Tony Neves, em Subiaco e Montecassino
O Jubileu de 2029 da Família Beneditina marcará os 1500 anos da fundação de Montecassino por São Bento, em 529. Durante quatro anos, vão-se percorrer e mostrar ao mundo os ‘Lugares de Esperança’, por onde S. Bento andou. Assim 2026 leva-nos até Núrsia, terra natal do santo. Roma preencherá 2027, Subiaco 2028 e, finalmente, o ano jubilar de 2029 estará ligado a Montecassino.
Ora, S. Bento nasceu em Núrsia e estava já em Roma quando, desagradado com a forma como os cristãos ali viviam, decidiu andar 70 kms e refugiar-se numa gruta de montanha, em Subiaco. O sonho monacal de S. Bento nasceu ali. Peregrinei, mais uma vez, a este lugar que é fonte de inspiração. E não fui sozinho, porque integrei o passeio anual da minha comunidade religiosa. Na atual cidade a alguns kms da gruta, está um painel gigante que diz: ‘Cidade da Imprensa e do Monaquismo Beneditino’. Sim, S. Bento é considerado o pai do monaquismo do ocidente, naquele longínquo fim do sec. V e início do VI.
Dirigimo-nos da cidade de Subiaco para as montanhas onde, no local dessa gruta sagrada, foi construído o atual Mosteiro Beneditino, nos séculos XI e XII.
Os olhos enchem-se de espanto quando vemos, pela primeira vez, o Mosteiro cravado nas rochas da montanha. Encaixado num vale luxuriante, é mesmo ‘o limiar do céu’, como lhe chamou Petrarca! Foi – diz a tradição – construído sobre a gruta onde S. Bento passou três anos a jejuar e a rezar para pedir a Deus inspiração e luzes para o futuro. A visita guiada, feita por um Monge Beneditino, fez-me recuar 15 séculos e tentar imaginar este sonho de S. Bento, tão bem ilustrado nas pinturas belas e simbólicas que marcam paredes e tectos. E foi bom saber que ali, em 1465, se imprimiram os primeiros livros em terras de Itália.
S. Francisco visitou Subiaco em 1223 e ali está um pintura do santo, a mais antiga que se conhece, ainda sem os estigmas que recebeu em 1224, dois anos antes de morrer.
No regresso, paramos e visitamos a Abadia de Santa Escolástica. Fundado por S. Bento em 520, é hoje o mais antigo dos Mosteiros Beneditinos, pois os outros 12 que Bento fundou foram destruídos ou abandonados. Habitam ali 18 monges.
Três anos mais tarde, em 529, o Espírito Santo deu ‘ordens’ a Bento para deixar Subiaco e partir. Chegaria a Montecassino, a 170 kms a sul de Roma. Ali, num pico que domina quilómetros de paisagem de cortar a respiração (520 m de altitude), Bento constrói, sobre as ruínas de uma velha acrópole pagã, um mosteiro dedicado a S. Martinho. Aqui se funda, verdadeiramente, a Ordem Beneditina. S. Bento escreve a Regra que assenta nos pilares da Oração e do Trabalho, dando início à aventura da Vida Monástica no Ocidente. É muito simbólica a sua ligação a S. Escolástica, sua Irmã gémea que faz nascer o ramo feminino da Ordem Beneditina. Ambos estão sepultados na Igreja da Abadia, juntos na morte como na vida. Morreu em 547 e a Ordem já tinha os fundamentos bem alicerçados.
Visitei, dias mais tarde, Montecassino, desta feita acompanhado por dois Padres e duas Irmãs. Fui surpreendido, novamente, pela beleza da montanha, pela grandeza da Abadia e pela conturbada história com que esta visita me confrontou. Bento e os seu Monges revolucionaram a vida dos povos que evangelizaram. Ensinaram a equilibrar o trabalho competente com a Oração ritmada pelas horas do dia, investindo ainda muito na hospitalidade, na assistência aos pobres e na promoção da cultura. A Europa que foi nascendo ao longo da Idade Média tem a imagem de marca de S. Bento e da sua Regra. Valorizou a agricultura, a pecuária, a silvicultura, as artes e os ofícios. No séc. XI, Montecassino tinha 300 monges que irradiavam fé e cultura à sua volta.
Este lugar, tão lugar importante como estratégico, teve quatro momentos críticos, sendo destruído e reconstruído posteriormente: foi tomado pelos Lombardos em 577, pelos Sarracenos em 887, destruído pelo terramoto de 1349 e bombardeado e arrasado pela força aérea americana em 1944, quase no fim da 2ª Grande Guerra Mundial. Nesta última tragédia, foram mortas mais de 400 pessoas na Igreja da Abadia e os edifícios foram quase totalmente destruídos.
Com pedido de desculpas, os Americanos pagariam – com o governo italiano – a reconstrução da Abadia. O Papa Paulo VI – durante o Concílio Vaticano II – visitou a Abadia a 24 de outubro de 1964, para consagrar a atual Basílica e declarar S. Bento Padroeiro da Europa, continente que ele tanto e tão bem ajudou a construir de raiz.
S. Bento e S. Escolástica cimentaram e institucionalizaram a Ordem beneditina neste cimo de montanha que, desde aquele longínquo século VI, inspira milhares de pessoas. Montecassino, será sempre uma fonte de espiritualidade e de paz, assente na Oração e no Trabalho (‘Ora et Labora’), o lema dos beneditinos que abanou a Igreja nos últimos quinze séculos e vai continuar a imprimir nos cristãos uma marca que ninguém quererá nem conseguirá apagar.
Tony Neves, em Subiaco e Montecassino
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