«Depois da crise, a pobreza entrou pela classe média adentro» – Eugénio Fonseca

Foto: Joana Bougard/RR

Lisboa, 05 mar 2020 (Ecclesia) – O presidente da Cáritas Portuguesa disse à Ecclesia e Renascença que a situação que se vive no país, relativamente à pobreza, é “inadmissível”.

“Os salários estão muitos desproporcionados e a desproporção torna-se mais escandalosa quando se percebe os desníveis salariais entre aqueles que ocupam lugares de topo e os que operacionalizam a produção. É este desnível, que é escandaloso, que gera a profundidade das desigualdades que sentimos em Portugal”, refere Eugénio Fonseca, na entrevista semanal conjunta que é publica e emitida hoje.

Segundo o responsável, houve uma mudança no perfil da pessoa que ficou em “situação de pobreza”.

“Depois da crise, a pobreza entrou pela classe média adentro”, aponta.

Eugénio Fonseca sublinha, em particular, o impacto nos níveis salariais e na criação de empregos.

“As pessoas querem reconquistar o posto de trabalho que perderam, porque, sem dúvida, a fonte de rendimentos para a maior parte das pessoas são os salários”, recorda.

A Cáritas Portuguesa acaba de apresentar um relatório no qual alerta para “barreiras e obstáculos consideráveis” no acesso aos principais direitos sociais, sobretudo para os grupos mais vulneráveis da população, com destaque para a crise na habitação.

O entrevistado sustenta que o Estado deve ter um papel “regulador”, neste campo.

Segundo o presidente da Cáritas Portuguesa, algumas pessoas tiveram de abandonar as casas onde viviam, “coercivamente”, para que os seus proprietários as colocassem em alojamento local.

“Devia haver um referencial legalmente definido para um teto máximo, que tivesse sempre a ver com as características da própria habitação que se está a pôr no mercado de arrendamento”, indica Eugénio Fonseca.

Outra preocupação da organização de solidariedade e ação humanitária tem a ver com a oferta de creches, para crianças até aos 3 anos, pedindo a “construção de mais equipamentos” e a reconversão dos que já existem.

A Cáritas Portuguesa vai celebrar de 8 a 15 de março a sua semana nacional, com o tema “Cáritas é Amor”, promovendo iniciativas que visam dar a conhecer o seu trabalho no combate à pobreza e exclusão social.

“Entre as atividades destaca-se o peditório público nacional, a partir de quinta-feira, “o único financiamento que a Cáritas tem”, precisa Eugénio Fonseca.

Integrado na Semana Nacional, no próximo dia 10 de março, pelas 10h30, a Cáritas Portuguesa apresenta o 1.º ‘Caderno de Intervenção Sociopolítica’, em Lisboa.

Segundo o presidente da organização católica, “a Cáritas não está apenas no campo da denúncia, mas também no anúncio de alternativas”.

“O Estado tende a dedicar-se mais a respostas de grande vulto e que envolvem milhões de euros, mas estas propostas têm em si a potencialidade de envolver, na linha da subsidiariedade, as organizações que estão mais próximas dos cidadãos”, acrescenta.

Durante o ano de 2019 a Cáritas prestou apoio a cerca de 100 mil pessoas em todo o país; problemas relacionados com o rendimento, o trabalho e o sobre-endividamento continuam a ser as principais razões pelas quais as pessoas procuram apoio social.

Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

Solidariedade: Semana da Cáritas centrada no amor

 

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