«A Igreja – e as suas atividades – não podem ser mais um meio de dispersão e de divisão do ser humano», disse D. Rui Valério, em congresso da Pastoral Sócio-Caritativa, em Mafra

Lisboa, 16 mai 2026 (Ecclesia) – O patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, convidou esta sexta-feira, em Mafra, instituições e grupos de pastoral social a “voltar a oferecer relações eternas”, num “mundo de conexões frágeis”.
“A Igreja conta convosco, com cada um de vós, para sermos construtores desta rede”, afirmou, no III Congresso Diocesano da Pastoral Sócio Caritativa do patriarcado, com o tema “Caridade em rede – Evangelização”.
Na intervenção enviada à Agência ECCLESIA, D. Rui Valério apontou que “uma das grandes crises do mundo contemporâneo” é que se multiplicaram “as conexões, mas diminuíram as relações”, referindo que seres humanos nunca estiveram “tão ligados tecnologicamente” e talvez nunca tenham estado “tão separados interiormente”.
“Há redes digitais, redes económicas, redes sociais, mas muitas vezes falta a grande rede da comunhão humana. Falta a capacidade de viver verdadeiramente ligados uns aos outros a partir de Deus”, destacou.
Num discurso que partiu do Evangelho de São João, do episódio da pesca milagrosa, o patriarca comparou os discípulos, que trabalham, esforçam-se, mas a rede permanece vazia, com a civilização atual, “extremamente desenvolvida tecnicamente, mas frequentemente cansada espiritualmente”.
“Há abundância de meios e escassez de sentido. Há velocidade, mas pouca direção. Há comunicação, mas dificuldade de encontro verdadeiro. Desenvolve-se um dramático analfabetismo humano e espiritual que impede de encontrar caminhos verdadeiros e fecundos”, alertou.
Evocando a exortação apostólica do Papa Leão XIV ‘Dilexi Te’ [Eu amei-te, em português), na qual o Papa recorda que o drama da pobreza não é só económico, D. Rui Valério acrescentou que a “a perda da capacidade de reconhecer que o ser humano só encontra a sua verdade quando vive em relação é certamente a pobreza mais grave e profunda” do tempo atual.
O homem não foi criado para o isolamento. Foi criado para a comunhão. Por isso, a evangelização não consiste simplesmente em transmitir conteúdos religiosos. Evangelizar é reconstruir relações. É voltar a lançar redes de comunhão onde o individualismo rasgou os laços humanos”, salientou.
Neste sentido, o patriarca de Lisboa defendeu que “em todas as iniciativas eclesiais – de caridade, de evangelização, de oração – deve-se privilegiar o ser em relação”, realçando a importância de entender “cada um não como indivíduo, mas como pessoa”, que “pertence a uma família, a um contexto, a uma rede de relações”.
“A Igreja – e as suas atividades – não podem ser mais um meio de dispersão e de divisão do ser humano. A Igreja tem de ser meio de construção de relações mais profundas e humanas”, frisou.
Refletindo sobre a evangelização, que parte da presença do ressuscitado, o patriarca de Lisboa observou que hoje corre-se frequentemente o “risco de transformar a missão da Igreja numa estratégia organizativa, numa questão apenas sociológica ou funcional”.
No entanto, realçou, a missão nasce do encontro com Cristo vivo, sublinhando que sem Ele, “as redes ficam vazias”, “a caridade torna-se filantropia”, “a Igreja reduz-se a instituição” e “a evangelização perde alma”.
“Por isso, o primeiro grande desafio pastoral não é fazer mais coisas. É voltar à fonte. É reconstruir a vida espiritual. É reaprender a contemplar”, indicou D. Rui Valério.
O patriarca recordou ainda que “o amor a Deus e o amor aos pobres pertencem ao mesmo movimento espiritual” e que a “santidade torna-se, assim, a grande resposta de Deus ao drama humano”.
E isto é decisivo. O mundo contemporâneo procura frequentemente soluções técnicas para problemas espirituais. Mas a Igreja sabe que o coração do homem só é verdadeiramente curado pela santidade. Os santos são a grande rede de Deus lançada sobre a história”, disse.
Voltando ao episódio da pesca milagrosa, D. Rui Valério recordou que “Jesus não diz aos discípulos para abandonarem a rede, mas “manda lançá-la de novo”, ressaltando que isto “é profundamente importante para a Igreja de hoje”.
“São a rede do amor, da dedicação e do serviço. As nossas famílias precisam desta rede. Os jovens precisam desta rede. Os pobres precisam desta rede. Os doentes precisam desta rede. Os idosos precisam desta rede. Os que perderam a esperança precisam desta rede”, vincou.
Nesse sentido, o patriarca sublinhou que “a caridade não é apenas consequência da evangelização”, “a caridade é já evangelização”.

No congresso, que decorreu no Auditório Beatriz Costa, D. Rui Valério aludiu ao tempo atual, profundamente fragmentado, em que tudo “parece dividir-se – opiniões, culturas, gerações, sensibilidades, pertenças” e em que o “homem contemporâneo vive frequentemente rasgado interiormente”, destacando que a “Igreja é chamada precisamente a ser sinal de unidade”.
“Não unidade superficial. Não uniformização. Mas comunhão. E esta comunhão nasce do coração de Cristo”, mencionou.
Segundo D. Rui Valério, “uma das maiores urgências da evangelização contemporânea” talvez seja “criar espaços onde o homem possa experimentar novamente a possibilidade da fraternidade”.
“Os primeiros cristãos evangelizaram o mundo não porque tinham poder, mas porque criaram relações novas. Relações onde pobres e ricos, escravos e livres, homens e mulheres descobriam que eram irmãos. O mundo continua a precisar desta profecia”, evidenciou.
D. Rui Valério refletiu ainda sobre a santidade, apontando esta como “a forma mais alta da caridade”, porque “o santo não oferece apenas ajuda, oferece Deus”.
“Deste modo, é fundamental redescobrir a santidade como o horizonte fundamental de toda a ação da Igreja. Pode ser um desafio, sobretudo nas instituições caritativas, quando a urgência por preencher quadros de colaboradores não permitem que se escolha quem tem já alguma caminhada de fé”, assinalou.
Contundo, segundo o patriarca de Lisboa, “também aí”, a ação destas estruturas “tem uma função fundamental: constituir uma família mais ampla, em que se iniciam processos de fé, caminhos de evangelização”.
“A santidade dos dirigentes, a santidade dos assistentes e todas as formas de colocar em contacto com o decisivo de Deus – que a santidade sinaliza – devem ser sempre oportunidades de mostrar o rosto mais belo da Igreja, que se contempla nos santos”, acentuou.
LJ


