Família: «Uma instituição em transformação, mas longe de perder relevância social» – Padre Eduardo Duque

Menor importância da religião e maior preocupação com a conciliação com o trabalho são conclusões do estudo publicado no livro «A Família em Mudança: Valores, Gerações e Desafios na Sociedade Portuguesa»

Braga, 06 jun 2026 (Ecclesia) – O sociólogo Eduardo Duque disse à Agência ECCLESIA que a família é uma “instituição em transformação”, que atribui menos importância à religião e mais aos desafios do trabalho ou das tecnologias digitais, encontrando-se em “processo de reconfiguração”.

“A família portuguesa situa-se entre a herança cultural das gerações anteriores e as exigências de uma sociedade mais democrática, plural e secularizada. Assim, não está em declínio, mas em processo de reconfiguração”, afirmou o sacerdote, professor da Universidade Católica Portuguesa.

Eduardo Duque e José Durán Vázquez são os autores do livro «A Família em Mudança: Valores, Gerações e Desafios na Sociedade Portuguesa», que é apresentado às 16h00 de hoje, em Braga, no Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, e publica um estudo sobre a evolução histórica da instituição familiar, em articulação com os resultados de um inquérito aplicado a 3634 pessoas residentes em Portugal.

O inquérito «A Família na sociedade contemporânea» foi promovido pelo Instituto Secular das Cooperadoras da Família e a Universidade Católica Portuguesa e os resultados foram analisados no congresso internacional subordinado ao tema «Atravessados pelo Amor e pela Esperança – Cuidar as Famílias com(o) o Pe. Brás», inserido nas celebração dos 100 anos de ordenação sacerdotal do padre Joaquim Alves Brás, fundador do Instituto Secular das Cooperadoras da Família.

De acordo com o padre Eduardo Duque, o livro apresenta a família portuguesa “como uma instituição em transformação, mas longe de perder relevância social”, sendo uma das “mais valorizadas pelos portugueses, embora os fundamentos dessa valorização tenham mudado.

Se anteriormente a sua legitimidade assentava sobretudo na tradição, na religião e na autoridade, hoje a família é valorizada principalmente pelas suas funções afetivas, educativas e relacionais. É vista como um espaço de apoio emocional, realização pessoal e socialização dos filhos”.

O sociólogo afirma que a transformação da família faz parte de um “processo mais amplo de modernização social”, traduzido no “o enfraquecimento da autoridade patriarcal, a democratização das relações familiares e uma maior igualdade entre homens e mulheres”.

“A entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho, a redução da dimensão dos agregados familiares, a valorização da autonomia individual e a secularização da sociedade alteraram profundamente os modelos familiares tradicionais”, acrescentou.

As relações familiares tornaram-se mais igualitárias, baseadas no diálogo e na proximidade afetiva. Paralelamente, a influência da religião diminuiu e surgiram novos desafios, como a conciliação entre o trabalho e a família, a falta de tempo, as dificuldades económicas e o impacto das tecnologias digitais”.

O padre Eduardo Duque esclarece que, na família contemporânea, “a fé religiosa continua presente, mas perdeu importância relativamente ao passado”, sendo considerada “prioritária na educação das novas gerações” por uma minoria, assistindo-se à “crescente valorização de valores associados ao bem-estar, à felicidade pessoal e à qualidade das relações familiares”.

O sociólogo adianta que o estudo identifica dificuldade “dificuldades económicas, sobretudo, ligadas à habitação e à educação dos filhos, bem como o impacto das tecnologias digitais, que podem reduzir a interação presencial”.

A partir do estudo e da análise dos resultados do inquérito, os autores sugerem que “a Pastoral Familiar deve partir das necessidades concretas das famílias atuais, reconhecendo que estas continuam a valorizar profundamente a instituição familiar”.

A diminuição da influência religiosa exige novas formas de evangelização centradas na proximidade, no testemunho e no acompanhamento das famílias. Simultaneamente, torna-se importante reforçar redes comunitárias de apoio, promover o diálogo intergeracional e valorizar o papel dos idosos na transmissão de experiências e valores”.

O padre Eduardo Duque aponta ainda como desafio para a Igreja Igreja Católica “o uso equilibrado das tecnologias digitais, ajudando as famílias a fortalecer os laços de comunicação, convivência e solidariedade”.

PR

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