Nunca é demais

Paulo Rocha, Agência Ecclesia

O primeiro aniversário do falecimento do Papa Francisco foi ocasião de memórias, mensagens, sinais… Ocasião para sentir a saudade da sua voz, dos seus gestos, das suas decisões. Não por qualquer revivalismo de um passado recente, mas porque tudo o que disse e fez, entre 2013 e 2025, permanece atual: é necessário retomar, em cada dia, a cada momento, as propostas que deixou, a forma como soube dizer o Evangelho, neste tempo.

Em causa não está a comparação entre pontificados ou personalidades. Cada pessoa tem a sua identidade e é sempre em torno dela que é capaz de construir o bem comum. Está antes em causa a necessidade de não esquecer um património que fez e continua a fazer história, cria humanidade, promove a paz social, gera fraternidade e cuida de tudo e de todos.

Com algum espanto, o primeiro aniversário da morte do Papa Francisco teve impacto mediático diferenciado: nos meios de comunicação social onde o tema “religião” tem a mesma cidadania que qualquer outro, vimos artigos de opinião e análises a um pontificado que deixou marcas em crentes e não crentes; noutros media, que durante tanto tempo deram palco – e bem – a gestos e palavras do Papa Francisco, o dia (quase) foi esquecido. Por causa da ausência de profissionais das redações que durante tanto tempo seguiram o cardeal Bergoglio? Porque outros temas preenchem as tensões mediáticas? Talvez estas e tantas outras razões…

Independentemente dos contextos, é indispensável manter por perto uma personalidade que provocou a comunidade crente a criar mais proximidade com as suas raízes, no acolhimento de todos e na certeza da compaixão para com tudo; e que criou empatia com toda a sociedade, com mulheres e homens e com a história de cada uma e de cada um, na certeza de que a fraternidade e a amizade social são o único programa de vida que distingue a pessoa humana.

Na afirmação deste legado do Papa Francisco, é relevante fazer referência a duas iniciativas do atual Papa, o Papa Leão XIV, anunciadas para os próximos meses. Elas confirmam a necessidade de manter por perto inspirações e propostas que ajudaram a redefinir a presença de uma comunidade crente, a Igreja Católica, na atualidade, na escuta e no diálogo com todas as pessoas, garantida desde logo pelo seu sucessor.

Em junho, Leão XIV convocou os cardeais de todo o mundo para um consistório, uma reunião dos seus diretos colaboradores. Qual o tema? Um documento central no pontificado de Francisco: a exortação apostólica “A Alegria do Evangelho”, um texto programático do anterior pontificado que é apontado como referencial “decisivo” para a Igreja Católica, para passar de uma “pastoral de conservação” para uma “pastoral missionária”.

Depois, em outubro, outro documento do anterior Papa para uma iniciativa do atual Papa: Leão XIV vai retomar a exortação pós-sinodal “Amoris Laetitia” (“A Alegria do Amor”) e convocou os presidentes das conferências episcopais de todo o mundo para escutar sensibilidades de todas as latitudes e, num “discernimento sinodal”, descobrir os “passos a dar na transmissão do Evangelho às famílias de hoje”.

Dois projetos que acontecem por iniciativa do Papa, a partir do Vaticano, e que desafiam a retomar, em cada geografia, o anterior pontificado, as palavras, os gestos, os processos inaugurados. Porque recordar o Papa Francisco, nunca é demais!

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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