Custo de vida é um peso demasiado grande para muitas famílias

D. António Luciano, Bispo de Viseu

Foto: Diocese de Viseu

Vivemos tempos que nos desafiam a olhar com atenção e disponibilidade para o próximo e as suas necessidades.

“Há regras económicas que foram eficazes para o crescimento, mas não de igual modo para o desenvolvimento humano integral. Aumentou a riqueza, mas sem equidade, e assim “nascem novas pobrezas”. Quando dizem que o mundo moderno reduziu a pobreza, fazem-no medindo-a com critérios de outros tempos não comparáveis à realidade atual. Pois noutros tempos, por exemplo, não ter acesso à energia elétrica não era considerado um sinal de pobreza nem causava grave incómodo. A pobreza analisa-se e compreende-se sempre no contexto das possibilidades reais de um momento histórico concreto (Papa Francisco, Fratelli Tutti, n.º21).

Há uma sensação, cada vez maior, de que o futuro é uma incerteza e o mundo está preso por um fio. As guerras e os conflitos, as realidades atuais económicas e sociais, que causam dificuldades a tantas famílias, estão a deixar marcas profundas na sociedade.

O aumento do custo de vida, com a subida da inflação, que se tem vindo a acentuar profundamente, seja no preço dos alimentos, na habitação, na energia, nos transportes e nas despesas que todos os meses têm de ser pagas, não deixam respirar de alívio as famílias.

A preocupação em se fazer contas todos os dias para perceber como chegar ao fim do mês é uma realidade mais alargada do que possamos pensar.

Há idosos que vivem com pensões insuficientes, pais que se preocupam com o futuro dos filhos e jovens que adiam projetos de vida porque não encontram condições para construir a sua autonomia humana, social e económica.

A esta realidade juntam-se outras preocupações como os despedimentos e a instabilidade no mundo laboral. Por detrás de cada posto de trabalho perdido existe uma pessoa, uma família, uma história e muitas vezes um projeto de vida que fica subitamente ameaçado e destruído. O trabalho não é apenas uma fonte de rendimento, mas é também uma realização pessoal, onde se encontra dignidade, realização pessoal, participação na sociedade e crescimento económico com possibilidade de olhar o futuro com mais esperança.

As instituições de solidariedade social e da Igreja, assentes nos pilares da Doutrina Social, sentem grandes dificuldades comprovadas na procura de apoios económicos e sociais, que deem sustentabilidade aos projetos para não deixar faltar às pessoas os bens essenciais para uma vida digna.

Uma das questões que se coloca é: como podem as famílias evitar cair neste abismo de insegurança, medo e angústia? Não existem receitas mágicas nem respostas simples. Mas há caminhos que podem ajudar. O primeiro é não enfrentar as dificuldades em solidão e de modo isolado. Uma família que conversa, partilha as preocupações, procura ajuda quando necessário e mantém vivos os laços de relação e proximidade encontra uma força sobrenatural para enfrentar as dificuldades.

É também necessário recuperar uma cultura de sobriedade, de partilha, de entreajuda e solidariedade social. Num tempo em que somos tantas vezes convidados a consumir mais, precisamos de aprender a distinguir o essencial do supérfluo, dando mais atenção ao desperdício alimentar, que pode matar a fome de muita gente.

A aposta na literacia financeira e saber como gerir o orçamento familiar, distinguir necessidades de desejos, planear despesas, evitar o endividamento e preparar, quando possível, alguma margem para situações imprevistas são aprendizagens importantes. A educação financeira deve ainda fazer parte da formação das pessoas e das famílias, ajudando-as a tomar decisões mais conscientes e responsáveis.

Também os governantes devem reforçar atitudes e medidas de proteção social para que ninguém fique abandonado quando atravessa uma situação de dificuldade. Uma sociedade justa deve criar mecanismos capazes de proteger os mais vulneráveis, apoiar as famílias, defender quem perde o emprego e garantir condições mínimas para uma vida digna.

Como o Papa Francisco escreveu na Fratelli Tutti: “Cuidar do mundo que nos rodeia e sustenta significa cuidar de nós mesmos. Mas precisamos de nos constituirmos como um “Nós” que habita a Casa Comum” (n.º 17).

Todos os que sofrem ou vivem angustiados devem ter fé e esperança. Nunca estamos sozinhos, pois Cristo caminha connosco e ampara-nos nas provações e ilumina todas as formas de pobreza.

A Igreja é chamada a estar presente, através das suas instituições, prevenindo a pobreza e dando ajuda àqueles que dela desejam libertar-se. Felizmente, somos um povo solidário e sempre que somos convidados a partilhar o nosso pão com o próximo, fazêmo-lo com generosidade diante das mais diversas catástrofes.

A caridade é o grande sinal do amor cristão para ajudar os pobres. Ninguém se salva sozinho, mesmo quando o mundo parece preso por um fio. Mas um fio também pode unir, sustentar e aproximar, porque o bem que fizermos nunca ficará sem recompensa.

D. António Luciano, Bispo de Viseu

 

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