Tony Neves

É crioulo de Cabo Verde e diz-se quando estamos felizes porque unidos. E quem o afirmou recentemente foram a Juliana e o André, gondomarenses de nascença, que estão em Cabo Verde num ano de Voluntariado Missionário. Tomaram uma decisão de ‘loucura’ num momento em que estavam bem e com futuro risonho em Inglaterra. Recém-casados, fizeram a preparação exigida para avançarem para uma Missão fora da Europa, ligados aos Missionários Espiritanos, apanhando de surpresa as suas famílias a até os amigos mais próximos. Todos ficaram admirados com o facto de dois jovens formados em Hotelaria e Turismo se desempregarem dos trabalhos que tinham em Inglaterra para dedicarem um ano às crianças e jovens do interior pobre da Ilha de Santiago, em Cabo Verde. E para lá partiram onde a covid veio baralhar o projecto, sem lhes tirar a alegria da Missão e a cumplicidade com um povo que sabe acolher de braços abertos.

Tive a felicidade de os encontrar no seu espaço de Missão: a paróquia de S. Lourenço dos Órgãos. Nesse mês de Fevereiro, a covid não era ainda problema e eles estavam como peixes na sua água preferida, completamente integrados na vida da comunidade e semeando alegria à sua volta. Trabalhavam muito com as crianças do jardim-de-infância fundado e dirigido pelas Animadoras Missionárias. E, chegados de Inglaterra, multiplicavam aulas de inglês ali e na paróquia vizinha de Pedra Badejo. Na paróquia, coordenavam a preparação do Crisma de muitas dezenas de jovens. Encontrei-os felizes e nada arrependidos de terem deixado para trás uma vida calma e bem paga na Grã-Bretanha.

Mas a covid chegou, baralhou-lhes a missão e fechou-os em casa durante meses. Nada os deprimiu ou demoveu da sua missão e nem sequer lhes passou pela cabeça apanhar um dos voos humanitários que os trariam de regresso a Portugal. Ali ficaram de pedra e cal, aproveitando o tempo para aulas de inglês, primeiro lá na comunidade com os padres e animadoras missionárias e, depois, com jovens de máscara e a manter o distanciamento social que a pandemia exigia. Com o regresso das celebrações, vimo-los felizes a reencontrar as pessoas e as comunidades que a covid distanciou e fechou em casa.

Agora sim, aproxima-se o tempo de regressar a Portugal e eles aceitaram escrever um grande dossier para o jornal ‘Ação Missionária’ com o título desta crónica: ‘nu sta djunto!’. Dizem a concluir ‘a quarentena deu-nos a oportunidade de desenvolver ainda mais o relacionamento com a nossa Comunidade Missionária. Desde o primeiro dia que nos fizeram sentir em casa e parte da família. Ao longo deste ano, partilhamos todas as refeições, momentos de oração e momentos de maior relaxamento. Ao todo, somos nove, e nestes meses de confinamento convivemos bastante, pudemos trocar experiências e conhecermo-nos melhor. Neste país que nos acolhe, tivemos a felicidade de conhecer muitas pessoas, algumas com certeza que já nos marcaram para o resto da vida, não só os membros da nossa comunidade, mas também outras que se foram cruzando no nosso caminho. Igualmente especial foi poder celebrar cá as épocas festivas, como o Natal, alguns casamentos, Nossa Senhora de Lourdes e a Páscoa’.

No fim do artigo, a Juliana e o André, confessam: ‘Entre milhares de sorrisos e algumas lágrimas, no íntimo de nosso coração e sempre junto da nossa Família Missionária, vamos continuar lado a lado e de braços abertos, com força, alegria e muita fé neste caminho. Estamos muito gratos e de coração cheio por poder viver esta Missão’.

O encontro de povos e culturas é uma riqueza a capitalizar. Estas experiências provam ao mundo que todos somos irmãos, independentemente das nossas raças, cores ou países de origem. Neste tempo de tantos extremismos, quando se erguem bandeiras de racismos e xenofobias, quando queremos fechar as portas e os corações a quem vem de outras terras…jovens como a Juliana e o André dão-nos um ‘murro no estômago’ e provam-nos, pela sua vida, que o mundo é um espaço sem fronteiras onde todos serão mais felizes de mãos dadas…

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