa e acabei de chegar do Norte do Uganda, onde vivi dez anos. Parti para este país da África Oriental em Fevereiro de 2013. Poucas semanas depois de celebrar os votos perpétuos como missionário comboniano. Disposto a oferecer a vida para anunciar Cristo com as minhas mãos e o meu coração. Acompanhavam-me sonhos e expectativas.

Fui destinado a Matany, uma missão no Norte do país, no meio de uma região chamada Karamoja. Aí vivi seis anos ao serviço das pessoas trabalhando na farmácia do hospital. Como irmão enfermeiro, aceitei o desafio, dado que não havia um farmacêutico e o hospital necessitava de alguém a dirigir aquele departamento. Aí me senti um irmão entre irmãos.

Encontros autênticos

Foram anos a descobrir a riqueza e os meandros das relações e como elas estão intrinsecamente ligadas ao mundo interior de cada pessoa. Cresci na fé, clarifiquei sonhos e expectativas desafiado pela realidade de viver em multiculturalidade; nesse espaço descobri e apaixonei-me pela interioridade e pela área do acompanhamento psicológico e espiritual, a relação de alteridade e empatia com o outro que é outro-eu.

Alimentei e alimento este desejo (necessidade em cada ser humano) profundo de um encontro genuíno com o outro, sem máscaras. Carl Rogers, psicólogo americano, falava de uma presença de qualidade marcada pela autenticidade. Em Kalongo, onde estive nos últimos quatro anos, experienciei um pouco deste dinamismo. Na escola de obstetrícia desta pequena cidade ugandesa, experienciei quanto a escuta activa e o viver o momento presente, o estar conectado comigo, Deus e o outro é um desafio ao qual Jesus me convida enquanto cristão e agente pastoral. Viver na presença de Deus, estar conectado com os outros, com a Humanidade.

Recordo bem o encontro com uma jovem, a quem vamos chamar Jacinta, estudante de Obstetrícia. Enquanto partilhava o que sentia e as dificuldades que estava a viver para levar para a frente os estudos, disse-me: «Quando tinha 17 anos, fiquei responsável pela minha família. O meu pai teve uma queda e tiveram de lhe amputar um braço, a minha mãe tinha problemas respiratórios, assim, na podiam fazer o trabalho na agricultura e eu, como filha mais velha, tive de arregaçar as mangas. Tive de organizar a casa, o trabalho e cuidar dos meus irmãos. Todos os dias de manhã me sentava com os meus pais e víamos o que íamos fazer.» E acrescentou: «Não houve um dia em que não chorasse, e não houve um dia em que não rezasse. Eu sabia que Deus estava comigo e eu sentia-O muito perto de mim, era como se eu O pudesse tocar. Eu conseguia sentir Deus tão perto e presente.» A Jacinta marcou-me pela intensidade e unidade da experiência humana e espiritual. Experiência que eu — e cada um de nós — somos chamados a viver. Lágrimas que se unem à oração, expressão de sentimentos e de experiência que produz integração e cura. Dor que chama ao abandono e à confiança em Deus. É a esta energia, liberdade e força que a Jacinta me convidou e convida. Podemos sempre escolher a atitude a assumir diante das circunstâncias e desafios da vida. O primeiro livro de Samuel expressa: «O homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração» (1 Samuel 16,7).

O amor de Deus faz-se presente nas pessoas com quem vivemos e convivemos. O sentir tudo e viver tudo — as emoções movem-nos – no encontro com Deus e os outros. Quero abraçar a interioridade para ser testemunha do Reino de Deus.

Irmão Eduardo Freitas
Missionário comboniano

Em Parceria com a Missão PRESS (mensalmente no dia 30)
(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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