Quando conduzir nos retira a capacidade de olhar nos olhos

Lígia Silveira, Agência Ecclesia

Se entrasse num banco, com diversas pessoas na fila, ignorava o tempo de espera e de forma desassombrada, passaria à frente de todos, para ser atendido?

E numa fila de supermercado? Não estando grávida, não sendo idoso com dificuldade de locomoção, colocava-se à frente, achando-se no direito de ser atendido em primeiro lugar?

Num qualquer serviço público, com resposta a diversas necessidades, quem garante que a minha vez é mais urgente, necessária e prioritária perante todos os outros que aguardam?

Então porque é que permitimos que a faixa lateral numa via de rodagem seja usada para ultrapassagens, para evitar tempo de espera em filas, para que a prioridade individual assuma comportamentos que marcam o coletivo? “Se ultrapassar aqui, lá à frente alguém me vai deixar passar…”

Viaturas privadas e autocarros de serviço público, condutores de diferentes gerações, ‘num salve-se quem puder’, que fazem ler que a sua vida é mais importante e que por isso, a ultrapassagem pela via da berma é um mal menor que se tem tornado banal.

O carro é entendido como uma bolha, onde comportamentos privados não se tornam públicos, quase como se cada espaço no interior da viatura tornasse o condutor invisível.

Mas os gestos falam de nós. Da igualdade que proclamamos, da fraternidade, do exercício da liberdade, do respeito, do lugar que a todos cabe, até da coesão social que na construção do ‘todos’ apresenta como protagonista esse sujeito comum – todos!

São gestos que soam irrelevantes mas que cavam o individualismo, mostram falta de empatia, escassez de entendimento sobre o que significa partilhar o mesmo espaço, o mesmo rumo.

Talvez por me deixar angustiar por esta falta de empatia, ter a possibilidade de assistir a gestos de generosidade, de agradecimento, de espera pelo bem do outro ou de dar a vez, continuam a ser momentos que me comovem. Um simples acesso pode parecer um nada, mas percebo depois a capacidade de me dar esperança, de reforçar a empatia e de me despertar para encontrar e valorizar outros sinais gratuitos.

Talvez quando olharmos nos olhos, possamos reconhecer ali o esforço, a vida a acontecer, tal como a nossa, que deseja apenas ser entendida e reconhecida.

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