António Salvado Morgado, Diocese da Guarda

Encontramo-nos em «Tempo da Criação». Sabê-lo-ão todos os eventuais leitores. Começou a um de Setembro, «Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação», e termina a quatro de Outubro com a festa litúrgica de São Francisco de Assis. Um período de tempo em que as comunidades cristãs, nas suas diversas denominações, são especialmente chamadas à oração, à reflexão e à acção, em favor da Obra de Deus Criador. «Tempo da Criação» é, portanto, tempo ecuménico. Tempo de apelo forte à conversão do olhar, da mente e do espírito.
Desde o início, do início primeiro, todo o tempo é «tempo da criação», mas, porque o esquecemos, o «Tempo da Criação» iniciado a um de Setembro, «Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação», é tempo litúrgico de celebração ecológica para avivar a nossa limitada memória e alertar-nos, para a necessidade de nos situarmos à «altura do tempo» assumindo a responsabilidade do «Cuidado da Criação».
Foi há quase cem anos. Em 1930, José Ortega y Gasset [1883-1955] publica a obra “A Rebelião das Massas”, onde o filósofo madrileno consagrou a expressão «a altura dos tempos» a que dedicou todo o capítulo terceiro. Partindo de um sentido cronológico ou conjuntural de utilização vulgar, Ortega y Gasset dá-lhe uma dimensão normativa ético-política argumentando que cada época possui um nível de vida histórica, técnica e cultural. A «altura do tempo» seria o mais elevado ponto de desenvolvimento que a sociedade alcançou num momento determinado da história que exige das pessoas, instituições, comunidades, da humanidade em suma, novas orientações e exigências comportamentais.
Em várias das suas obras, Xavier Xubiri [1898-1983], discípulo de Ortega y Gasset e expoente máximo da chamada «Escola de Madrid», dá à expressão uma categoria metafísica superando a perspectiva meramente social e cultural de uma época histórica. Num patamar ontológico assim, a «altura do tempo» ganha renovada densidade. Ela é o ponto de elevação da realidade a partir do qual, o ser humano tem de enfrentar a existência criando novas ferramentas e conceitos para responder aos problemas e desafios emergentes. A «altura do tempo» é a «altura» de possibilidades oferecidas pela realidade.
Sem esquecermos o sentido vulgar ou comum da expressão – a expressão refere-se, aí, ao momento ou ocasião de um acontecimento -, passando pela perspectiva sócio-histórica de Ortega y Gasset reflectida num clima político-social de uma época, chegamos, pela mão de Xavier Zubiri, a um sentido existencial ontológico que evoca a ideia de um olhar para a História de um ponto de vista elevado de onde se contempla a realidade em globalidade e profundidade. O tempo não é somente uma linha sequencial e horizontal – passado, presente e futuro – mas possui uma densidade específica constituída pela acumulação de possibilidades para o Homem. É a «altura do tempo». Apreender essa «altura» constitui uma espécie de vocação natural do ser humano e das suas instituições e comunidades.
Na linha horizontal do tempo cronológico, passado, presente e futuro, sucedem-se os fenómenos, naturais, vitais e existenciais onde importa discernir a «altura do tempo», tempo ascendente e tempo descendente. Se o tempo possui «altura», também há a altura do coração que transcende a razão. Bem lá no fundo, o coração é o melhor leitor. Citando a “Gaudium et Spes” do Vaticano II que fala no «desequilíbrio fundamental que se radica no coração do homem», Leão XIV escreve que «As feridas da guerra e a degradação da terra estão, portanto, intimamente ligadas à condição do coração humano… Quando o coração está deformado, as relações sofrem e as estruturas que construímos começam a refletir essa desordem.» Quando o «coração está deformado» é um quando do coração decaído que não estará à altura de ler as possibilidades dos sinais que a «altura do tempo» vai evidenciando.
Poderei estar equivocado, mas nem o Concílio Vaticano II nem os documentos papais posteriores utilizam a expressão «altura dos tempos», mas a ideia filosófica que lhe subjaz constitui um dos pilares da Doutrina Social da Igreja desde a encíclica pioneira de Leão XIII “Rerum Novarum” [1891] até à de Leão XIV “Magnifica humanitas“ dedicada à proteção da pessoa humana na era da inteligência artificial, passando pela teologia conciliar dos «sinais dos tempos» lá está o conceito de «res novae» [coisas novas] a lembrar que a fé tem de estar à «altura dos Tempos» e corresponder aos desafios epocais, seja a revolução industrial, seja a crise climática ou a inteligência artificial.
O Papa Francisco, na Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium” [2013], «na convicção de que a sua aplicação pode ser um verdadeiro caminho para a paz dentro de cada nação e no mundo inteiro» [221] introduziu, entre outros, o seguinte princípio: «O tempo é superior ao espaço» [222]. Trata-se de uma interessante maneira de abordar o tempo histórico na densidade da sua «altura». Com esse princípio dar-se-á mais importância a iniciar e desenvolver «processos do que possuir espaços». Por aí se hão-de «privilegiar as acções que geram novos dinamismos na sociedade» [223], de acordo com o carácter peculiar e as possibilidades de cada época.
Não faltam por aí sinais que o coração precisa de ler de forma a potenciar possibilidades e harmonizar a tensão bipolar entre a plenitude e o limite. O «tempo da criação», hoje e sempre, clama por uma leitura, com discernimento, da «altura do tempo», expressão que, para além de constituir uma curiosa metáfora na língua portuguesa com significado variável conforme as circunstâncias, indicia um exigente patamar ontológico da vida do ser humano, criado entre criaturas para com elas conviver.
Se falamos de um caminho a percorrer que vai «do Tempo da Criação à Altura do Tempo», também é verdadeiro o caminho que vai da «Altura do Tempo» ao «Tempo da Criação».
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